IA redefine mercado brasileiro de tecnologia e impulsiona nova corrida por infraestrutura digital

A inteligência artificial deixou de ser uma promessa e passou a reorganizar toda a cadeia de tecnologia da informação no Brasil. Essa é a principal conclusão da segunda etapa do estudo Mercado Brasileiro de Software – Panorama e Tendências 2026, apresentado pela Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES) com base em dados da IDC. O levantamento revela um mercado em expansão, liderado por investimentos em IA, computação em nuvem e infraestrutura digital, mas também expõe desafios estratégicos relacionados à dependência tecnológica, à demanda por energia para data centers e à crescente concentração da infraestrutura digital em grandes fornecedores globais.

Segundo a ABES, o Brasil encerrou 2025 com 41.613 empresas atuando nos segmentos de software e serviços, movimentando US$ 35,4 bilhões e consolidando sua posição como principal mercado de tecnologia da América Latina. O país também registrou US$ 67,8 bilhões em investimentos totais em TI, considerando software, hardware e serviços, mantendo a décima posição mundial e respondendo sozinho por 38,4% de todos os investimentos latino-americanos em tecnologia.

IndicadorValor
Investimento total em TI (2025)US$ 67,8 bilhões
Ranking mundial10º lugar
Participação na América Latina38,4%
Investimento total da regiãoUS$ 176,6 bilhões

Os números impressionam, mas uma análise mais detalhada do estudo mostra que o Brasil continua apresentando características típicas de um mercado em processo de amadurecimento digital. Apesar do crescimento acelerado do software e dos serviços, o hardware ainda representa 47,9% de todos os investimentos em TI realizados no país, contra 32,1% em software e 20% em serviços. Nos mercados mais desenvolvidos, a participação de software e serviços costuma superar a de equipamentos, indicando maior agregação de valor e sofisticação tecnológica.

Para Jorge Sukarie Neto, conselheiro da ABES e responsável pelo estudo, os resultados demonstram que a inteligência artificial deixou de ocupar o campo da experimentação para se tornar uma prioridade efetiva das empresas brasileiras. Segundo ele, os agentes de IA passam a desempenhar papel cada vez mais relevante na automação de processos, no aumento da produtividade e na criação de novos modelos de negócio. A avaliação encontra respaldo nos dados da pesquisa, que apontam Inteligência Artificial Generativa e agentes de IA como a principal prioridade tecnológica para 53% dos executivos brasileiros em 2026.

TemaPercentual
IA Generativa e Agentes de IA53%
Segurança da Informação e Cloud Security41%
IA e Machine Learning35%
Infraestrutura de Nuvem24%
Big Data e Analytics24%

O avanço é expressivo. De acordo com a ABES, 40% das empresas já investem em agentes inteligentes e outras 33% pretendem iniciar projetos nos próximos 12 meses. Na prática, mais de sete em cada dez organizações brasileiras já investem ou planejam investir nesse tipo de tecnologia no curto prazo.

A IDC vai além e projeta que os gastos brasileiros relacionados à implementação de inteligência artificial deverão superar US$ 3,4 bilhões em 2026, mantendo crescimento superior a 30% ao ano. A consultoria também prevê que as empresas que já investem em IA destinarão até um terço de seus orçamentos para agentes inteligentes, que passam a ser vistos como a próxima evolução do software corporativo.

Essa transformação ajuda a explicar outra tendência destacada no estudo: a corrida por infraestrutura. Segundo a IDC, o crescimento da IA deverá provocar uma forte expansão do mercado de data centers em 2026. O relatório aponta que ainda não existe consenso entre os executivos de tecnologia sobre qual será a arquitetura predominante para aplicações de IA, mas a tendência é de ambientes híbridos combinando infraestrutura própria, colocation, hosting e nuvem pública. Isso exigirá aumento da capacidade de processamento, armazenamento e consumo energético.

O documento alerta para três gargalos que podem limitar essa expansão. O primeiro é a crise global de componentes e memórias, que continua pressionando os prazos de entrega de equipamentos de alto desempenho. O segundo é a necessidade de ampliar a oferta de energia elétrica para data centers que já operam em densidades superiores a 50 quilowatts por rack. O terceiro é a necessidade de continuidade de políticas públicas voltadas ao setor, como o regime ReData, criado para estimular investimentos em infraestrutura digital. Segundo a IDC, o mercado brasileiro de Hosting & Infrastructure Services deverá atingir US$ 1,7 bilhão em 2026, crescimento de 18,1% sobre o ano anterior.

