
Uma imagem aparentemente saída do Brasil imperial abriu nesta segunda-feira, 24 de agosto, uma apresentação do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, na Febraban Tech 2026. Uma longa alameda de palmeiras-imperiais do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, fotografada ou desenhada como se tivesse atravessado mais de um século, ocupa sozinha o segundo slide. Há, porém, um detalhe quase escondido no rodapé que transporta a cena para o presente: a ilustração em estilo de época foi gerada por inteligência artificial.
A escolha é uma boa síntese da história que Galípolo contou em seguida. Na era da IA, o Banco Central recorreu à tecnologia mais recente para recriar o passado e, a partir dele, explicar como particularidades da economia brasileira acabaram empurrando o sistema financeiro para a vanguarda tecnológica. A apresentação não diz expressamente que essa tenha sido a intenção da imagem, mas a sequência permite a leitura: logo depois das palmeiras artificiais, Galípolo volta ao período de inflação elevada e indexação disseminada para mostrar como a necessidade de realizar transações, compensar pagamentos, liquidar operações e atualizar valores em alta velocidade obrigou bancos, reguladores e infraestruturas de mercado a procurar soluções tecnológicas muito antes da atual corrida pela digitalização.
É uma espécie de paradoxo brasileiro. Parte da sofisticação tecnológica do sistema financeiro nasceu não de uma economia estável e previsível, mas da necessidade de sobreviver a problemas econômicos extraordinariamente complexos. Da padronização de cheques e boletos à automação bancária, da compensação nacional aos sistemas eletrônicos de liquidação e custódia, o setor foi incorporando tecnologia como necessidade operacional. O resultado, na interpretação apresentada pelo BC, foi um sistema financeiro que se tornou reconhecidamente sofisticado do ponto de vista tecnológico.
Se a inflação ajudou a empurrar os bancos para a automação décadas atrás, o Pix aparece na apresentação como o ponto mais recente dessa trajetória. Em 2025, foram 80 bilhões de transações, com R$ 35 trilhões movimentados. O sistema alcançou 920 milhões de chaves cadastradas, pertencentes a 162 milhões de pessoas e 16 milhões de empresas. Foram 148 milhões de pessoas físicas usuárias, aproximadamente 86% da população adulta, além de 12,8 milhões de empresas.
O tamanho da transformação talvez seja melhor percebido em outro gráfico apresentado por Galípolo. Em janeiro de 2018, havia cerca de 100 milhões de clientes bancários ativos no Sistema Financeiro Nacional. Em maio de 2025, essa população se aproximava de 180 milhões. No mesmo gráfico, a curva do Pix, que naturalmente começa em zero em novembro de 2020, dispara e chega perto de 170 milhões de pessoas físicas que já haviam realizado pelo menos uma transação.
A comparação exige uma ressalva que o próprio Banco Central faz no rodapé. As duas séries medem coisas diferentes: a primeira reúne clientes bancários com operações ativas, incluindo pessoas físicas e jurídicas; a segunda considera pessoas físicas que já fizeram pelo menos uma operação Pix, em base acumulada. Os pontos intermediários do gráfico também são classificados como ilustrativos. Portanto, a imagem não permite concluir simplesmente que o Pix tenha criado dezenas de milhões de novos bancarizados.
Ainda assim, a disseminação tecnológica entre a população de menor renda aparece de forma mais objetiva nos dados do CadÚnico. Em dezembro de 2023, 74% dos adultos inscritos já tinham registrado pelo menos uma chave Pix e 72% haviam realizado pelo menos um pagamento pela plataforma naquele ano. Para o BC, não se tratou apenas de inclusão estatística: o instrumento passou a ser utilizado em transações frequentes e de menor valor, próprias das necessidades cotidianas.
Talvez o número mais curioso da apresentação não esteja, porém, no volume de transações. Está na confiança que essa infraestrutura tecnológica adquiriu. Pesquisa Genial/Quaest reproduzida pelo Banco Central coloca o Pix com índice de confiança de 80%, acima da Igreja Católica, com 76%, da Polícia Militar, 75%, das Forças Armadas, 70%, da Presidência da República, 57%, do STF, 50%, e do Congresso Nacional, 49%. O Pix supera até os 70% de confiança declarados no próprio cônjuge.
