
O Brasil levou ao Japão sua agenda de expansão da infraestrutura digital, com foco em 5G, conectividade por satélite, data centers e cabos submarinos. Os temas foram apresentados pelo ministro das Comunicações, Frederico de Siqueira Filho, durante missão oficial em Tóquio, que também incluiu reuniões com empresas e instituições japonesas ligadas aos setores de tecnologia, telecomunicações e serviços postais.
Durante participação em um congresso do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o ministro apresentou projetos considerados estratégicos para ampliar a capacidade de conectividade do país e atender ao crescimento da demanda por serviços digitais. A discussão envolveu ainda representantes de outros países da América Latina e teve como um dos pontos centrais a busca por novas fontes de investimento para projetos de telecomunicações.
A expansão do 5G está entre as principais frentes apresentadas pela delegação brasileira. O governo também pretende ampliar a infraestrutura de transmissão e processamento de dados, área que envolve desde novos data centers até redes de cabos submarinos responsáveis por grande parte do tráfego internacional de internet.
Outro segmento abordado foi o de conectividade via satélite, considerado uma alternativa para ampliar a cobertura de internet em localidades onde a instalação de redes terrestres enfrenta limitações técnicas ou econômicas. A intenção é combinar diferentes tecnologias para aumentar a disponibilidade de serviços de telecomunicações em regiões ainda com cobertura insuficiente.
A missão também buscou apresentar o mercado brasileiro a empresas e investidores japoneses. Entre os encontros realizados esteve uma reunião com executivos da Rakuten, grupo que atua em áreas como tecnologia, comércio eletrônico e telecomunicações. A conversa tratou de possibilidades de cooperação e investimentos no Brasil.
A comitiva brasileira também visitou a sede do Japan Post para conhecer iniciativas relacionadas à inovação, governança e eficiência operacional no setor postal. A experiência japonesa pode servir como referência em discussões sobre modernização de serviços e incorporação de novas tecnologias ao segmento.
A aproximação com o Japão ocorre em um momento em que o Brasil tenta ampliar investimentos em infraestrutura necessária para sustentar a digitalização da economia. Além do avanço das redes móveis, o crescimento da computação em nuvem, da inteligência artificial e de serviços digitais aumenta a demanda por capacidade de armazenamento, processamento e transmissão de dados.
Nesse cenário, a agenda internacional do Ministério das Comunicações busca aproximar projetos brasileiros de empresas e instituições com capacidade tecnológica e financeira para participar da expansão da infraestrutura digital do país.
Inteligência Artificial
A expansão da inteligência artificial começa a provocar uma mudança na política de telecomunicações do governo federal. Enquanto o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação discute supercomputadores, capacidade de processamento e o desenvolvimento de modelos nacionais, o Ministério das Comunicações começa a se posicionar como responsável por outra parte da equação: construir e estimular a infraestrutura por onde os enormes volumes de dados exigidos pela IA serão armazenados e transportados. Data centers, cabos submarinos, fibra óptica, redes 5G e uma rede privativa do governo formam esse novo mapa.
A estratégia ficou mais explícita nesta segunda-feira, 24 de agosto, durante encontro promovido pela Elea Data Centers com representantes da Universidade de Stanford, empresas, associações, especialistas e integrantes do setor público. Representando o MCom, o secretário de Telecomunicações, Hermano Tercius, afirmou que três políticas em preparação deverão formar o que chamou de “tripé” da transformação digital brasileira: a Política Nacional de Data Centers, a Política Nacional de Cabos Submarinos e o Plano Nacional de Inclusão Digital (PNID).
Segundo Tercius, as três políticas estão em estágio avançado de elaboração e publicação. Somente nas discussões relacionadas a cabos submarinos e data centers, o governo recebeu mais de 1.400 contribuições públicas. “Hoje, no Ministério das Comunicações, uma das principais missões, se não a principal, é construir infraestrutura digital para a base de todo o ecossistema brasileiro”, afirmou.
