
A corrida mundial pelos minerais críticos deixou de ser apenas uma disputa entre mineradoras. Estados Unidos, China, Brasil, União Europeia, Reino Unido, Índia e Rússia estão colocando o Estado diretamente no centro da competição, seja por meio de financiamento público, subsídios, participação em empresas, garantias de compra, estoques estratégicos, controle das exportações ou apoio à aquisição de minas no exterior.
A mudança é importante porque a disputa não se resume mais a descobrir quem possui as maiores jazidas. O objetivo passou a ser controlar toda a cadeia: extração, processamento, refino, reciclagem e fabricação dos componentes industriais que dependem desses minerais.
Lítio, grafite, níquel, cobre, cobalto e terras raras são insumos de baterias, redes elétricas, turbinas, semicondutores, data centers, equipamentos militares e praticamente toda a infraestrutura da transição energética e digital.
E os sete grandes polos dessa disputa adotam estratégias bastante diferentes.
Estados Unidos
O governo Donald Trump é provavelmente o caso mais explícito de transformação dos minerais críticos em política de Estado e segurança nacional.
Em janeiro de 2026, Trump determinou que seu governo negociasse acordos internacionais para enfrentar a dependência americana de minerais críticos processados importados. A proclamação presidencial chegou a mencionar a possibilidade de preços mínimos para minerais críticos e outras medidas comerciais.
Em julho, uma nova ordem executiva determinou que materiais e componentes críticos utilizados pelas Forças Armadas sejam obtidos domesticamente ou de países aliados.
O braço financeiro acompanha a política industrial.
Em agosto, a Casa Branca anunciou mais de US$ 2 bilhões em novos projetos relacionados à mineração, além de US$ 180 milhões destinados à formação profissional. Entre os aportes estão US$ 150 milhões para a Niron Magnetics, fabricante de ímãs permanentes sem terras raras, e mais de US$ 85 milhões para a Strategic Bauxite.
O Departamento de Energia abriu ainda uma linha de até US$ 500 milhões destinada ao processamento doméstico de minerais críticos, reciclagem e fabricação de materiais e componentes para baterias. A chamada contempla lítio, grafite, níquel, cobre e alumínio, entre outros minerais.
Washington está, portanto, utilizando simultaneamente política comercial, compras militares, financiamento, subsídios e participação direta do Estado para reconstruir cadeias industriais que durante décadas migraram para outros países.
Documentos e programas — EUA
• Investimentos anunciados pela Casa Branca em agosto de 2026: Fact Sheet da Casa Branca
• Programa de US$ 500 milhões do Departamento de Energia: Critical Materials Processing and Manufacturing
• Ordem sobre minerais e cadeias militares: Executive Order 14415
• Proclamação sobre importações de minerais processados: Presidential Proclamation de janeiro de 2026
China
A China está numa posição diferente. Não precisa construir do zero uma indústria de minerais críticos: procura preservar a liderança acumulada durante décadas, especialmente no processamento e refino.
Pequim transformou formalmente terras raras em recurso submetido a forte coordenação estatal.
O Regulamento de Administração de Terras Raras, aprovado pelo Conselho de Estado e vigente desde outubro de 2024, estabelece planejamento estatal para o setor, proteção dos recursos e desenvolvimento tecnológico, além de regras para mineração, fundição, separação, distribuição, importação e exportação.
A política chinesa combina controle industrial com instrumentos comerciais.
Em abril de 2025, o Ministério do Comércio e a Administração Geral das Alfândegas estabeleceram controles de exportação para determinados produtos relacionados a terras raras médias e pesadas.
Isso dá a Pequim um instrumento que os países importadores não possuem na mesma escala: além de controlar parcela relevante da capacidade industrial, pode administrar a saída internacional de materiais e tecnologias estratégicas.
Enquanto Estados Unidos e Europa gastam bilhões para diminuir sua dependência, a vantagem chinesa decorre justamente de possuir uma cadeia já instalada — da mineração aos materiais refinados e componentes industriais.
Documentos e programas — China
• Regulamento nacional de administração das terras raras: Rare Earth Administration Regulations — Conselho de Estado
• Controle de exportações de terras raras médias e pesadas: Announcement nº 18/2025 — Ministério do Comércio
Brasil
O Brasil acaba de entrar nessa disputa com uma estrutura legal inteiramente nova.
A Lei nº 15.506, de 16 de setembro de 2026, instituiu a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos e criou o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos, o Cimce.
A palavra mais importante no nome do conselho talvez seja justamente industrialização.
