Brasil tem rede científica estratégica, mas fragmentação e falta de continuidade ameaçam patrimônio tecnológico

O Brasil já dispõe de uma infraestrutura científica que reúne milhares de pesquisadores, laboratórios de grande porte, plataformas de supercomputação, bancos de dados, sistemas de inteligência, tecnologias digitais, pesquisas em materiais avançados, energia, saúde, biotecnologia e clima. Parte dela presta serviços ao próprio governo, participa da elaboração de políticas públicas e produz tecnologias com aplicação industrial. O problema é que esse patrimônio, construído ao longo de mais de uma década com recursos públicos, continua funcionando de forma fragmentada, depende de ciclos incertos de financiamento e ainda é subutilizado pelo Estado.

Esse é um dos principais diagnósticos da avaliação estratégica dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs), elaborada pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), em articulação com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). O levantamento avaliou 104 institutos e, ao olhar não apenas para artigos e patentes, mas para as relações entre pesquisadores, instituições e áreas do conhecimento, encontrou um sistema de elevada produtividade científica que ainda não conseguiu funcionar plenamente como uma rede nacional integrada.

A constatação ganha relevância no momento em que o governo discute ampliar a capacidade brasileira em inteligência artificial, supercomputação, infraestrutura digital, transição energética, minerais estratégicos e tecnologias consideradas essenciais à soberania nacional. O próprio estudo mostra que parte das competências necessárias a essas políticas já foi construída. O desafio não é apenas financiar novos projetos, mas organizar e preservar aquilo em que o país já investiu.

Os 104 INCTs avaliados cobrem sete grandes áreas, das Ciências Exatas e da Terra às Engenharias, Saúde, Ciências Biológicas, Agrárias, Humanas e Meio Ambiente. Estão majoritariamente instalados em universidades e institutos públicos e funcionam por meio de redes que conectam instituições brasileiras e estrangeiras. A avaliação conclui que o programa ultrapassou há muito a lógica de projetos científicos isolados: laboratórios multiusuários, plataformas tecnológicas, coleções, bancos de dados e sistemas de informação passaram a funcionar como infraestrutura científica compartilhada. O problema aparece quando se observa como essa capacidade se relaciona internamente.

Ciência fragmentada

Em Ciências Exatas e da Terra, por exemplo, são 29 INCTs e mais de 4,3 mil pesquisadores trabalhando em áreas que incluem matemática, física, oceanografia, mudanças climáticas, materiais avançados e tecnologias digitais. Apesar da dimensão da rede, aproximadamente 45% dos pesquisadores apresentaram grau zero de conexão nos três períodos examinados, de 2010 a 2025. Isso significa que, segundo a métrica de coautoria utilizada na avaliação, não possuíam vínculos formais de coautoria dentro das redes analisadas.

A imagem encontrada pelos avaliadores é a de grandes núcleos científicos cercados por uma extensa periferia de pesquisadores pouco conectados. Fotônica, Física Nuclear, Matemática, Nanomateriais de Carbono, Materiais Complexos e Sistemas Complexos estão entre os principais polos. Em alguns deles existem pesquisadores com mais de 2,7 mil contribuições individuais. A produção, portanto, pode crescer sem que a integração acompanhe o mesmo ritmo.

O próprio relatório resume o fenômeno ao afirmar que as Ciências Exatas e da Terra funcionam como um “mosaico de redes especializadas”, e não como uma rede nacional integrada. A produção científica é grande, a qualificação é elevada e os institutos têm impacto em energia, clima, indústria, infraestrutura digital e soberania tecnológica. Ao mesmo tempo, persistem pesquisadores isolados, concentração da liderança e baixa integração entre institutos e subáreas.

O contraste aparece até visualmente no estudo. O mapa que cruza produção e cooperação mostra vários INCTs com produção muito alta e colaboração apenas moderada ou baixa. Fotônica, Física Nuclear, Nanomateriais de Carbono e Mudanças Climáticas estão entre os casos de elevada produção sustentada por poucos núcleos centrais. Matemática, Materiais Complexos, Internet do Futuro e Engenharia de Software apresentam grande capacidade produtiva, mas baixa densidade de relações internas. A conclusão é relevante para a política científica: excelência individual ou institucional não produz automaticamente capacidade nacional.

