Data centers e uso da IA entram no planejamento energético do Brasil até 2036

Os data centers entraram de vez no planejamento energético do país. O Plano Decenal de Expansão de Energia 2036 (PDE 2036), elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) para o Ministério de Minas e Energia (MME), já trata os centros de dados como uma das grandes cargas que terão peso na expansão da geração e, principalmente, da rede de transmissão nos próximos dez anos. A mudança é importante porque tira os data centers do campo restrito da política digital e dos incentivos fiscais. Para atrair essa indústria, não basta oferecer benefícios tributários ou energia renovável. É preciso garantir que haverá eletricidade e capacidade de transmissão onde os empreendimentos quiserem se instalar.

No PDE, data centers aparecem ao lado de projetos de produção de hidrogênio e de outros grandes consumidores de eletricidade. Juntos, esses novos empreendimentos podem representar cerca de 3,7 gigawatts (GW) de carga em 2036. O número não é uma estimativa exclusiva para data centers, mas dá a dimensão do impacto que essas novas atividades começam a ter no planejamento do sistema elétrico.

Os centros de dados, isoladamente, já aparecem como um dos principais motores do aumento do consumo. A EPE estima crescimento médio de 13,7% ao ano até 2036 na eletricidade usada por essa atividade. Dentro do setor de comércio e serviços, eles são apontados como o principal vetor de expansão da demanda.

Essa pressão ajuda a explicar por que o consumo comercial deverá crescer cerca de 6% ao ano, acima de outras classes. A expansão da infraestrutura digital, especialmente dos data centers, é apontada pelo próprio planejamento como uma das razões para esse avanço.

O movimento também pesa nas contas gerais do setor elétrico. A participação da eletricidade no consumo final de energia do país deverá subir de 20% em 2026 para 23,3% em 2036. Entre os motivos estão a eletrificação da economia, a mobilidade elétrica, mudanças na estrutura produtiva e a expansão dos data centers.

Nova geografia

Embora os grandes centros consumidores do Sudeste, Centro-Oeste e Sul continuem atraindo boa parte desses empreendimentos, o planejamento chama atenção para o Nordeste. A região reúne três vantagens importantes para os centros de dados: grande oferta de energia renovável, pontos de chegada de cabos submarinos internacionais de fibra óptica e a possibilidade de usar esses investimentos como instrumento de desenvolvimento regional.

A preocupação já chegou ao planejamento da transmissão. A EPE cita entre os trabalhos recentes o Estudo Prospectivo para Inserção de Cargas Eletrointensivas na Região Nordeste, realizado em 2026. Ao mesmo tempo, estudos para São Paulo analisam reforços da rede necessários para atender ao crescimento das grandes cargas.

Esse é provavelmente o sinal mais concreto de que os data centers deixaram de ser apenas uma expectativa de investimento. A Empresa de Pesquisa Energética já precisa considerar onde essas cargas poderão aparecer e o que será necessário fazer na rede para conectá-las.

Construir uma nova linha de transmissão nem sempre é a primeira saída, principalmente nos grandes centros urbanos. Por isso, o PDE também considera tecnologias que permitem aumentar a capacidade das linhas existentes e controlar melhor o fluxo de eletricidade. São soluções que podem aliviar gargalos e, em alguns casos, adiar obras maiores.

A lógica é relativamente simples. Um grande data center pode consumir continuamente uma quantidade de eletricidade comparável à de uma cidade. Se vários empreendimentos tentarem se instalar na mesma região, não basta haver geração disponível no país. A rede precisa conseguir transportar essa energia até cada instalação com a segurança exigida por uma atividade que praticamente não pode ficar sem eletricidade.

Pressão da IA

A inteligência artificial aumenta essa incerteza. Por enquanto, a EPE considera que os data centers ligados à Rede Básica apresentam consumo relativamente constante ao longo do dia. Isso facilita o planejamento porque eles aumentam a carga, mas não provocam necessariamente grandes oscilações entre determinados horários.

O próprio PDE, porém, alerta que esse comportamento pode mudar com o crescimento de centros de dados voltados ao treinamento de modelos de inteligência artificial. Se esses empreendimentos ganharem participação relevante, será necessário acompanhar melhor como e quando consomem energia. A EPE reconhece que precisará de mais dados para fazer esse planejamento.

O problema não é apenas brasileiro. O Caderno de Contexto do PDE mostra que a expansão mundial dos data centers e da inteligência artificial já pressiona a demanda por geração, transmissão e equipamentos elétricos. A EPE cita, por exemplo, o aumento das encomendas de turbinas a gás e prazos de entrega que podem chegar a cinco anos.

Nesse cenário, o Brasil considera sua matriz elétrica predominantemente renovável uma vantagem para disputar esses investimentos. Mas existe uma ressalva. Como data centers precisam de fornecimento contínuo e extremamente confiável, a instalação de geração própria próxima aos empreendimentos pode aumentar o uso de gás natural. O documento aponta o biometano como uma alternativa renovável para parte dessa necessidade.

O PDE 2036 não chega a constituir um plano nacional específico para data centers. Não há no documento uma relação fechada de empreendimentos, locais de instalação, capacidade elétrica reservada para cada projeto ou cronograma de conexões. E nem seria essa exatamente a função do plano. O PDE é indicativo: procura mostrar para onde o consumo e a oferta de energia podem caminhar e quais investimentos poderão ser necessários, sem determinar o que empresas privadas deverão fazer.

A novidade é outra. Pela primeira vez, a expansão dos centros de dados aparece de forma clara como uma variável do planejamento da infraestrutura elétrica brasileira. O governo já trabalha com seu impacto sobre o consumo, estuda onde essas grandes cargas poderão se concentrar e começa a avaliar os reforços necessários para conectá-las.

Ou seja, a corrida para atrair data centers não passa mais apenas por impostos, servidores ou disponibilidade de terrenos. Ela entrou também no planejamento das linhas, subestações e da energia que será necessária para manter essa nova infraestrutura digital funcionando até 2036.

Baixe o PDE 2036: PDE 2036_Relatório Síntese_rev3_2026-10-08 (1)

Baixe o Caderno de Contexto, Perspectivas e Premissas do PSE 2036: https://capitaldigital.com.br/wp-content/uploads/2026/10/PDE-2036_Caderno-de-Contexto-Perspectivas-e-Premissas.pdf