Supercomputador de IA deixa dúvida sobre processamento no exterior, exige eficiência energética e suporte local

A inteligência artificial que o governo pretende desenvolver para reduzir a dependência tecnológica brasileira poderá começar a nascer antes mesmo de o supercomputador de quase R$ 1 bilhão estar pronto. E, pelo menos como está escrito o edital, não está claro se essa primeira etapa terá de acontecer em território brasileiro. A empresa que vencer a disputa terá apenas 90 dias depois da assinatura do contrato para colocar à disposição do projeto uma infraestrutura equivalente a pelo menos 5% da capacidade computacional que prometeu entregar. Essa estrutura provisória será usada justamente para treinamento e desenvolvimento de grandes modelos de linguagem considerados estratégicos. E o supercomputador contará com equipe de suporte e manutenção que funcionará 24 horas por dia, sete dias por semana localizada em Macaíba, no Rio Grande do Norte.

A exigência ganha importância porque o supercomputador definitivo poderá levar até 520 dias para ser entregue e comissionado, embora o edital premie quem conseguir concluir o trabalho em até 360 dias. Acima desse prazo desejável de aproximadamente um ano, o concorrente deixa de pontuar no critério de prazo, ainda que permaneça dentro do limite contratual máximo. Na prática, durante vários meses, e potencialmente por mais de um ano, parte do desenvolvimento dos modelos brasileiros poderá depender dessa infraestrutura antecipada.

É justamente aí que aparece uma lacuna. O Termo de Referência é explícito ao determinar que o supercomputador definitivo será entregue e instalado no Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo, em Macaíba, no Rio Grande do Norte. Mas não estabelece, na cláusula que trata do acesso antecipado, a mesma obrigação territorial para os computadores que fornecerão os primeiros 5% da capacidade. O projeto concebido para ampliar a soberania computacional brasileira poderá, portanto, começar utilizando uma infraestrutura já existente do fornecedor ou de algum parceiro, sem que o documento esclareça se ela deverá estar no Brasil.

Isso não significa que os modelos serão treinados no exterior. O edital não diz isso e seria incorreto afirmar que acontecerá. O problema é que também não determina, nesse dispositivo, que o processamento antecipado ocorra no país. Se a infraestrutura estiver fora do Brasil, surgem questões sobre onde serão processados e armazenados datasets, códigos, checkpoints, pesos dos modelos e logs produzidos durante o treinamento, quem poderá tecnicamente acessá-los e sob qual jurisdição estarão os computadores utilizados.

A situação chama atenção porque a própria contratação apresenta a redução da dependência externa como um de seus objetivos. O Termo de Referência determina que a solução contribua para ampliar a capacidade brasileira de treinamento e operação de modelos de IA, formar profissionais nacionais e transferir conhecimento para que o país possa operar, manter, administrar e evoluir a infraestrutura. Entre os objetivos está expressamente “reduzir dependências tecnológicas estruturais em relação a infraestruturas computacionais estrangeiras”.

É nesse contexto que o governo colocou no mercado uma das maiores contratações de infraestrutura de inteligência artificial já realizadas no país. A Fundação de Apoio ao Desenvolvimento da Computação Científica, a FACC, abriu a seleção que escolherá a empresa responsável por fornecer ao Laboratório Nacional de Computação Científica, o LNCC, um supercomputador voltado principalmente ao treinamento e à operação de grandes modelos de inteligência artificial.

O teto da contratação é de R$ 959.040.959,04, com recursos da Finep. A máquina será instalada em Macaíba e a disputa foi marcada para 8 de outubro. O projeto está vinculado ao Plano Brasileiro de Inteligência Artificial e pretende ampliar a capacidade nacional para desenvolvimento, treinamento, validação e operação de modelos avançados. O próprio Termo de Referência ressalta que a contratação não se limita à entrega de equipamentos. Ela é tratada como instrumento de política de ciência, tecnologia e inovação e deverá contribuir para a soberania tecnológica nacional.

O preço impressiona, mas uma leitura detalhada do Termo de Referência mostra que seria enganoso tratar os R$ 959 milhões simplesmente como o preço de um supercomputador ou dividir o valor pelo número de aceleradores que vierem a ser adquiridos. O vencedor não entregará apenas servidores e GPUs. O contrato reúne hardware, armazenamento, redes, software, instalação, integração, refrigeração, suporte, manutenção, capacitação, transferência de tecnologia e uma série de obrigações que continuarão por anos.

O próprio edital determina que o preço apresentado pelo concorrente incorpore todos os custos diretos e indiretos necessários para entregar a solução funcionando. Entram nessa conta equipamentos, componentes, softwares, licenças, subscrições obrigatórias, garantia, suporte, instalação, integração, transporte, seguros, tributos, encargos, despesas aduaneiras, comissionamento, testes de aceitação, execução dos benchmarks, documentação e capacitação.