A declaração ajuda a montar um quebra-cabeça que está espalhado por diferentes programas do governo. O MCom não aparece, até agora, comprando grandes quantidades de GPUs ou financiando diretamente um supercomputador de inteligência artificial. Sua atuação ocorre principalmente nas camadas que ficam abaixo dessa capacidade computacional: data centers, fibra, 5G, redes de transporte e conexões internacionais.
É, numa comparação simples, a construção das estradas por onde os dados da inteligência artificial terão de trafegar. E já existe dinheiro relevante envolvido. O cuidado necessário é não colocar tudo na mesma conta. Há recursos públicos, dinheiro do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust), obrigações assumidas pelas operadoras no leilão do 5G e bilhões de reais em investimentos privados que recebem incentivos do governo. São fontes diferentes e não podem ser simplesmente somadas como investimento público em IA.
Data centers
A conexão mais direta entre a política do MCom e a inteligência artificial está nos data centers. O governo já abriu a possibilidade de utilização do Fust para financiar esse tipo de infraestrutura, uma mudança importante para um fundo criado originalmente para ampliar a universalização das telecomunicações.
O Caderno de Projetos do Fust passou a incluir expressamente projetos de Data Centers/Core de Rede. Na prática, isso permite que recursos do fundo sejam utilizados para financiar construção, ampliação e modernização dessas instalações.
A possibilidade já saiu do papel. Em janeiro de 2026, o BNDES aprovou R$ 233,46 milhões para a Tec.to Data Centers, empresa do grupo V.tal, ampliar o Mega Lobster, em Fortaleza. Segundo o banco, foi o primeiro data center brasileiro financiado com recursos do Fust.
O empreendimento deverá atingir 20 megawatts de capacidade de tecnologia da informação até 2029. O financiamento representa aproximadamente 40% do investimento previsto no projeto. O precedente é particularmente importante na era da IA porque abre caminho para que recursos de uma política pública de telecomunicações ajudem a financiar a infraestrutura física onde poderão ser instalados servidores e aceleradores utilizados para processamento intensivo.
O próprio acompanhamento do Plano Plurianual do governo já registra a instalação de data centers no Brasil entre as medidas relacionadas à atuação do Ministério das Comunicações. E aponta três instrumentos utilizados para estimular esses investimentos: financiamento por meio do Fust e do BNDES, compromissos decorrentes do acordo da Oi no Tribunal de Contas da União e aprovação de projetos para captação por meio de debêntures incentivadas.
Essa última frente movimenta valores muito maiores, embora não represente desembolso direto da União.
O MCom já autorizou, por exemplo, projeto da Claro envolvendo captação de até R$ 5,715 bilhões para investimentos que abrangem 5G, redes de transporte, acesso, virtualização e centros de dados. Também foram autorizadas captações de R$ 3 bilhões pela Fibrasil, R$ 2 bilhões pela V.tal e R$ 300 milhões pela Unifique em projetos de infraestrutura de telecomunicações. No caso da V.tal, o projeto inclui data center e virtualização de redes.
São bilhões de reais relacionados à infraestrutura digital, mas seria incorreto contabilizar esses valores como investimento público. O papel do governo, nesses casos, é criar condições tributárias mais favoráveis para que empresas privadas consigam levantar recursos no mercado e executem os projetos.
A Política Nacional de Data Centers citada por Tercius deverá organizar parte desse ambiente. Até agora, porém, ela aparece muito mais como instrumento regulatório e de indução de investimentos do que como um novo programa bilionário financiado diretamente pelo orçamento do MCom.
O governo trabalha com a perspectiva de que o mercado brasileiro possa receber dezenas de bilhões de reais em novos investimentos privados em data centers nos próximos anos. A inteligência artificial aumenta a pressão sobre esse mercado porque os novos centros de processamento exigem enormes quantidades de capacidade computacional, energia, refrigeração e conectividade.