O gráfico é revelador também pela forma como foi construído. O Pix aparece isolado e destacado no topo, enquanto as demais instituições ocupam posições secundárias. Mais do que apresentar uma curiosidade estatística, o BC expõe ali o tamanho do ativo institucional que construiu. Uma plataforma pública de pagamentos criada há menos de seis anos aparece com grau de confiança superior ao de algumas das instituições mais antigas do país.
É justamente nesse ponto que a apresentação muda de direção. Depois de mostrar que a tecnologia conseguiu colocar milhões de brasileiros dentro do sistema financeiro, Galípolo passa a discutir o que acontece com essas pessoas depois que entram. O título da apresentação, “Inclusão e cidadania financeira: do acesso ao uso responsável”, ganha então outro significado.
A mensagem é que acesso não significa necessariamente cidadania financeira. A mesma população que passou a transferir dinheiro instantaneamente pelo celular também ganhou acesso crescente ao crédito, e parte relevante desse crédito é cara, sem garantia e capaz de consumir parcela elevada da renda.
Dos 96 milhões de usuários de cartão de crédito mencionados pelo BC, 52,8 milhões tinham dívida no rotativo ou no parcelamento com juros. Entre 2020 e 2024, outros 37 milhões de brasileiros passaram a usar cartão. Em média, os gastos com cartão comprometiam 54% da renda. Em junho deste ano, os juros médios do rotativo estavam em 15,13% ao mês e os do parcelamento com juros em 9,32% ao mês.
A contradição fica mais evidente quando os gráficos de endividamento são colocados ao lado dos indicadores de emprego e renda. O endividamento total das famílias saiu de 41,8% da renda anual no ponto destacado em 2020 para 49,8% em 2026. Excluído o financiamento imobiliário, passou de 25,6% para 31,1%. O próprio BC avisa que o eixo vertical do gráfico é truncado, recurso visual que amplia a percepção das oscilações, mas a trajetória de crescimento permanece.
Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho vive situação muito diferente daquela observada durante a pandemia. A taxa de desemprego, que chegou ao pico de 14,9%, aparece em 5,4% em junho de 2026. A renda disponível das famílias, que atingira um mínimo de R$ 645 bilhões, alcançou R$ 822 bilhões em maio deste ano. No gráfico apresentado por Galípolo, as duas curvas praticamente se cruzam: enquanto o desemprego desaba, a renda sobe.
Isso torna mais difícil atribuir o aumento do endividamento apenas à falta de emprego ou à deterioração da renda. A apresentação aponta para outro problema: a composição do crédito que está chegando às famílias.
Um dos casos destacados é o consignado privado para trabalhadores com carteira assinada. O saldo dessa modalidade saltou de R$ 41 bilhões em março de 2025 para R$ 102 bilhões em março de 2026, crescimento de 145%. No mesmo período de expansão, a inadimplência passou de 5% para 6,7%, enquanto os juros médios subiram de 40,9% para 57% ao ano. O Relatório de Política Monetária já inclui o consignado privado entre as linhas que contribuíram para o aumento recente dos atrasos.
No cartão de crédito, a parcela do saldo do rotativo em atraso subiu de 55% para 64,5% entre janeiro e dezembro de 2025. O número de usuários com dívida sujeita a juros passou de 34 milhões para 52,8 milhões, enquanto o comprometimento da renda com cartão avançou de 38,5% para 54%.
Mais pesado ainda é o retrato do crédito pessoal não consignado. O saldo cresceu 188% entre março de 2020 e junho de 2026, de R$ 137,7 bilhões para R$ 397,2 bilhões. Em maio deste ano, 68,7% de uma carteira próxima de R$ 400 bilhões, cerca de R$ 275 bilhões, não tinha garantia, o maior patamar da série divulgada pelo BC. Nas operações sem garantia, os juros chegaram a 149,5% ao ano em junho, contra 27,5% nas operações com algum tipo de lastro.
O financiamento de veículos ajuda a mostrar a diferença. A inadimplência das pessoas físicas também aumentou, de 4,3% para 6,6%, mas os juros médios ficaram em 26,4% ao ano, os menores entre as quatro modalidades selecionadas na apresentação. A explicação apontada pelo BC é simples: o veículo constitui garantia real da operação.
