
Novas ferramentas utilizam inteligência artificial para analisar processos, identificar estratégias de defesa e automatizar tarefas em departamentos jurídicos corporativos.
A inteligência artificial está ampliando sua presença no setor jurídico brasileiro, com ferramentas capazes de automatizar atividades operacionais, analisar documentos e auxiliar advogados na elaboração de estratégias de defesa. Durante a Fenalaw 2026, realizada de 27 a 29 de outubro, no Transamerica Expo Center, em São Paulo, a Benner apresentou duas soluções voltadas à transformação das rotinas jurídicas: a Jurix AI e o Benner Atelier.
As tecnologias foram desenvolvidas para atender principalmente departamentos jurídicos corporativos que administram grandes volumes de processos e precisam conciliar produtividade, segurança das informações e controle das atividades. A proposta é utilizar a inteligência artificial não apenas para gerar recomendações, mas também para executar tarefas dentro dos sistemas de gestão, mantendo a supervisão dos profissionais responsáveis.
Uma das novidades é o Benner Atelier, plataforma que permite criar agentes de inteligência artificial por meio de comandos em linguagem natural. Esses agentes podem acessar informações, interpretar documentos e executar atividades diretamente no sistema Benner Jurídico, de acordo com as permissões estabelecidas por cada organização.
Entre as funcionalidades disponíveis estão o cadastro de processos, a gestão de pagamentos judiciais, a leitura de petições iniciais, o acompanhamento de publicações, a análise de contratos e a elaboração de pareceres. A ferramenta também permite configurar agentes específicos para diferentes necessidades, adaptando a automação às características de cada departamento jurídico.
Segundo dados divulgados pela Benner, a utilização de inteligência artificial no cadastro de processos reduziu o tempo de execução de aproximadamente 15 minutos para menos de três minutos, com índice de acurácia de 90%. O resultado indica o potencial da tecnologia para diminuir o tempo dedicado a tarefas repetitivas, embora a revisão humana continue sendo necessária para garantir a qualidade das informações.
Outro aspecto da plataforma é o controle sobre as atividades realizadas pelos agentes. As empresas podem definir quais dados cada ferramenta está autorizada a acessar e quais operações exigem aprovação humana. As ações também ficam registradas, permitindo identificar informações utilizadas, procedimentos executados e regras aplicadas durante o processamento.
A segunda solução apresentada, denominada Jurix AI, concentra suas funcionalidades na análise de processos judiciais e na preparação de contestações. O sistema examina a petição inicial, identifica alegações e pedidos apresentados pela parte autora e compara as provas disponíveis com os documentos e subsídios fornecidos pela empresa.
A ferramenta também consulta o histórico de processos da organização para identificar ações anteriores envolvendo o mesmo autor ou advogado, além de verificar argumentos jurídicos utilizados e resultados obtidos em disputas semelhantes. A partir dessas informações, produz sugestões de estratégias de defesa fundamentadas no histórico processual da companhia.
O sistema apresenta ainda indicadores relacionados à consistência dos subsídios, às possibilidades de contestação e ao risco de condenação, além de estimativas de exposição financeira e recomendações sobre eventuais acordos. Essas análises podem auxiliar na identificação de riscos e na definição das medidas mais adequadas para cada processo.
Apesar da automação, a responsabilidade pelas decisões jurídicas permanece com o advogado, que deve revisar as informações, avaliar os argumentos apresentados e aprovar a versão final da defesa. A ferramenta funciona como apoio à análise processual, sem substituir a interpretação jurídica e a responsabilidade profissional.
A utilização de dados históricos também levanta questões relacionadas à proteção de informações corporativas e ao sigilo processual. De acordo com a Benner, cada cliente utiliza um ambiente isolado, impedindo que documentos e informações de uma organização sejam empregados nas análises realizadas para outras empresas.
A presença crescente da inteligência artificial no setor jurídico acompanha uma transformação mais ampla na gestão das empresas, especialmente em organizações que lidam com grandes volumes de documentos, contratos e processos judiciais. Nesse cenário, a integração entre sistemas de gestão e ferramentas inteligentes tende a ganhar importância para reduzir atividades manuais e melhorar o acesso às informações.
Durante a Fenalaw 2026, a programação da Benner também inclui apresentações relacionadas a aplicações tecnológicas desenvolvidas com Santander e Inter. Os encontros abordam experiências de utilização de soluções digitais em operações do setor financeiro, segmento que enfrenta exigências de controle, rastreabilidade e segurança no tratamento de grandes quantidades de dados.
Além da automação, a governança das informações aparece como uma das principais preocupações na adoção dessas tecnologias. Sistemas que realizam pagamentos judiciais, atualizam provisões financeiras ou registram dados processuais precisam oferecer mecanismos capazes de permitir verificações e auditorias.
Nesse contexto, a Benner informa que sua plataforma jurídica possui relatórios SOC 1 Tipo II e SOC 2 Tipo II, elaborados a partir de auditorias independentes. O primeiro está relacionado aos controles que podem impactar informações financeiras das empresas, incluindo provisões, depósitos e pagamentos judiciais. O segundo examina controles associados à segurança, disponibilidade e confidencialidade das informações armazenadas e processadas.
Esses relatórios avaliam o funcionamento dos controles ao longo de determinado período, diferentemente de verificações limitadas a um momento específico. Sua existência, porém, não elimina a necessidade de as organizações avaliarem os riscos e os controles específicos de cada aplicação de inteligência artificial.
A incorporação dessas ferramentas ao cotidiano dos departamentos jurídicos também exige atenção à qualidade dos dados utilizados, à possibilidade de erros nas análises automatizadas e à transparência dos critérios empregados pelos sistemas. Recomendações produzidas por inteligência artificial precisam ser verificadas por profissionais qualificados, principalmente quando envolvem decisões processuais, riscos financeiros e direitos das partes.
O avanço de soluções como Jurix AI e Benner Atelier mostra como a inteligência artificial está deixando de atuar apenas na produção de textos e na consulta de informações para participar diretamente da execução de atividades jurídicas. A tendência amplia as possibilidades de automação nas empresas, mas também reforça a importância da supervisão humana, da proteção de dados e da responsabilidade sobre as decisões tomadas com apoio da tecnologia.
*Foto de divulgação JurixAI