Cabos submarinos
O segundo componente da estratégia é menos visível para o usuário, mas fundamental para a IA. Praticamente todo o tráfego internacional de dados do Brasil passa por cabos submarinos de fibra óptica. Quanto maior a utilização de serviços de nuvem, treinamento de modelos e transferência de grandes bases de dados, mais estratégica se torna essa infraestrutura.
O MCom trabalha na elaboração de uma Política Nacional de Cabos Submarinos que deverá estimular novas rotas, ampliar a diversidade dos pontos de aterragem e melhorar o ambiente regulatório para implantação da infraestrutura.
Entre as ideias em discussão está uma particularmente relevante: a construção de uma espécie de corredor submarino ao longo do litoral brasileiro.
O projeto vem sendo discutido tecnicamente como uma rede costeira em topologia “festoon”, na qual diferentes pontos do litoral seriam interligados por cabos submarinos. Seria, na prática, uma espécie de cabotagem dos dados, permitindo transportar grandes volumes de informação entre diferentes regiões sem depender exclusivamente das redes terrestres tradicionais.
O governo e o setor privado já discutiram alternativas como parceria público-privada, coinvestimento e contratação antecipada de capacidade. Mas ainda faltam respostas essenciais para dimensionar o projeto: quanto custará, quem financiará a infraestrutura, quem será seu proprietário e operador e qual papel poderá ser reservado à Telebras.
Uma rede desse tipo pode ter importância especial para a política de data centers. Hoje, Fortaleza ocupa posição privilegiada por concentrar a chegada de numerosos cabos internacionais. Uma infraestrutura costeira de grande capacidade poderia facilitar a conexão de novos polos de processamento em diferentes regiões do litoral e criar rotas alternativas para o transporte dos dados.
O MCom também trabalha em mudanças legais e regulatórias para facilitar a instalação de novos cabos. Entre as propostas está a centralização dos procedimentos de licenciamento, reduzindo a quantidade de interlocutores necessários para implantação das infraestruturas.
Rede nacional
Uma terceira camada já está em construção e envolve investimentos que originalmente não foram apresentados como projetos de inteligência artificial, mas que poderão sustentar sua expansão.
O Novo PAC colocou conectividade e inclusão digital entre suas prioridades. O conjunto anunciado envolve dezenas de bilhões de reais em expansão do 4G e 5G, conexão de escolas e unidades de saúde, construção de infovias e implantação de redes governamentais.
Somente para expansão de 4G e 5G foram anunciados R$ 18,5 bilhões, parte relacionada aos compromissos assumidos pelas empresas no leilão da quinta geração móvel. Outros R$ 6,5 bilhões foram associados à conectividade de escolas e unidades básicas de saúde. Os valores precisam ser tratados com cuidado porque existem programas e fontes que se sobrepõem e, portanto, não podem ser simplesmente adicionados para produzir uma cifra única de investimento governamental.
No Norte Conectado, por exemplo, o planejamento envolve nove infovias e aproximadamente 13,2 mil quilômetros de fibra óptica, com investimento da ordem de R$ 1,3 bilhão. A infraestrutura utiliza inclusive cabos subfluviais instalados nos rios amazônicos para criar grandes corredores de transmissão de dados em uma região onde a construção de redes terrestres enfrenta enormes dificuldades.
Mais de seis milhões de pessoas já se encontram na área potencialmente beneficiada pela infraestrutura. Embora o programa tenha nascido com objetivos de inclusão digital e expansão da banda larga, essas fibras também poderão transportar os dados de hospitais, universidades, órgãos públicos, empresas e aplicações de inteligência artificial.
Isso mostra uma característica da infraestrutura necessária à IA: boa parte dela não precisa carregar essa denominação para servir aos novos sistemas. Uma rede de fibra construída hoje para conectar uma universidade amazônica poderá amanhã permitir que pesquisadores utilizem remotamente um supercomputador instalado a milhares de quilômetros dali.