É nesse ambiente que o Banco Central apresenta um extenso conjunto de medidas para tornar mais rígida a infraestrutura financeira digital que ajudou a construir. O movimento alcança justamente alguns dos componentes mais tecnológicos do sistema.
No Pix, o BC está desenvolvendo um sistema de alerta de movimentações atípicas no SPI, infraestrutura central do sistema. O MED 2.0 amplia o mecanismo destinado à devolução de recursos em fraudes, golpes ou coerção e permite compartilhar informações sobre contas utilizadas por fraudadores. Um botão de contestação busca acelerar o bloqueio do dinheiro. O BC também estabeleceu limite de R$ 15 mil para Pix e TED em determinadas instituições de pagamento não autorizadas e conectadas à Rede do Sistema Financeiro Nacional por prestadores de serviços de tecnologia da informação.
Os próprios PSTIs entraram na mira. O Banco Central ampliou requisitos de governança e gerenciamento de riscos e passou a exigir capital mínimo de R$ 15 milhões para o credenciamento dessas empresas. Também antecipou o processo de autorização das instituições de pagamento e criou mecanismos para restringir transações e impedir registro ou portabilidade de chaves Pix por clientes identificados como fraudadores.
A fronteira tecnológica seguinte são os ativos virtuais. O BC regulamentou as prestadoras desses serviços, definiu regras de autorização e incorporou essas empresas ao arcabouço prudencial. A partir de janeiro de 2027, elas estarão sujeitas a exigências de gerenciamento de riscos, capital e divulgação de informações. Em outra medida, operações acima de US$ 10 mil destinadas a empresas de ativos virtuais no exterior ou carteiras autocustodiadas poderão ficar submetidas a retenção cautelar por 24 horas, permitindo uma análise adicional de risco.
O movimento regulatório ultrapassa a tecnologia e chega à própria estabilidade do sistema financeiro. Nas páginas finais, Galípolo destaca mudanças nas regras do Fundo Garantidor de Créditos destinadas a reduzir incentivos para que instituições assumam riscos excessivos utilizando captações protegidas pelo FGC. Entre as medidas estão aumento da contribuição adicional, ampliação de sua base de incidência e obrigação de instituições excessivamente alavancadas aplicarem recursos excedentes em títulos públicos federais.
O regulador também passou a considerar mais diretamente a composição e a qualidade dos ativos que sustentam essas captações. E uma nova ferramenta permite ao FGC, diante de situação conjuntural adversa reconhecida pelo Banco Central, celebrar acordo de compartilhamento de perdas, assumindo parte de perdas futuras de ativos transferidos para outra instituição financeira.
A apresentação de Galípolo acaba, assim, contando duas histórias tecnológicas ao mesmo tempo. A primeira é conhecida: inflação, indexação e complexidade obrigaram o sistema financeiro brasileiro a automatizar processos, construir infraestruturas eletrônicas e, décadas depois, chegar a uma plataforma como o Pix, capaz de movimentar R$ 35 trilhões em um único ano.
A segunda começa agora. Depois de resolver em grande medida o problema tecnológico do acesso, o desafio passou a ser impedir que a facilidade de movimentar dinheiro e contratar produtos financeiros transforme inclusão em endividamento excessivo, fraude ou risco sistêmico. A resposta do Banco Central volta a passar por tecnologia, dados, monitoramento de transações e mecanismos automatizados de prevenção.
Por isso, a solitária imagem das palmeiras-imperiais do Jardim Botânico acaba funcionando como uma síntese involuntária da apresentação. Parece antiga, mas foi fabricada por inteligência artificial. O sistema financeiro descrito por Galípolo também carrega essa combinação peculiar entre passado e futuro: problemas históricos brasileiros ajudaram a produzir uma das infraestruturas financeiras digitais mais avançadas do país. Agora, na era da IA, a tecnologia que ampliou o acesso terá de ajudar a resolver os riscos criados por um sistema no qual entrar ficou muito mais fácil do que aprender a usar responsavelmente tudo aquilo que passou a estar disponível na tela do celular.
*Foto: O Estado de São Paulo.