IndicadorProjeção
Crescimento do mercado de Hosting & Infrastructure Services em 202618,1%
Valor projetado do mercadoUS$ 1,7 bilhão
Organizações latino-americanas que usarão ambientes híbridos até 203060%
Potência exigida pelos novos racks de IAacima de 50 kW

A expansão da inteligência artificial também fortalece o papel da computação em nuvem. A IDC afirma que 69% dos líderes de TI brasileiros consideram a nuvem o ambiente preferencial para aplicações de IA generativa e agentes inteligentes. A expectativa é que o mercado brasileiro de infraestrutura como serviço alcance US$ 4,4 bilhões em 2026, com crescimento de 18,6%. Além disso, quase 38% de todos os gastos nacionais com IA deverão ser direcionados para aplicações e infraestrutura em nuvem.

Embora o estudo destaque os benefícios dessa transformação, ele praticamente não aborda uma discussão que ganha espaço dentro do governo federal, no Tribunal de Contas da União e em empresas estatais como Serpro e Dataprev: a soberania digital. O avanço simultâneo de nuvem, inteligência artificial, data centers e agentes autônomos tende a ampliar a dependência de plataformas globais controladas por um número reduzido de hyperscalers, justamente quando cresce o debate sobre proteção de dados estratégicos, armazenamento de informações governamentais e autonomia tecnológica nacional.

Outro movimento identificado pela IDC envolve as telecomunicações. A consultoria prevê que a inteligência artificial deixará de ser apenas uma ferramenta de gestão para se tornar parte integrante da própria infraestrutura das redes. A expectativa é de que operadoras utilizem IA para automação, manutenção preditiva, gestão dinâmica de tráfego e criação de novos serviços digitais. Os gastos com IA em telecomunicações na América Latina deverão superar US$ 617 milhões em 2026, com o Brasil respondendo por praticamente metade desse mercado.

IndicadorValor
Telcos que consideram IA uma das tecnologias mais importantes da transformação digital67%
Crescimento anual do mercado de IA em telecom (2024-2029)37,2%
Gastos com IA em telecom na América Latina em 2026US$ 617 milhões
Participação estimada do BrasilCerca de 50%

O estudo também confirma uma tendência observada nos mercados de conectividade: a ascensão dos satélites de baixa órbita. Segundo a IDC, as redes híbridas que combinam infraestrutura terrestre e satélites LEO serão cada vez mais utilizadas para conectar áreas remotas, regiões agrícolas, operações de mineração, projetos de energia e localidades da Amazônia. A previsão é que o mercado brasileiro de satélites LEO cresça mais de 65% até o final de 2026 e ultrapasse a marca de um milhão de acessos contínuos.

IndicadorValor
Crescimento previsto do mercado brasileiro de LEO até o fim de 2026+65%
Número de acessos contínuos previstosMais de 1 milhão
Empresas latino-americanas que usarão LEO até 202957%

Na infraestrutura terrestre, a expectativa é de consolidação dos provedores regionais. A IDC observa que os ISPs já respondem por mais de 60% dos novos investimentos em fibra óptica realizados no Brasil e deverão passar por um processo seletivo de fusões, aquisições e racionalização de ativos. A previsão é que a cobertura FTTH ultrapasse 85% dos domicílios brasileiros até 2027.

O levantamento da ABES também identifica uma lenta, mas consistente, desconcentração geográfica dos investimentos em tecnologia. Embora o Sudeste continue liderando com 62,37% dos aportes nacionais, sua participação vem diminuindo ao longo dos últimos anos. O Sul ampliou sua presença para 15,86%, enquanto Norte, Nordeste e Centro-Oeste registram crescimento gradual, indicando que a economia digital começa a avançar para além dos grandes centros tradicionais.

RegiãoParticipação
Sudeste62,37%
Sul15,86%
Centro-Oeste10,96%
Nordeste7,70%
Norte3,12%

Outro aspecto relevante é a composição empresarial do setor. Das mais de 41 mil empresas identificadas pela ABES, 94,3% são micro e pequenas empresas. Esse dado demonstra que a inovação tecnológica brasileira continua fortemente sustentada por negócios de menor porte, embora a infraestrutura crítica de nuvem, inteligência artificial e data centers esteja cada vez mais concentrada em grandes fornecedores globais.

Ao completar 40 anos de atuação, a ABES destaca que temas como inteligência artificial, soberania digital, inclusão tecnológica e sustentabilidade estarão no centro da agenda da entidade para os próximos anos. A escolha desses temas parece refletir exatamente o cenário revelado pelo estudo. O Brasil vive um momento de forte expansão tecnológica, lidera o mercado latino-americano e cresce acima da média global em investimentos digitais. Mas, ao mesmo tempo, enfrenta desafios estruturais relacionados à autonomia tecnológica, à infraestrutura energética e à crescente dependência de plataformas globais que tendem a definir os rumos da transformação digital na próxima década.

As 5 apostas da IDC/ABES para 2026:

  1. Expansão dos data centers impulsionada pela IA.
  2. Nuvem como infraestrutura central da inteligência artificial.
  3. Agentes de IA como nova geração de software.
  4. IA incorporada à segurança cibernética.
  5. Satélites de baixa órbita (LEO) integrados às redes de telecomunicações.