Tecnologia dispersa

O quadro se repete justamente nas áreas mais diretamente relacionadas às novas políticas tecnológicas do governo. A análise de redes de Engenharias, Energias e Tecnologias da Informação reúne 1.159 pesquisadores e contabiliza mais de 108 mil contribuições científicas e tecnológicas entre 2010 e 2025. No primeiro período, de 2010 a 2015, cerca de 56% dos pesquisadores apresentavam grau zero de conexão. A proporção caiu para aproximadamente 48% entre 2015 e 2020, mas voltou a cerca de 57% entre 2020 e 2025.

Ou seja, houve enorme produção sem fortalecimento sustentável da cooperação.

O estudo identifica concentração da liderança em poucos institutos. Entre 2010 e 2015, o INCT em Medicina Assistida por Computação Científica (MACC) reuniu 285 pesquisadores e respondeu sozinho por mais de 24 mil contribuições. Depois, parte da centralidade migrou para Energia Elétrica, Geração Distribuída, Energias Oceânicas e Fluviais e tecnologias GNSS, mas a desigualdade entre as redes permaneceu.

Há, inclusive, uma diferença interna no próprio documento que merece registro. A síntese temática de Engenharias fala em nove INCTs, enquanto a análise posterior das redes se refere a 12. A avaliação não esclarece, nos trechos correspondentes, a razão da diferença, o que pode refletir recortes metodológicos distintos e impede tratar os dois números como se representassem necessariamente o mesmo universo.

No recorte de nove institutos utilizado pela síntese temática, aparecem 7.253 publicações científicas, 132 pedidos de patentes e 30 registros de software. Entre os produtos desenvolvidos estão limitadores de corrente, turbinas hidrocinéticas, sistemas GNSS, plataformas de telemedicina, sensores ambientais e sistemas robóticos cooperativos.

Essas redes também formaram 399 doutores, 935 mestres, 677 estudantes de iniciação científica e 155 pós-doutores. Cerca de 69% dos pesquisadores possuem doutorado. Não se trata apenas de capital humano. Alguns núcleos possuem infraestrutura estimada em mais de R$ 60 milhões. O patrimônio inclui laboratórios acreditados pelo Inmetro, bancos de ensaios de geração distribuída, centros de robótica, plataformas de supercomputação, redes de monitoramento GNSS, bases ambientais e instalações experimentais. Algumas dessas estruturas já realizam serviços tecnológicos, ensaios regulatórios e contratos de pesquisa e desenvolvimento para empresas e órgãos governamentais.

O estudo cita interfaces com Aneel, Inmetro, Decea, Ministério da Saúde e outros ministérios. Há contratos de P&D, entre eles um sistema de monitoramento subaquático de R$ 4,3 milhões. Portanto, quando o país discute construir capacidade tecnológica própria, não parte de uma folha em branco.

Missões nacionais

Talvez uma das partes mais importantes da avaliação esteja justamente na identificação de competências que hoje permanecem separadas, mas poderiam ser combinadas em grandes missões nacionais.

Nas Ciências Exatas, o relatório aponta possibilidades de integração entre clima, oceanografia, geociências e modelagem computacional; materiais avançados, nanotecnologia, energia e indústria; fotônica, informação quântica, instrumentação, saúde e defesa; e matemática, física e computação aplicadas a sistemas complexos.

Essas combinações poderiam ser orientadas, segundo a avaliação, para desafios como soberania tecnológica, transição energética, segurança ambiental e infraestrutura científica. O documento recomenda missões inter-INCT, incentivos explícitos à cooperação e mecanismos de governança transversal.

É uma mudança relevante de lógica. Em vez de financiar apenas institutos individualmente, o Estado passaria a utilizar capacidades distribuídas em diferentes redes para atacar um mesmo problema nacional.

Isso é particularmente importante porque o estudo identifica baixa convergência justamente entre disciplinas indispensáveis às tecnologias emergentes. Física, química, computação, geociências e matemática aplicada mantêm elevada especialização, mas pouca recombinação. O resultado limita agendas integradas em transição energética, tecnologias quânticas e digitais, mudanças climáticas e materiais avançados.