Rede privativa
Há ainda uma infraestrutura que ganha importância quando inteligência artificial, segurança pública e serviços governamentais começam a se aproximar.
A Rede Privativa de Comunicação da Administração Pública Federal tem investimento estimado em aproximadamente R$ 1 bilhão, financiado a partir das obrigações decorrentes do leilão do 5G. A previsão é concluir o projeto até dezembro de 2027.
A parte fixa deverá chegar a cerca de 6,5 mil pontos nas 27 capitais. Há também uma rede móvel destinada a comunicações críticas governamentais.
A lógica é permitir que informações sensíveis do Estado possam circular em infraestrutura segregada das redes comerciais tradicionais, com requisitos específicos de disponibilidade e segurança. Na medida em que órgãos públicos passem a utilizar sistemas de IA para analisar imagens, grandes bases de dados, informações de segurança e serviços digitais, essa rede poderá funcionar como uma das principais vias de transporte dessas informações.
É mais uma demonstração da diferença entre infraestrutura para IA e capacidade computacional de IA. A rede permite transportar dados de maneira segura, mas não executa os modelos. Para isso são necessários data centers, servidores, GPUs e outros aceleradores.
Inclusão digital
O terceiro braço do tripé anunciado por Hermano Tercius, o Plano Nacional de Inclusão Digital, ocupa posição diferente. O PNID procura organizar políticas de acesso e identificar as regiões e grupos que permanecem excluídos da transformação digital.
Um grupo interministerial vem trabalhando na elaboração do plano, discutindo diagnóstico, metas e indicadores. Na estratégia para inteligência artificial, seu papel pode ser justamente evitar que o avanço de aplicações cada vez mais sofisticadas ocorra sobre um país que ainda apresenta diferenças significativas de conectividade.
Isso coloca uma questão adicional na política de IA. Não basta possuir supercomputadores e grandes data centers se parte da população, escolas, hospitais e administrações municipais não tiver conectividade suficiente para acessar os serviços que rodarão nessas máquinas.
Divisão de tarefas
As iniciativas começam a revelar uma divisão de funções dentro do próprio governo federal. O MCTI vem concentrando as discussões relacionadas à capacidade computacional, supercomputadores e desenvolvimento tecnológico. O MCom avança sobre a infraestrutura de conectividade e armazenamento necessária para sustentar esse ecossistema. BNDES e Fust aparecem como mecanismos de financiamento, enquanto Serpro, Dataprev e Telebras ocupam posições diferentes na infraestrutura estatal.
O resultado é uma política de infraestrutura para inteligência artificial que ainda não aparece consolidada em uma única rubrica orçamentária. Ela está espalhada por fundos, financiamentos, obrigações regulatórias, empresas estatais, programas do PAC e investimentos privados incentivados.
É justamente aí que está a diferença entre o tamanho do discurso e o dinheiro efetivamente comprometido.
O Brasil já possui bilhões de reais contratados ou vinculados à expansão de fibra óptica, 5G, redes governamentais e outras infraestruturas capazes de transportar os dados da inteligência artificial. O Fust começou inclusive a financiar data centers. Há ainda dezenas de bilhões de reais de investimentos privados que o governo procura induzir por meio de incentivos e políticas regulatórias.
Mas isso não significa que exista valor equivalente comprometido para a capacidade computacional nacional de IA. Até agora, não aparece no MCom um programa de dimensão semelhante destinado à compra de GPUs, aceleradores ou à construção de grandes clusters públicos de processamento.
A diferença é fundamental. O governo está acelerando a construção das estradas digitais por onde circularão os dados e tentando criar condições para que o setor privado construa parte dos locais onde eles serão armazenados. A próxima pergunta é saber onde estarão as máquinas que efetivamente processarão a inteligência artificial brasileira, quem será dono delas e quanto dinheiro público já está realmente reservado para que essa capacidade fique dentro do país.








