
A Diretoria de Tecnologia da Informação (DTI) do IBGE divulgou nesta segunda-feira (24) uma manifestação para contestar acusações feitas pela ASSIBGE Sindicato Nacional dos Trabalhadores em Fundações Públicas Federais de Geografia e Estatística envolvendo a contratação de serviços do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) e a segurança das informações mantidas pelo instituto.
A nota é mais um capítulo de um desgaste entre a direção do IBGE e representantes dos trabalhadores que se arrasta desde 2025, quando o instituto assinou um contrato de prestação de serviços com o Serpro. Desde então, a contratação passou a ser alvo de questionamentos do sindicato relacionados à transparência do acordo, aos custos envolvidos e à segurança dos dados administrados pelo órgão. Uma greve chegou a ser deflagrada no último dia 17 que envolve as unidades do Rio de Janeiro e Bahia, além da sede da instituição.
A tensão ganhou novo fôlego após manifestações recentes da ASSIBGE, que voltou a levantar dúvidas sobre o contrato e apontou possíveis riscos envolvendo informações sob responsabilidade do instituto. Entre os pontos questionados está a referência a um valor de R$ 80 milhões e a preocupação de que a infraestrutura tecnológica utilizada pelo Serpro possa ampliar a exposição dos dados do IBGE a grandes empresas internacionais de tecnologia.
É nesse contexto que a DTI decidiu publicar o novo posicionamento. A diretoria rejeita a interpretação de que exista um contrato fechado de R$ 80 milhões e afirma que o acordo funciona por demanda. Nesse modelo, o valor contratado representa uma possibilidade de utilização dos serviços, enquanto os pagamentos dependem do que for efetivamente requisitado pelo IBGE. Segundo a diretoria, estruturas semelhantes são utilizadas pelo Serpro no atendimento a outros órgãos da administração pública federal.
A manifestação também rebate os questionamentos sobre um eventual risco de exposição de informações do IBGE em razão da infraestrutura utilizada pelo Serpro. A diretoria argumenta que a empresa pública já é responsável por sistemas estratégicos para o Estado brasileiro, envolvendo dados relacionados ao Imposto de Renda, passaportes, carteiras de habilitação, veículos, pagamentos do Governo Federal, comércio exterior e operações realizadas nos portos brasileiros.
Na avaliação apresentada pelo IBGE, o fato de o Serpro utilizar serviços tecnológicos fornecidos por grandes empresas do setor não significa, por si só, que exista quebra de sigilo ou compartilhamento indevido de dados. O próprio instituto afirma que também utiliza atualmente soluções de grandes companhias de tecnologia em parte de sua infraestrutura.
O embate ocorre paralelamente ao projeto do IBGE de ampliar sua infraestrutura própria de computação em nuvem. A proposta prevê o uso de plataformas baseadas em software aberto e livre e uma integração com a chamada nuvem soberana do Governo Federal, desenvolvida em parceria com o Serpro.
Segundo a DTI, o IBGE esteve entre os primeiros órgãos a utilizar essa estrutura e pretende ampliar a participação no projeto. A estratégia busca reduzir gradualmente a dependência de plataformas privadas e aumentar o controle sobre o armazenamento e o processamento de informações consideradas sensíveis.
A próxima etapa prevê que a infraestrutura de nuvem própria do IBGE seja integrada à estrutura de nuvem soberana do Governo Federal, em uma iniciativa desenvolvida também com o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos. Outros órgãos federais já participam de projetos semelhantes.
A diretoria sustenta que a mudança poderá ampliar a capacidade técnica do instituto e facilitar o acesso seguro a bases administrativas do governo, mantendo os dados dentro de uma infraestrutura controlada por instituições públicas. A medida também está alinhada à política federal de desenvolvimento de soluções nacionais para armazenamento e processamento de informações estratégicas.
As divergências entre sindicato e direção já chegaram a outros portais, que publicaram reportagens sobre questionamentos de servidores, pedidos de maior transparência, abaixo-assinados e mobilizações relacionadas à gestão do instituto. Segundo o IBGE, respostas oficiais foram encaminhadas aos veículos responsáveis pelas publicações.
O episódio amplia uma disputa iniciada ainda em 2025 e que passou a envolver não apenas relações entre servidores e direção, mas também temas como soberania digital, segurança da informação, transparência nos contratos públicos e dependência tecnológica. De um lado, o sindicato mantém questionamentos sobre a contratação e a proteção dos dados. Do outro, a direção de tecnologia do IBGE sustenta que a parceria com o Serpro faz parte justamente de uma estratégia para fortalecer a infraestrutura pública e aumentar o controle sobre informações de milhões de brasileiros.