Isso é importante para avaliar se os quase R$ 1 bilhão reservados para o projeto são compatíveis com os preços praticados no mercado. Há diversos fabricantes e integradores internacionais capazes de montar sistemas de inteligência artificial dessa classe, mas a comparação simples com o preço de racks de GPUs não captura o tamanho da contratação brasileira. O desafio não será apenas encontrar quem tenha aceleradores para vender. Será encontrar quem consiga assumir o pacote completo de obrigações exigido pelo LNCC.

O edital, inclusive, não determina que a máquina utilize aceleradores Nvidia. Admite GPUs, NPUs ou tecnologias equivalentes, desde que atendam às especificações e apresentem o desempenho exigido. Todos os componentes deverão ser novos, originais de fábrica e contar com garantia oficial válida no Brasil. Não poderão estar em processo anunciado de fim de vida ou fim de suporte na data da entrega.

Em vez de simplesmente comprar determinado número de petaflops, o LNCC decidiu testar o que cada solução consegue efetivamente fazer. Os candidatos terão de executar benchmarks padronizados utilizando grandes modelos de inteligência artificial. Entre eles aparecem Llama 2 70B, Llama 3.1 405B, Mixtral 8x7B e DeepSeek-R1. Serão avaliados treinamento, inferência e outros parâmetros de desempenho.

Energia

A energia terá peso importante nessa disputa. O supercomputador deverá funcionar dentro de um limite de 3 MW para os nós de processamento, armazenamento, conectividade e demais equipamentos associados. Cada concorrente terá de apresentar uma estimativa do consumo de sua solução e comprovar que consegue respeitar esse teto.

Para dar uma ideia da escala, se esses 3 MW fossem utilizados continuamente durante um ano, corresponderiam a aproximadamente 26,3 GWh de energia. Isso não significa que a máquina consumirá permanentemente esse volume, porque os 3 MW representam o limite estabelecido para a infraestrutura tecnológica. Mas ajuda a entender que um supercomputador dessa dimensão está muito distante de uma sala convencional de servidores. Energia e refrigeração tornam-se parte central do projeto.

E não basta simplesmente caber nos 3 MW. A eficiência energética participa da avaliação técnica. Em termos simples, o LNCC quer saber quanto trabalho de inteligência artificial cada máquina consegue produzir para a energia que consome. O projeto considera desejável ainda um PUE igual ou inferior a 1,3 em regime operacional nominal, levando em conta refrigeração, distribuição elétrica e os demais componentes da infraestrutura.

O armazenamento é outro componente capaz de consumir uma parcela relevante do orçamento. Uma das camadas deverá oferecer 20 petabytes úteis inteiramente em tecnologia flash NVMe, com dispositivos criptografados e resistência mínima estabelecida para gravações. O projeto prevê ainda pelo menos outros 30 petabytes utilizáveis para armazenamento e arquivamento.

Somadas, apenas essas duas camadas chegam a 50 PB de capacidade útil, sem contar o armazenamento instalado diretamente nos nós computacionais. São cerca de 50 milhões de gigabytes. Mais importante que o tamanho, porém, é a velocidade necessária. Milhares de processadores trabalhando simultaneamente precisam ler e gravar enormes quantidades de informação sem deixar que o armazenamento se transforme no gargalo do supercomputador.

A rede segue a mesma lógica. Os nós deverão possuir conexões de pelo menos 400 Gbps, além de tecnologias destinadas a reduzir a latência e acelerar a movimentação de grandes volumes de dados. A solução deverá possuir redundância para evitar que a falha de um único componente interrompa partes críticas do sistema.

Outra parcela importante do custo estará no suporte. A empresa vencedora terá de garantir 97% de disponibilidade dos recursos computacionais durante todo o período de garantia, fazer monitoramento automático 24 horas por dia, sete dias por semana, acompanhar continuamente temperatura e consumo de energia e prestar assistência presencial. A reposição de componentes deverá ser feita com peças novas durante o período de garantia.

Suporte local

E o contrato não permitirá que a empresa simplesmente mantenha uma central de suporte no exterior e envie alguém ao Brasil quando surgir um problema. O fornecedor deverá designar pelo menos um engenheiro residente no Brasil, com dedicação exclusiva ao projeto e trabalhando presencialmente junto aos técnicos brasileiros, em regime 8×5, desde o primeiro mês de operação e durante todo o período de garantia. Esse profissional deverá ajudar a assegurar a operação e a manutenção do hardware. A empresa terá ainda de garantir acesso a especialistas em administração de sistemas, software e desenvolvimento de modelos de inteligência artificial.

Como o supercomputador estará instalado em Macaíba, a atividade presencial terá necessariamente de ser organizada no local da máquina. Há, porém, uma precisão importante: o documento fala literalmente em “engenheiro residente no Brasil”, e não determina nesse trecho que esse profissional tenha domicílio em Macaíba. Além disso, o fornecedor deverá possuir ou estabelecer, até a instalação, um parceiro domiciliado no Brasil responsável pelos serviços presenciais, montagem e manutenção local.