Nas Engenharias ocorre fenômeno semelhante entre engenharia elétrica, computação, energia, saneamento, robótica, materiais avançados e TI. O documento considera que o problema central da área é a fragmentação excessiva, que dificulta a construção de agendas comuns em soberania tecnológica, digitalização industrial, infraestrutura crítica, transição energética e tecnologias para saúde.

Isso significa que aumentar o orçamento, isoladamente, não resolveria o problema apontado pela avaliação. Há uma questão de dinheiro, mas também de arquitetura institucional.

Computação estratégica

O documento ajuda ainda a dimensionar a infraestrutura tecnológica já existente dentro do sistema científico. Nas Ciências Exatas, os institutos mantêm laboratórios multiusuários, observatórios, redes de monitoramento, plantas-piloto, bases de dados e plataformas computacionais de alto desempenho. Essas instalações não servem apenas aos pesquisadores dos INCTs. Prestam serviços a universidades, empresas e órgãos governamentais.

A área engloba ciência de dados, engenharia de software, sistemas complexos, informação quântica, materiais e outras competências relacionadas diretamente à transformação digital. O relatório cita o INCT Internet do Futuro e Engenharia de Software, que desenvolveu plataformas aplicadas a cidades inteligentes.

A própria Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação 2024-2034 aparece na análise. Os avaliadores consideram que a fragmentação encontrada reforça a necessidade de transformar a integração em rede em objetivo explícito da política de CT&I, inclusive com cooperação inter-regional e missões orientadas a transição energética e tecnologias quânticas e digitais.

O diagnóstico oferece, portanto, um contraponto importante para políticas que pretendam construir novas infraestruturas tecnológicas sem primeiro mapear e integrar a capacidade que já existe nas universidades e institutos públicos.

Agro integrado

A avaliação mostra também que a fragmentação não ocorre com a mesma intensidade em todas as áreas e que existem experiências mais próximas do modelo de integração entre ciência, Estado e setor produtivo. Os sete INCTs de Ciências Agrárias analisados produziram 5.712 artigos, depositaram 49 patentes e registraram 12 softwares. Também formaram 274 doutores, 928 mestres, 596 estudantes de iniciação científica e 103 pós-doutores.

Os resultados chegaram diretamente ao campo. A avaliação registra estimativas de utilização de bioinsumos em mais de 40 milhões de hectares e tecnologias associadas à redução de até 25% da adubação nitrogenada, além de trabalhos relacionados à recuperação de solos, manejo florestal e sequestro de carbono.

Seis dos sete institutos possuem interfaces documentadas com políticas ou normas governamentais, incluindo o Inventário Nacional de Emissões de Gases de Efeito Estufa, Plano ABC/ABC+, Plano Nacional de Fertilizantes e Lei de Bioinsumos.

As redes estão presentes em 16 estados e no Distrito Federal. Mesmo nesse segmento, porém, aparecem assimetrias regionais, deficiências de infraestrutura, gargalos de bioinformática e de gestão de grandes volumes de dados e dificuldades administrativas para manter redes extensas.

SUS científico

Na Saúde, a integração com o poder público é ainda mais direta. Os INCTs trabalham com doenças infecciosas e crônicas, vigilância epidemiológica, biotecnologia, desenvolvimento de fármacos e vacinas, tecnologias de diagnóstico, saúde digital e avaliação de políticas públicas.

São mais de 2,1 mil pesquisadores distribuídos por 418 instituições em 25 unidades da Federação. As redes mantêm laboratórios de referência, biobancos, plataformas de ensaios clínicos, centros de pesquisa translacional e sistemas de informação em saúde. Parte dessa infraestrutura presta diretamente serviços estratégicos ao SUS, incluindo análises laboratoriais especializadas, vigilância epidemiológica e avaliação de tecnologias.

Há interação com Ministério da Saúde, secretarias estaduais e municipais, Fiocruz, Anvisa e instituições do complexo econômico-industrial da saúde. Os INCTs contribuem para protocolos clínicos, diretrizes terapêuticas, estratégias de vigilância e avaliação de políticas públicas. A avaliação chega a definir essas redes como “extensões qualificadas” do SUS.

