A ciência brasileira está migrando para as big techs?

Um mapa da conectividade acadêmica elaborado pela Anatel expõe uma contradição que vai além da simples cobertura da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) e lança dúvidas sobre o próprio futuro do modelo brasileiro de infraestrutura científica. Embora a organização social vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) administre um contrato de gestão estimado em aproximadamente R$ 2,7 bilhões até 2030, pelo menos 213 unidades de universidades e instituições de pesquisa aparecem fora da principal rede acadêmica do país. O dado levanta uma questão incômoda: trata-se de uma lacuna na expansão da RNP ou de um sinal de que as universidades brasileiras estão migrando silenciosamente para a infraestrutura das grandes plataformas globais de tecnologia?

A dúvida surge em um momento particularmente delicado. O governo federal trabalha para transformar o Brasil em um polo internacional de inteligência artificial e data centers, apostando na combinação de energia renovável, mercado consumidor, capacidade científica e investimentos em infraestrutura digital. Ao mesmo tempo, autoridades defendem a construção de uma estratégia nacional de soberania digital, desenvolvimento de modelos de inteligência artificial próprios e fortalecimento da pesquisa científica nacional.

No entanto, os dados da Anatel revelam que pelo menos 213 unidades de ensino e pesquisa permanecem fora da infraestrutura da RNP. Minas Gerais lidera o levantamento com 49 unidades, seguido por Rio Grande do Sul, com 23, São Paulo, com 20, Maranhão, com 19, Amazonas, com 17, Goiás, com 15 e Bahia, com 14. O fato de estados economicamente desenvolvidos aparecerem entre os líderes do ranking desafia a percepção de que a desconexão da rede acadêmica seria consequência apenas de dificuldades geográficas ou ausência de infraestrutura de telecomunicações.

Avanço das big techs

O caso paulista é particularmente revelador. O estado concentra a maior infraestrutura digital do país, abriga importantes data centers, redes de fibra óptica e pontos de troca de tráfego de internet. Ainda assim, o levantamento aponta 20 unidades fora da RNP, incluindo dez ligadas à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O cenário sugere que a questão pode não estar necessariamente relacionada à falta de conectividade, mas ao modelo de conectividade adotado pelas instituições.

Essa hipótese ganha força quando se observa a transformação ocorrida no ambiente acadêmico nos últimos anos. Universidades brasileiras passaram a contratar serviços de computação em nuvem, armazenamento de dados, colaboração online, videoconferência, correio eletrônico e processamento computacional diretamente de grandes fornecedores globais. Plataformas oferecidas por empresas como Google, Microsoft, Amazon Web Services e Oracle tornaram-se parte da infraestrutura cotidiana de muitas instituições de ensino superior.

Nesse contexto, uma universidade pode possuir acesso a serviços avançados de computação, armazenamento praticamente ilimitado, ambientes colaborativos e até recursos de inteligência artificial sem necessariamente utilizar a infraestrutura da RNP. Um campus pode operar com conexões comerciais de alta capacidade contratadas junto a operadoras privadas e, ainda assim, aparecer como não integrado à rede acadêmica nacional.

Papel da RNP

A constatação muda significativamente a interpretação dos dados da Anatel. A questão deixa de ser apenas quantas instituições estão fora da RNP e passa a ser qual o papel que a RNP desempenha em um ambiente acadêmico cada vez mais dominado pelas plataformas globais de tecnologia. Em outras palavras, o levantamento pode estar revelando não apenas uma lacuna de cobertura, mas uma mudança estrutural no modelo de infraestrutura digital utilizado pelas universidades brasileiras.

Isso não significa que a RNP tenha perdido relevância. A rede continua desempenhando funções estratégicas que vão além do acesso à internet. Sua missão inclui integrar universidades, institutos de pesquisa, hospitais universitários e laboratórios a uma infraestrutura dedicada à ciência, conectada a redes acadêmicas nacionais e internacionais. É por meio dessa rede que pesquisadores compartilham grandes volumes de dados científicos, participam de projetos colaborativos e acessam ambientes especializados de pesquisa.

