
A expansão da inteligência artificial (IA) e das redes 5G está criando novas oportunidades para a transformação digital de setores estratégicos da economia latino-americana. Entretanto, a falta de infraestrutura tecnológica, a baixa qualificação digital e os desafios regulatórios ainda dificultam a adoção dessas ferramentas em áreas como mineração, agronegócio, saúde, finanças, logística e segurança pública.
Esses obstáculos estiveram no centro das discussões da segunda parte da segunda jornada do evento “Digitalização e Conectividade como Potencializadores das Indústrias Verticais”, realizado pela Aliança Latino-Americana de Telecomunicações (ALT+), nesta sexta-feira (16), em Buenos Aires, na Argentina. O encontro reuniu especialistas para analisar a relação entre conectividade, inteligência artificial, disponibilidade de espectro e políticas públicas no desenvolvimento econômico da região.
Um dos principais desafios identificados é a diferença entre a velocidade de evolução da inteligência artificial e a capacidade das empresas e dos países de incorporar essas tecnologias às atividades produtivas. Embora os modelos de IA estejam avançando rapidamente, a infraestrutura necessária para sua aplicação ainda apresenta limitações em grande parte da América Latina.
Segundo Omar De León, consultor sênior da Teleconsult, a região enfrenta atrasos na implantação de tecnologias fundamentais para a transformação digital, como redes de fibra óptica simétrica com padrão XGS-PON, 5G Standalone, computação de borda e centros de dados. Entre esses componentes, os data centers apresentam um ritmo de desenvolvimento relativamente mais consistente.
Para o especialista, a competitividade tecnológica depende da integração dessas diferentes estruturas, e não apenas da adoção isolada de inteligência artificial ou redes móveis de última geração. A falta dessa integração pode ampliar desigualdades econômicas e limitar a modernização de setores produtivos.
Nesse cenário, operadoras regionais, cooperativas e provedores independentes de telecomunicações podem encontrar oportunidades de crescimento ao oferecer infraestrutura e serviços especializados para segmentos econômicos específicos. A proximidade com empresas e comunidades locais pode favorecer soluções adaptadas às necessidades de cada atividade.
O Chile foi apresentado como exemplo das possibilidades e contradições da digitalização latino-americana. O país possui uma das infraestruturas de conectividade mais avançadas da região, com 87,3% das conexões fixas realizadas por fibra óptica e metade das conexões móveis utilizando tecnologia 5G, conforme os dados apresentados durante o evento.
Apesar disso, a disponibilidade tecnológica ainda não se traduz integralmente em utilização produtiva. De acordo com Geraldine González Santibáñez, especialista em regulação e políticas públicas de telecomunicações da Konsistenz, apenas 20% da população chilena possui habilidades digitais avançadas, enquanto aproximadamente 30% das empresas se classificam em níveis baixos de digitalização.
Os números evidenciam que a expansão das redes precisa ser acompanhada por políticas de qualificação profissional, estímulo à inovação e planejamento de longo prazo. Sem essas iniciativas, parte dos investimentos em conectividade pode permanecer subutilizada.
O Chile também vem incorporando exigências relacionadas ao 5G Standalone e à cobertura de áreas de interesse produtivo em seus processos de licitação de espectro, buscando ampliar o uso das redes em atividades econômicas para além do mercado tradicional de telefonia móvel.
Na segurança pública, a inteligência artificial já apresenta aplicações concretas. Um projeto chileno de teleproteção, denominado CIA, integra aproximadamente 800 pórticos públicos e privados equipados com sistemas de leitura de placas de veículos. Segundo os resultados apresentados por Rodrigo Ramírez Pino, presidente da Câmara Chilena de Infraestrutura Digital, a iniciativa contribuiu para que a polícia chilena desarticulasse 13 organizações criminosas em oito meses.
O projeto demonstra como a integração de equipamentos, bancos de dados e ferramentas analíticas pode ampliar a capacidade operacional das forças de segurança. Entretanto, a utilização dessas tecnologias também exige atenção à governança dos dados, à privacidade e aos mecanismos de controle sobre sistemas automatizados de vigilância.
Outro ponto discutido foi a necessidade de desenvolver modelos de inteligência artificial adaptados às características regionais. Sistemas treinados com dados de outros países nem sempre conseguem interpretar adequadamente os contextos sociais, culturais e operacionais latino-americanos. A criação de centros regionais de treinamento de algoritmos aparece, portanto, como uma alternativa para reduzir a dependência tecnológica externa.
A disponibilidade de frequências específicas para redes privadas de 5G também ganhou destaque. Essas redes permitem que empresas e instituições operem sistemas de comunicação dedicados, com maior controle sobre desempenho, confiabilidade e segurança, características relevantes para indústrias, portos, hospitais, mineradoras e operações logísticas.
A destinação de espectro para uso empresarial pode acelerar processos de automação industrial, monitoramento remoto e operação de equipamentos em ambientes de risco. Além de aumentar a produtividade, essas aplicações podem reduzir a exposição de trabalhadores a situações perigosas.
No entanto, a transformação digital não depende exclusivamente de novas redes e equipamentos. A capacidade de transformar conectividade em benefícios concretos para a população continua sendo um dos principais desafios da região.
Geusseppe Gonzalez Cárdenas, diretor para a América Latina da Access Partnership, abordou os impactos das tecnologias de informação e comunicação nos serviços financeiros, na saúde, na agricultura e no governo digital.
Entre os exemplos apresentados estão o Pix, no Brasil, e o Bre-B, na Colômbia, que demonstram como plataformas digitais podem facilitar transações financeiras e ampliar o acesso a serviços. Na saúde, a telemedicina permite superar parte das barreiras geográficas no atendimento, enquanto a agricultura pode se beneficiar de sistemas inteligentes de irrigação e monitoramento da produção.
Apesar dessas possibilidades, aproximadamente 31% da população latino-americana estaria em áreas com cobertura de conectividade, mas sem utilizar os serviços disponíveis, segundo os dados apresentados no encontro. Essa situação reforça que ampliar a infraestrutura, embora necessário, não garante automaticamente a inclusão digital.
Fatores como renda, custo dos serviços, disponibilidade de dispositivos, educação tecnológica e percepção de utilidade influenciam diretamente a adoção das ferramentas digitais.
Diante desse cenário, quatro áreas aparecem como fundamentais para ampliar os resultados da transformação digital: expansão da conectividade universal, regulamentação flexível, desenvolvimento de habilidades digitais e modelos inclusivos de governança.
As discussões mostram que a América Latina enfrenta um desafio que vai além da implantação do 5G ou da incorporação de inteligência artificial pelas empresas. A região precisa criar condições para que essas tecnologias sejam efetivamente utilizadas, gerem produtividade e contribuam para o desenvolvimento econômico e social.
Sem investimentos coordenados em infraestrutura, capacitação e políticas públicas, o avanço tecnológico poderá ocorrer de maneira desigual, concentrando os benefícios da digitalização em setores e regiões que já possuem melhores condições de acesso.
A capacidade de integrar conectividade, inteligência artificial e aplicações práticas será determinante para que os países latino-americanos consigam transformar a modernização tecnológica em ganhos concretos de competitividade e inclusão digital.







