Suíça defende IA mais inclusiva e se aproxima de posições de Brasil, Vietnã e Angola na ONU

A necessidade de impedir que a inteligência artificial aprofunde as desigualdades entre países ganhou mais uma voz na Assembleia Geral das Nações Unidas. Em discurso nesta terça-feira (22), em Nova York, o presidente da Suíça, Guy Parmelin, colocou o acesso à tecnologia e a participação dos países na definição das regras da IA entre os principais desafios da transformação digital, aproximando sua posição de pontos defendidos por Brasil, Vietnã e Angola durante a 81ª Assembleia Geral da ONU. 

Parmelin reconheceu que a inteligência artificial abre possibilidades relevantes para áreas como ciência, economia, medicina e educação, mas advertiu que a tecnologia também pode criar uma “nova divisão” entre os países e sociedades que possuem infraestrutura, conhecimento e capacidade para participar dessa transformação e aqueles que ficarão apenas sujeitos aos seus efeitos. “Precisamos garantir que o progresso tecnológico amplie oportunidades sem ampliar as desigualdades”, afirmou. 

Na avaliação do presidente suíço, não basta ampliar o acesso às ferramentas. Um número maior de países precisa desenvolver competências próprias, beneficiar-se dos avanços da IA e participar das discussões internacionais que estabelecerão as regras para seu desenvolvimento e uso. Ao mesmo tempo, Parmelin advertiu contra uma regulação que simplesmente bloqueie a inovação. Para ele, o desafio está em encontrar um equilíbrio entre permitir o avanço tecnológico e criar condições para que essas tecnologias sejam desenvolvidas e utilizadas de forma confiável e responsável. A Suíça pretende levar essa abordagem ao Geneva AI Summit, previsto para junho de 2027, sob o lema “Bridging Innovation and Trust”. 

Embora parta de uma abordagem diferente, a posição suíça converge em alguns pontos com a discussão levada pelo Brasil à ONU. No discurso de abertura da Assembleia Geral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu a regulamentação das grandes plataformas e da inteligência artificial e criticou a concentração da capacidade tecnológica em poucas empresas. Lula afirmou que seria uma “omissão histórica imperdoável” deixar a IA e as big techs sem regulamentação e acusou um “punhado de tecno-oligarcas” de promover uma corrida tecnológica sem regras e transparência. A posição brasileira já vinha sendo apresentada em fóruns internacionais como uma defesa de uma governança multilateral da IA, com participação dos países do Sul Global. 

O Vietnã adotou uma linha semelhante ao tratar diretamente da distribuição dos benefícios tecnológicos. Também na Assembleia Geral, o presidente e secretário-geral do Partido Comunista do Vietnã, To Lam, afirmou que o futuro tecnológico não garante automaticamente maior igualdade. Segundo ele, o avanço da ciência, da transformação digital e da IA deve reduzir diferenças entre países e ampliar oportunidades, sem criar novas formas de dependência ou fontes de conflito. O governo vietnamita defendeu estruturas de governança inclusivas, seguras, transparentes e responsáveis, com respeito à soberania nacional e à soberania digital, além da participação efetiva dos países em desenvolvimento na elaboração das regras internacionais. 

To Lam também defendeu que economias em desenvolvimento recebam apoio para construir infraestrutura e capacidade digital e tenham acesso mais equilibrado aos resultados do progresso científico e tecnológico. A posição aproxima-se diretamente da preocupação levantada por Parmelin: uma divisão internacional em que alguns países detenham infraestrutura, conhecimento e poder para construir sistemas de IA enquanto outros permaneçam apenas como consumidores das tecnologias desenvolvidas no exterior. 

Angola levou essa discussão para a perspectiva africana. Em seu discurso na ONU, o presidente João Lourenço afirmou que a África precisa participar das decisões estratégicas sobre a governança mundial da inteligência artificial. Ele apontou a IA como ferramenta capaz de contribuir para educação, saúde, agricultura, serviços públicos, pesquisa científica e produtividade econômica, mas relacionou esse potencial à necessidade de reduzir o fosso digital e ampliar infraestrutura, formação e inovação. 

Lourenço defendeu uma governança da IA “mais inclusiva, segura e centrada no ser humano” e afirmou que a cooperação Norte-Sul, Sul-Sul e triangular deve contribuir para fazer da revolução digital um instrumento de inclusão, soberania e desenvolvimento, em vez de uma nova fonte de dependência e desigualdade. O presidente angolano também defendeu maior participação africana nos processos internacionais de decisão sobre inteligência artificial.

Os discursos não representam uma posição idêntica entre os quatro países. O Brasil coloca maior ênfase na concentração de poder das grandes empresas de tecnologia e na necessidade de regulamentação; o Vietnã destaca soberania digital, autonomia para o desenvolvimento e participação dos países emergentes nas regras; Angola concentra sua posição no acesso africano à infraestrutura, à capacitação e aos benefícios econômicos da IA; e a Suíça procura conciliar inclusão e governança com a preservação do espaço para inovação. Há, porém, um ponto comum: a expansão da inteligência artificial não deveria produzir uma divisão permanente entre países capazes de desenvolver e governar a tecnologia e aqueles destinados apenas a consumir seus produtos e sofrer seus impactos.

A fala de Parmelin amplia esse debate ao trazer de uma economia europeia desenvolvida uma preocupação que Brasil, Vietnã e Angola vêm apresentando a partir de diferentes perspectivas: os benefícios da IA não dependem somente da velocidade da inovação, mas também de quem terá acesso à infraestrutura, ao conhecimento e ao processo de elaboração das regras. Nesse ponto, a discussão internacional começa a se deslocar da pergunta sobre quanto a inteligência artificial pode avançar para outra questão: quem poderá participar desse avanço e decidir os limites dentro dos quais ele ocorrerá.