Com TOTVS na presidência e Big Techs no conselho, Brasscom reforça papel de interlocutora do governo

A eleição da nova diretoria e do Conselho de Administração da Brasscom para o biênio 2026-2028 revela mais do que uma simples renovação de mandatos. A composição escolhida pelas associadas consolida o papel da entidade como uma das principais estruturas de representação política do setor de tecnologia brasileiro e evidencia um equilíbrio delicado entre empresas nacionais e multinacionais na definição da agenda digital do país.

A recondução de Laércio Cosentino, fundador da TOTVS, para a presidência do Conselho de Administração mantém no topo da governança uma liderança historicamente associada ao desenvolvimento da indústria nacional de software. A escolha não é trivial. Em um setor cada vez mais dominado por plataformas globais de computação em nuvem, inteligência artificial e infraestrutura digital, a permanência de um executivo ligado à maior empresa brasileira de software sinaliza uma preocupação das associadas em preservar espaço para a visão da indústria nacional dentro da entidade.

“Meu propósito é fortalecer a liderança da Brasscom, assegurando que a associação siga sendo conduzida por quem protagoniza a evolução digital brasileira e possui o trânsito institucional necessário para articular o diálogo entre setor privado e poder público. Em um momento de rápidas transformações, especialmente com o avanço da inteligência artificial e o desafio da formação de talentos, minha atuação estará direcionada a manter o protagonismo da entidade na formulação de políticas que ampliem a competitividade do Brasil e consolidem uma economia efetivamente digital”, destacou Laércio Cosentino.

A composição da diretoria reforça essa leitura. Dos cinco cargos principais, três são ocupados por empresas de origem brasileira: TOTVS, BRQ e TIVIT. Os outros dois assentos pertencem à IBM e à NTT Data, gigantes globais da tecnologia. O desenho cria um equilíbrio entre interesses nacionais e internacionais justamente em um momento em que o governo federal discute temas estratégicos como soberania digital, inteligência artificial, política industrial, formação de mão de obra especializada, tributação da economia digital e contratação de serviços em nuvem.

Quando a análise se amplia para o Conselho de Administração, entretanto, o cenário muda significativamente. Entre os conselheiros efetivos e suplentes aparecem representantes da Amazon Web Services, Microsoft, Claro, Vivo, Capgemini, DXC, Unisys, KPMG e Sonda. Ao lado delas figuram empresas brasileiras como Elea Data Centers, Semantix, Solutis e Cidade Ágil.

Na prática, apenas quatro empresas da composição ampliada podem ser classificadas claramente como organizações de capital nacional. A ODATA, embora tenha sido criada no Brasil, atualmente pertence ao grupo norte-americano Aligned Data Centers. Isso significa que a maioria dos assentos da governança da Brasscom está vinculada a grupos multinacionais que possuem interesses globais e forte atuação no mercado brasileiro.

Essa característica ajuda a explicar a influência crescente da associação junto ao governo federal. A Brasscom reúne alguns dos maiores empregadores do setor de tecnologia, grandes operadoras de telecomunicações, fornecedores globais de nuvem, consultorias, empresas de software e operadores de data centers. Trata-se de um conjunto que movimenta dezenas de bilhões de reais por ano e participa diretamente de praticamente todas as discussões relevantes sobre transformação digital do Estado brasileiro.

Nos últimos anos, a entidade ampliou sua presença em debates sobre regulação da inteligência artificial, políticas de formação de talentos, reforma tributária, incentivos à indústria digital, conectividade, proteção de dados, computação em nuvem e modernização dos serviços públicos. A associação tornou-se interlocutora frequente de ministérios, do Congresso Nacional, do Tribunal de Contas da União, de agências reguladoras e de órgãos responsáveis por políticas de inovação.

O próprio discurso de Laércio Cosentino após a eleição evidencia essa vocação. Ao destacar a necessidade de “trânsito institucional” para articular o diálogo entre setor privado e poder público, o executivo reconhece que a principal função estratégica da Brasscom atualmente não é apenas representar empresas, mas influenciar a formulação de políticas públicas capazes de moldar o futuro da economia digital brasileira.

Esse posicionamento, contudo, também levanta questionamentos sobre representatividade. Embora a entidade seja frequentemente apresentada como porta-voz do setor de tecnologia, sua composição mostra predominância de grandes corporações e multinacionais. Startups, pequenas desenvolvedoras, empresas regionais de software e prestadores de serviços de menor porte possuem participação muito mais limitada na estrutura decisória da associação.

A nova configuração também ocorre em um momento de profundas transformações no mercado. O avanço da inteligência artificial, a expansão dos data centers, a corrida por infraestrutura de nuvem e a crescente digitalização dos serviços públicos colocam as empresas associadas em posição privilegiada para influenciar decisões governamentais que movimentam bilhões de reais em investimentos.

Por isso, a eleição da Brasscom interessa não apenas às empresas do setor. Ela ajuda a identificar quem terá assento privilegiado nas discussões sobre o futuro digital do país. E a composição escolhida para os próximos dois anos indica que esse debate continuará sendo conduzido por uma combinação de grandes grupos nacionais e gigantes globais da tecnologia, reunidos em uma entidade que se tornou uma das mais influentes interlocutoras do governo na formulação da política digital brasileira.

Conselho de Administração (Biênio 2026-2028):
 

Presidente do Conselho de Administração: Laércio Cosentino (Presidente do Conselho de Administração da TOTVS)

Vice-Presidentes:

  • Benjamin Quadros (Executive Chairman da BRQ)
  • Ricardo Neves (Chairman na NTT Data)
  • Marcelo Braga (Presidente da IBM Brasil)
  • Valdinei Cornatione (CEO na TIVIT Brasil)

Membros do Conselho de Administração:

  • Adriano Contrera (CEO da Capgemini para a América do Sul)
  • Alessandro Lombardi (Founder & CEO da Elea Data Centers)
  • Alex Salgado (Chief Operating Officer Vivo Brasil)
  • Cleber Morais (Country Director da Amazon Web Services – AWS)
  • José Formoso (Conselheiro da Claro Brasil)
  • Marcel Valverde (VP & General Manager LATAM da Unisys)
  • Priscyla Laham (Presidente da Microsoft Brasil)
  • Ricardo Scheffer (CEO do Grupo Sonda)
  • Leonardo Santos Poça D’Água (Founder and Chairman da Semantix)*
  • Ricardo Alário (CEO da ODATA)*
  • Paulo Marcelo (CEO da Solutis)
  • Ricardo Ferreira (VP & General Manager LATAM da DXC) – 1º Suplente do Conselho de Administração
  • Charles Krieck (CEO da KPMG) – 2º Suplente do Conselho de Administração
  • Joel Palombo (CEO da Cidade Ágil) – Suplente do Conselho de Administração – Colaboradora

Conselho Fiscal (Biênio 2026-2028):

  • Marco Girardi (CFO da Elea Data Centers)
  • Miguel Galvão (CFO da DXC)
  • Atilio Rulli (VP de Relações Públicas América Latina e Caribe da Huawei)
  • Daniel Venturini (CFO ília Digital) – Suplente