
A corrida global pela inteligência artificial não será decidida apenas pela qualidade dos algoritmos ou pela capacidade de desenvolver grandes modelos de linguagem. Para o presidente da Dataprev, Rodrigo Assumpção, o fator decisivo estará na infraestrutura que sustentará essa transformação tecnológica. O executivo defendeu que o Brasil precisa elevar sua ambição e iniciar imediatamente um ciclo de investimentos em energia, data centers e infraestrutura nacional de dados, sob o risco de perder a capacidade de decidir seu próprio caminho na era da inteligência artificial.
A principal mensagem do presidente da estatal foi a de que o debate nacional está concentrado no lugar errado. Enquanto governos e empresas acompanham a evolução dos modelos de inteligência artificial e discutem quais tecnologias adotar, o país ainda não teria construído as bases físicas que permitirão utilizar essas ferramentas de forma soberana. Segundo Assumpção, data centers e infraestrutura energética demandam anos para serem implantados, o que exige planejamento antecipado. Sem essa preparação, afirmou, o Brasil sequer terá o direito de escolher, no futuro, se desenvolverá modelos próprios de inteligência artificial, adaptará tecnologias estrangeiras ou combinará diferentes estratégias.
Ao defender essa visão, Rodrigo Assumpção aproximou a discussão sobre inteligência artificial de uma política de infraestrutura nacional. Em vez de tratar a IA apenas como um desafio tecnológico, apresentou-a como consequência direta da capacidade do país de investir em ativos físicos de longo prazo. Para ele, somente após a expansão da capacidade computacional será possível decidir qual será o papel da pesquisa nacional, das universidades, da indústria e do próprio governo no desenvolvimento de aplicações de inteligência artificial.
Dentro dessa lógica, a Dataprev deixa de ser apresentada apenas como uma empresa responsável pelos sistemas da Previdência Social. O presidente da estatal procurou situá-la como um dos pilares da chamada infraestrutura nacional de dados. Segundo ele, a empresa hoje administra informações previdenciárias, trabalhistas, assistenciais e parte crescente dos dados educacionais, além de trabalhar para ampliar a integração com bases da área da saúde. Essa estrutura, somada aos grandes bancos de dados administrativos, fiscais e financeiros mantidos por outros órgãos federais, especialmente o Serpro, formaria um patrimônio estratégico indispensável ao funcionamento do Estado brasileiro.
Ao tratar da soberania digital, Assumpção também procurou afastar o debate das disputas geopolíticas que normalmente cercam o tema. Para ele, soberania não significa apenas discutir a origem da tecnologia utilizada pelo país, mas garantir que os sistemas críticos continuem funcionando de forma permanente. A capacidade de manter serviços públicos essenciais em operação foi apresentada como a verdadeira medida da autonomia nacional no ambiente digital.
Foi nesse contexto que o presidente da Dataprev utilizou um dos exemplos mais fortes de sua apresentação. Segundo ele, a estatal processa mensalmente cerca de 42 milhões de benefícios previdenciários, operação que classificou como a segunda maior folha de pagamentos do mundo. Mais importante que o volume, afirmou, é compreender as consequências que uma interrupção desse serviço teria para o país. Na sua avaliação, a estabilidade das plataformas tecnológicas tornou-se elemento indispensável ao funcionamento da administração pública e da própria economia brasileira.
Ao longo da apresentação, Rodrigo Assumpção insistiu que a infraestrutura física continua sendo o principal gargalo para a transformação digital. Máquinas, energia elétrica, grandes instalações de processamento de dados e equipamentos especializados permanecem sendo ativos insubstituíveis, mesmo em uma era marcada pela virtualização dos serviços. Para ele, o avanço da inteligência artificial não elimina a necessidade desses investimentos; ao contrário, amplia significativamente sua importância.
O presidente da Dataprev também chamou atenção para o momento vivido pela indústria global de tecnologia. Segundo ele, fabricantes de equipamentos passaram a exigir que os próprios clientes financiem antecipadamente a expansão de sua capacidade produtiva, provocando aumento de preços e incertezas no mercado internacional de infraestrutura computacional. Diante desse cenário, argumentou que o setor público brasileiro dispõe de demanda suficiente para organizar uma expansão coordenada da capacidade nacional de processamento, mesmo diante do atual encarecimento dos equipamentos.
Embora a inteligência artificial tenha sido o tema central do evento, Assumpção evitou fazer previsões sobre quais aplicações prevalecerão nos próximos anos. Citou possibilidades que vão desde a automação de atividades administrativas até o uso de robôs e novos modelos de linguagem, mas ressaltou que essas escolhas permanecem em aberto. Na sua avaliação, discutir hoje qual arquitetura tecnológica será dominante é menos importante do que assegurar as condições para que o país tenha liberdade de fazer essas escolhas quando a infraestrutura estiver disponível.
A fala de Rodrigo Assumpção converge com um movimento que vem ganhando espaço nas discussões sobre política tecnológica no Brasil. Nos últimos meses, temas como expansão da capacidade nacional de data centers, segurança energética para cargas computacionais, soberania digital e integração de grandes bases públicas de dados passaram a ocupar lugar de destaque nas estratégias governamentais voltadas à inteligência artificial.
Ao colocar esses elementos no centro de sua apresentação, o presidente da Dataprev procurou ampliar o papel atribuído à empresa pública. Mais do que uma operadora dos sistemas da Previdência Social, a estatal foi apresentada como parte de uma infraestrutura estratégica cuja continuidade operacional sustenta políticas públicas essenciais e, na visão de seu dirigente, constitui uma das bases da soberania digital brasileira. O recado final foi de urgência: se o país pretende disputar espaço na economia da inteligência artificial, a construção dessa infraestrutura precisa começar agora, pois o tempo necessário para concluí-la é incompatível com a velocidade da transformação tecnológica em curso.
Rodrigo Assumpção participou do painel “Infraestrutura suportanto o futuro dos serviços públicos”, no 53º Seminário Nacional de TIC para Gestão Pública (SECOP 2026), realizado dias 5 e 6 de agosto no Centro Internacional de Convenções do Brasil (CICB), em Brasília.