A estratégia procura impedir que a política mineral brasileira se limite à abertura de minas e à exportação do minério bruto. Beneficiamento, processamento, transformação, tecnologia e agregação de valor passaram formalmente a integrar a política nacional.
No mesmo movimento, o governo regulamentou o Cimce. O Decreto nº 13.118/2026 colocou o conselho sob a Presidência da República e atribuiu a ele a elaboração e aprovação do Plano Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.
O Estado brasileiro já dispõe também de um instrumento financeiro específico.
O BNDES Finem – Minerais Críticos e Estratégicos pode financiar desde exploração e pesquisa mineral até estudos de viabilidade, lavra, beneficiamento, refino e transformação mineral. O financiamento alcança ainda a fabricação de materiais utilizados em baterias, motores elétricos, veículos eletrificados e outras tecnologias de baixo carbono.
É uma diferença fundamental em relação às políticas minerais brasileiras do passado: o banco público pode acompanhar praticamente toda a cadeia, inclusive a industrialização posterior à mina.
O grande teste será verificar quanto dos recursos públicos e dos incentivos efetivamente resultará em processamento e tecnologia permanecendo no Brasil, em vez de simplesmente aumentar a capacidade de extração de empresas que posteriormente processam o minério no exterior.
Documentos e programas — Brasil
• Lei nº 15.506/2026 — Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos: Texto e tramitação da legislação
• Decreto nº 13.118/2026 — regulamentação do Cimce: Texto integral no Planalto
• Financiamento do BNDES: BNDES Finem — Minerais Críticos e Estratégicos
União Europeia
A União Europeia – aqui representado pelo presidente francês Emmanuel Macron – construiu talvez o arcabouço regulatório mais detalhado entre as economias ocidentais.
O Critical Raw Materials Act — Regulamento (UE) 2024/1252 criou uma política comum para garantir abastecimento seguro e sustentável de matérias-primas críticas.
O regulamento estabelece referências para 2030: ampliar a mineração dentro da UE, aumentar substancialmente o processamento e a reciclagem e reduzir a dependência excessiva de um único fornecedor externo.
A Comissão passou então a classificar empreendimentos como Strategic Projects. O selo não é apenas político: dá aos projetos acesso a orientação sobre financiamento público e privado, maior atenção do hub financeiro criado pela UE e procedimentos destinados a acelerar sua implantação.
O dinheiro começou a acompanhar a legislação.
O plano europeu prevê mobilizar aproximadamente € 2 bilhões adicionais em investimentos relacionados a matérias-primas críticas em 2026 e 2027 através do InvestEU.
Há ainda pelo menos € 700 milhões previstos em 2026 pelo Innovation Fund, enquanto o Battery Booster possui envelope de € 1,8 bilhão, do qual até € 300 milhões podem alcançar projetos de lítio, cobalto, níquel, manganês e grafite.
A estratégia europeia tenta resolver uma vulnerabilidade semelhante à americana: recuperar capacidade industrial que se tornou excessivamente dependente de fornecedores externos, principalmente asiáticos.
Documentos e programas — União Europeia
• Critical Raw Materials Act — Regulamento (UE) 2024/1252: Texto integral no EUR-Lex
• Lista e regras dos Strategic Projects: Comissão Europeia — Strategic Projects under the CRMA
• Plano de financiamento e mobilização de investimentos: Documento da Comissão Europeia
Reino Unido
O Reino Unido criou uma estratégia própria: a Vision 2035: Critical Minerals Strategy.
O plano estabelece metas bastante objetivas. Até 2035, Londres pretende obter domesticamente pelo menos 10% da demanda anual agregada por minerais críticos, suprir outros 20% por reciclagem e evitar que mais de 60% da demanda agregada dependa de um único país.
O governo começou a colocar dinheiro nessas metas.
O Critical Minerals Programme possui £50 milhões, dos quais £45 milhões estarão disponíveis como grants até 2030. O programa possui três pilares: Magnet Hub, Critical Minerals Accelerator e Demand Aggregation Platform.
O Accelerator terá £25 milhões para projetos de extração, processamento e reciclagem próximos da comercialização.
Outros £20 milhões estão reservados ao Magnet Hub, uma instalação destinada ao desenvolvimento e ampliação da produção britânica de ímãs permanentes de terras raras.
Além dos grants, empresas da cadeia podem acessar instrumentos do National Wealth Fund, UK Export Finance e British Business Bank.