Os tempos de atendimento ajudam a explicar por que essa presença local será necessária. Se uma falha de hardware deixar indisponível mais da metade da capacidade computacional ou inviabilizar o uso do supercomputador, o atendimento deverá começar em até duas horas e ser concluído em até oito horas. Problemas que provoquem indisponibilidade entre 11% e 50% do ambiente terão prazo de início de atendimento de oito horas e conclusão em até 36 horas.

Tudo isso interfere no preço. O vencedor precisará manter durante anos uma estrutura técnica capaz de atender presencialmente uma máquina de altíssima complexidade instalada no Rio Grande do Norte, além de assegurar peças, pessoal e conhecimento especializado.

A garantia será de pelo menos cinco anos e não cobre apenas equipamentos. Hardware, software, firmware e serviços estão incluídos. Durante esse período, atualizações de segurança, patches de firmware, novas versões de software e correções de vulnerabilidades deverão ser fornecidos sem cobrança adicional.

Existe também uma garantia de desempenho. A empresa terá de assegurar que a máquina continue apresentando resultado igual ou superior ao demonstrado nos testes de aceitação, com verificações anuais utilizando os mesmos benchmarks. Se algum componente crítico chegar ao fim de sua vida comercial ou perder suporte durante os cinco anos, o fornecedor deverá avisar com pelo menos 18 meses de antecedência e apresentar um plano de substituição ou migração sem custo adicional para o comprador.

Outro componente pouco visível na conta é a formação de pessoal. O vencedor deverá oferecer um programa com pelo menos 320 horas de capacitação para 40 engenheiros ou profissionais indicados pelo comprador. Poderão ser realizadas até quatro turmas ao longo do contrato e parte das atividades ocorrerá nas instalações do próprio fabricante. Todas as despesas de transporte, hospedagem e alimentação desses profissionais deverão ser pagas pelo fabricante.

O treinamento não será suficiente. A proposta deverá incluir ainda 1.200 horas por ano de mentoria com pesquisadores e engenheiros seniores da área de pesquisa e desenvolvimento do fornecedor. Esses especialistas trabalharão com temas como treinamento e otimização de grandes modelos, software nacional de IA, treinamento distribuído, inferência, RAG e outras tecnologias. Trata-se de uma atividade diferente do suporte cotidiano da máquina.

A instalação também envolve engenharia. A empresa terá de apresentar projeto arquitetônico, elétrico e hidráulico, informar a carga de cada rack e especificar temperatura, volume e pressão da água necessária para refrigerar todo o sistema. O próprio Termo de Referência reconhece que a contratação envolve instalação física, montagem, cabeamento estruturado e infraestrutura predial elétrica, hidráulica e de refrigeração.

Esse componente poderá trazer outro custo financeiro. A vencedora deverá apresentar garantia de execução equivalente a pelo menos 10% do valor do contrato, que terá de permanecer válida durante a execução e o período da garantia técnica. Para a parcela eventualmente caracterizada como serviço de engenharia de grande vulto, o documento prevê ainda a possibilidade de exigir seguro-garantia com cláusula de retomada de até 30% do valor inicial do contrato.

Isso não significa que a empresa terá de imobilizar todo esse percentual em dinheiro. Existem seguro-garantia, fiança bancária e outros instrumentos. Mas todos eles possuem custos financeiros que acabam entrando na formação da proposta.

A infraestrutura antecipada de 5% também terá preço. O vencedor precisará possuir essa capacidade computacional ou contratá-la de terceiros e mantê-la disponível continuamente enquanto o supercomputador definitivo estiver sendo construído. Quanto mais próxima dos 520 dias estiver a entrega, maior poderá ser o período em que a empresa terá de sustentar paralelamente essa estrutura.

A cláusula cria ainda uma segunda dúvida. O documento fala em 5% da “capacidade total ofertada”, mas não deixa claro nesse trecho qual medida será usada para calcular o percentual. Capacidade de uma máquina de IA pode significar número de aceleradores, memória, FLOPs, velocidade de treinamento ou desempenho efetivamente obtido nos benchmarks. Dependendo da métrica escolhida, 5% pode representar estruturas bastante diferentes.

A concorrência mostrará quanto o mercado está disposto a cobrar por todo esse conjunto. O teto de R$ 959 milhões não compra simplesmente uma coleção de GPUs. O vencedor terá de entregar processamento, dezenas de petabytes de armazenamento, rede de altíssima velocidade, software, refrigeração, integração, cinco anos de garantia, suporte presencial no Brasil, reposição de peças, treinamento, mentoria especializada, engenharia, seguros e capacidade computacional antecipada.

Mas a primeira resposta importante talvez precise vir antes mesmo da abertura das propostas. Para um projeto concebido para reduzir a dependência brasileira de infraestrutura computacional estrangeira, falta esclarecer onde estará a capacidade que começará a treinar os primeiros modelos estratégicos durante os meses em que o supercomputador brasileiro ainda estiver sendo construído. Se ela puder ficar no exterior, a inteligência artificial que pretende reforçar a soberania tecnológica brasileira poderá começar sua vida justamente fora das fronteiras do país.