A questão é que o avanço das plataformas globais cria uma nova realidade. Enquanto a RNP foi concebida como uma infraestrutura pública de integração científica, as big techs passaram a oferecer diretamente às universidades serviços que antes dependiam de estruturas nacionais ou institucionais. A consequência pode ser um esvaziamento gradual do modelo tradicional de rede acadêmica, ainda que isso não seja explicitamente reconhecido.

Essa discussão ganha relevância diante da agenda brasileira de inteligência artificial. O governo busca atrair investimentos bilionários em data centers e fortalecer a capacidade nacional de processamento de dados. Entretanto, inteligência artificial não depende apenas de infraestrutura computacional. Ela depende também de universidades conectadas, pesquisadores integrados, compartilhamento de dados científicos e ambientes colaborativos de pesquisa.

A existência de centenas de unidades fora da RNP sugere uma possível desconexão entre a estratégia de atração de infraestrutura privada e a consolidação da infraestrutura pública voltada à produção científica. Afinal, construir data centers é apenas uma parte da equação. A outra envolve garantir que as instituições responsáveis por gerar conhecimento, formar pesquisadores e desenvolver tecnologia estejam plenamente integradas ao ecossistema científico nacional.

O levantamento também revela que a situação não se restringe às instituições federais. Das 213 unidades identificadas, 116 pertencem à rede federal, 93 à rede estadual e quatro à rede municipal. Entre as instituições mais impactadas estão a Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, com 21 unidades fora da rede, a Universidade Estadual do Maranhão, com 19, a Universidade do Estado do Amazonas, com 17, a Universidade Federal de Juiz de Fora, com 15, a Universidade Estadual de Montes Claros, com 14, e a Universidade Federal de Viçosa, com 12.

Transparência

Há ainda outra limitação importante. A análise esbarra na falta de transparência sobre a própria base de dados utilizada pela Anatel. O painel não informa de maneira clara qual é sua data de atualização nem a periodicidade com que os dados são revisados. Isso significa que parte das unidades pode já ter sido integrada à rede após a última atualização ou pode utilizar modelos alternativos de conectividade que não são capturados pelo levantamento.

Essa ausência de informações metodológicas impede conclusões definitivas sobre o estágio atual da cobertura da RNP, mas não reduz a relevância dos questionamentos. Quanto dos aproximadamente R$ 2,7 bilhões previstos no contrato de gestão já foi efetivamente desembolsado? Qual o percentual desses recursos destinado à expansão da rede? Quantas das 213 unidades já foram incorporadas desde a última atualização da base? Quantas utilizam infraestrutura de nuvem e conectividade fornecidas por plataformas globais? E, principalmente, a expansão das big techs no ambiente acadêmico está reduzindo a importância estratégica da RNP ou apenas complementando sua atuação?

As respostas a essas perguntas podem ser decisivas para entender não apenas o futuro da RNP, mas também a forma como o Brasil pretende construir sua estratégia de soberania digital e inteligência artificial. O mapa da Anatel sugere que o debate talvez não seja apenas sobre conectividade. O que está em jogo é definir se a infraestrutura científica brasileira continuará baseada em uma rede nacional concebida para integrar a pesquisa pública ou se passará a depender cada vez mais da infraestrutura controlada por empresas globais de tecnologia.

Em um momento em que o país discute modelos nacionais de inteligência artificial, proteção de dados, soberania digital e atração de investimentos em data centers, a questão torna-se inevitável: quem será o verdadeiro alicerce da infraestrutura digital da ciência brasileira nas próximas décadas?

No quadro abaixo, a relação das principais instituições federais sem a suposta conectividade com a RNP:

InstituiçãoUnidades sem RNP
Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS)21
Universidade Estadual do Maranhão (UEMA)19
Universidade do Estado do Amazonas (UEA)17
Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)15
Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes)14
Universidade Federal de Viçosa (UFV)12
Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)10
Universidade Estadual de Goiás (UEG)7
Instituto Federal de São Paulo (IFSP)6
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS)6
Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB)6