Documentos e programas — Reino Unido
• Vision 2035 — Critical Minerals Strategy: Estratégia oficial do governo britânico
• Critical Minerals Programme — £50 milhões: Página oficial dos programas de financiamento
• Magnet Hub — até £20 milhões: Programa Magnet Hub
Índia
A Índia está construindo uma estratégia que combina exploração doméstica, reciclagem e aquisição de recursos minerais no exterior.
O principal instrumento é a National Critical Mineral Mission — NCMM, aprovada em janeiro de 2025.
O programa prevê ₹16.300 crore de dispêndios ao longo de sete anos, incluindo ₹2.600 crore de apoio orçamentário direto. A política vai até o exercício financeiro de 2030-31.
O Geological Survey of India e o National Mineral Exploration and Development Trust trabalham com uma carteira que deverá alcançar 1.200 projetos de minerais críticos.
A Índia modificou ainda sua legislação para permitir que o NMEDT financie exploração mineral no exterior. A estatal Khanij Bidesh India Limited, a KABIL, já obteve direitos exclusivos para exploração de lítio na Argentina.
Há também uma política específica de reciclagem.
O governo criou um programa de incentivos de ₹1.500 crore. Em abril de 2026, 58 empresas já haviam sido consideradas elegíveis, apresentando compromissos de aproximadamente ₹5.000 crore em investimentos e capacidade planejada de cerca de 850 mil toneladas anuais.
É uma estratégia dupla: encontrar mais recursos dentro da Índia e usar empresas estatais para garantir matérias-primas fora de suas fronteiras.
Documentos e programas — Índia
• National Critical Mineral Mission e programas de aquisição internacional: Press Information Bureau — NCMM
• Programa de ₹1.500 crore para reciclagem de minerais críticos: Ministry of Mines/Press Information Bureau
Rússia
A Rússia possui outra característica: grandes reservas minerais coexistem com uma indústria que Moscou considera ainda insuficiente em várias etapas da cadeia de terras raras.
O principal instrumento atual é o projeto nacional “Novos Materiais e Química”, que inclui um programa federal especificamente destinado ao desenvolvimento da indústria de metais raros e terras raras.
O programa federal começou em janeiro de 2025 e segue até dezembro de 2030. Seu objetivo declarado é reduzir a dependência russa de matérias-primas e materiais importados de metais raros e terras raras.
A meta do projeto nacional é que, até 2030, a participação das importações no consumo russo de matérias-primas e materiais derivados desses metais seja reduzida para 48%.
O programa prevê não apenas mineração, mas desenvolvimento de materiais, tecnologias, unidades industriais e capacitação. Também admite compensações aos produtores para permitir descontos aos consumidores desses materiais, mecanismo destinado a estimular a criação de um mercado doméstico.
Nesse modelo, empresas controladas ou fortemente vinculadas ao Estado ocupam papel particularmente importante na tentativa de construir uma cadeia russa integrada.
Documentos e programas — Rússia
• Projeto Nacional “Novos Materiais e Química”: Página oficial do governo russo
• Programa federal para metais raros e terras raras — 2025/2030: Passaporte do projeto federal
Estado virou sócio
O conjunto dessas políticas revela uma transformação maior do que a simples corrida por novas jazidas. O Estado voltou a ocupar posição central numa cadeia industrial que, durante décadas, foi tratada principalmente como negócio de mineradoras privadas.
Mas cada governo está escolhendo suas próprias armas.
Os Estados Unidos usam dinheiro público, defesa, política comercial e financiamento. A China combina planejamento estatal, empresas nacionais, domínio do processamento e controle das exportações. A União Europeia tenta transformar projetos selecionados em capacidade industrial através de financiamento e licenciamento acelerado. O Reino Unido aposta em fundos, processamento e fabricação de ímãs. A Índia combina dinheiro público com exploração internacional. A Rússia tenta reconstruir uma cadeia industrial doméstica. E o Brasil acaba de criar uma política que pretende utilizar financiamento e poder regulatório para fazer com que uma parcela maior do valor permaneça dentro do país.
A comparação revela também o principal desafio brasileiro.
Ter reservas minerais deixou de ser suficiente. Na nova corrida mundial, o país que simplesmente extrair e exportar a rocha poderá continuar dependente daquele que possuir a tecnologia para separar, refinar e transformar seus minerais em ímãs, baterias, componentes eletrônicos e equipamentos de alta tecnologia.
É por isso que a disputa dos minerais críticos começa debaixo da terra, mas será decidida, em grande parte, fora da mina














