Telebras prepara sucessor do SGDC-1 com foco em soberania espacial

A Telebras deu o primeiro passo para a definição do SGDC-2, o futuro Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas. Acaba de lançar uma consulta internacional ao mercado para conhecer as tecnologias mais avançadas disponíveis e os modelos de desenvolvimento capazes de sustentar uma nova geração da infraestrutura espacial brasileira. Embora não tenha caráter de licitação, a Request for Information (RFI) publicada pela estatal revela uma visão significativamente mais ampla do que a adotada no SGDC-1 e indica a intenção de transformar o novo satélite no núcleo de uma arquitetura nacional permanente de comunicações estratégicas.

O documento deixa claro que a Telebras pretende ouvir fabricantes de satélites, integradores de sistemas e fornecedores de equipamentos de todo o mundo antes de definir os requisitos da missão, a arquitetura do sistema, o conceito operacional e a futura estratégia de aquisição. O objetivo é identificar soluções tecnológicas capazes de atender às necessidades do governo federal, das Forças Armadas e da infraestrutura crítica brasileira nas próximas décadas, preservando a operação soberana do sistema espacial nacional.

Diferentemente do SGDC-1, o novo programa não parte de uma arquitetura fechada. A Telebras pede que os fabricantes apresentem estudos comparativos sobre diferentes configurações, incluindo a possibilidade de concentrar as cargas úteis civis e militares em um único satélite ou distribuí-las entre duas plataformas distintas. Também solicita análises sobre propulsão elétrica, química ou híbrida, adoção de novas bandas de frequência, integração com futuros sistemas espaciais e diferentes alternativas para ampliar a vida útil e reduzir os custos operacionais do programa.

A consulta demonstra preferência por tecnologias de última geração. Entre os temas abordados estão satélites definidos por software, processamento digital de cargas úteis, formação eletrônica de feixes, redistribuição dinâmica de capacidade, reutilização intensiva de frequências e arquiteturas abertas que evitem dependência tecnológica de um único fornecedor. A Telebras também solicita informações sobre inteligência artificial aplicada ao monitoramento do satélite, manutenção preditiva, detecção automática de falhas e operação autônoma da missão, acompanhando tendências já presentes em programas espaciais internacionais.

Na área civil, o SGDC-2 deverá ampliar significativamente a capacidade nacional de comunicações por satélite. A expectativa inicial é operar entre 80 Gbps e 100 Gbps, com cobertura de todo o território brasileiro e da chamada Amazônia Azul, priorizando especialmente a Região Norte, onde a dependência de enlaces via satélite permanece elevada devido à limitada infraestrutura terrestre. O documento também prevê que o sistema atenda não apenas programas de inclusão digital, mas serviços estratégicos relacionados aos setores de energia, transporte, controle do tráfego aéreo, segurança pública, saúde, sistema financeiro e outras atividades consideradas essenciais para o funcionamento do Estado brasileiro.

A missão militar também ganha dimensão mais sofisticada. O RFI estabelece requisitos para comunicações nas bandas X e Ka Militar, com mecanismos de proteção contra interferências deliberadas, técnicas para reduzir a probabilidade de interceptação e detecção dos sinais, criptografia, segurança das comunicações, geolocalização e capacidade de adaptação dinâmica da rede. O documento ainda solicita estudos sobre a eventual incorporação de cargas úteis adicionais, como comunicações em UHF e sensores ópticos voltados ao monitoramento do ambiente espacial e prevenção de colisões em órbita.

Outro aspecto que chama atenção é a preocupação com o desenvolvimento da indústria nacional. A Telebras solicita que os participantes detalhem propostas de transferência de tecnologia, programas de absorção de conhecimento, treinamento de engenheiros brasileiros, participação de universidades e centros de pesquisa, além da possibilidade de realizar no país atividades de engenharia, integração, testes, fabricação de equipamentos terrestres e manutenção do sistema ao longo de sua vida útil. Também pede que sejam identificadas eventuais restrições decorrentes de controles de exportação, propriedade intelectual ou licenciamento internacional que possam limitar essa cooperação tecnológica.

O documento também abre espaço para discutir novos modelos de financiamento. Os fornecedores são convidados a sugerir mecanismos de participação de investidores, compromissos antecipados de compra de capacidade, contratos de longo prazo, compartilhamento de receitas e outras estruturas capazes de reduzir a necessidade de investimento direto da Telebras ou do governo brasileiro. A estatal, entretanto, estabelece como condição que qualquer modelo preserve integralmente a propriedade, o controle operacional, a prioridade de uso pelo Estado brasileiro e a soberania sobre o sistema.

O cronograma prevê a publicação da consulta em 15 de julho, assinatura dos acordos de confidencialidade até 31 de julho, período para esclarecimento de dúvidas até o fim de agosto e entrega das respostas pelos fabricantes até 15 de setembro. Após a análise das propostas, a Telebras poderá promover workshops técnicos individuais com os participantes para aprofundar a avaliação das soluções apresentadas.

Mais do que preparar a substituição do atual SGDC-1, o conteúdo da RFI indica que a Telebras pretende estruturar uma política de longo prazo para comunicações espaciais estratégicas. A recorrente preocupação com interoperabilidade, arquitetura aberta, integração com futuras constelações, evolução tecnológica contínua e fortalecimento da base industrial brasileira sinaliza que o SGDC-2 é concebido como o primeiro passo para uma infraestrutura espacial soberana mais ampla, capaz de sustentar futuras gerações de satélites e ampliar a autonomia do país em um setor considerado cada vez mais estratégico.