A definição dá outra dimensão ao problema do financiamento. A interrupção de recursos não ameaça apenas artigos ou projetos acadêmicos, mas plataformas que podem fazer parte da capacidade nacional de resposta a epidemias e emergências sanitárias. O próprio estudo identifica como principal risco da área a dependência de ciclos descontínuos de fomento, com potencial de fragilizar infraestruturas críticas e capacidades de resposta a emergências.

Vacinas e dados

Nas Ciências Biológicas, a escala também chama atenção. Os 22 institutos analisados produziram 17.808 artigos e registraram 210 pedidos de patentes e 33 softwares, além de plataformas digitais, kits diagnósticos, vacinas candidatas, bioinsumos, cultivares, nanoformulações, sistemas de vigilância genômica e grandes repositórios de dados.

Entre os exemplos citados estão enzimas utilizadas em cerca de 1 milhão de testes RT-LAMP, plataformas nacionais de vacinas de mRNA, cultivares transgênicas, tecnologias de controle de vetores com Wolbachia e o INCT Virtual da Flora e dos Fungos, que reúne mais de 13,5 milhões de registros.

A infraestrutura inclui centros de bioimagem, biobancos, plataformas ômicas, instalações de níveis de biossegurança NB2 e NB3, estações experimentais, sequenciamento e redes de herbários.

O relatório aponta, porém, que manter esse aparato é caro e complexo. O principal risco identificado para as Ciências Biológicas combina custo elevado das grandes infraestruturas, instabilidade de financiamento e concentração regional das capacidades.

Inteligência pública

O patrimônio acumulado não se limita aos laboratórios. Os dez INCTs de Ciências Humanas, Sociais Aplicadas e Educação contabilizam 14.084 produções, 533 doutorados, 1.031 mestrados, 733 iniciações científicas e 157 pós-doutorados.

Mas um dos achados mais relevantes está na infraestrutura informacional. Os institutos desenvolveram plataformas digitais, repositórios, observatórios, bancos de dados, sistemas geoespaciais, observatórios eleitorais e painéis de monitoramento da desinformação que acumulam milhões de acessos. O estudo considera que esses ativos ampliam a capacidade analítica do Estado, fortalecem a transparência e permitem políticas baseadas em evidências.

Há cooperação com Ministério das Cidades, Ministério da Saúde, Incra, Funai, IBGE, Ipea, TSE, TCU e AGU, além de prefeituras e governos estaduais. A expressão usada pela avaliação é especialmente significativa: esses institutos funcionam como “infraestruturas de inteligência pública”.

Produzem dados e análises para políticas urbanas, ambientais, territoriais e sociais, decisões judiciais e regulatórias, governança democrática e integridade informacional. Mesmo assim, o relatório aponta como principal risco justamente a subvalorização institucional dessa contribuição e a fragilidade do financiamento permanente de observatórios, plataformas e bases públicas.

Clima estratégico

Mesmo as redes menores guardam ativos difíceis de substituir. Na área classificada pelo relatório como Ecologia e Meio Ambiente, aparecem o INCT da Criosfera e o INCT de Ciências Forenses. Juntos, somam 926 publicações e desenvolveram tecnologias de monitoramento ambiental, energia renovável, análises laboratoriais portáteis, rastreabilidade e ferramentas digitais para investigação forense e controle ambiental.

São 73 doutores, 89 mestres e 14 pós-doutores formados. As infraestruturas incluem redes pedoclimáticas com dezenas de pontos na Antártica, Andes e Ártico, módulos automáticos de monitoramento, bancos de solos e biobancos genéticos com amostras das cinco regiões brasileiras.

O estudo considera que essas estruturas aumentam a capacidade do Brasil de monitorar eventos extremos, atuar em áreas remotas e manter presença científica em territórios estratégicos. O principal risco novamente é financeiro: operações desse tipo exigem financiamento permanente e logística complexa.

Dinheiro instável

É justamente a repetição desse problema em áreas tão diferentes que transforma a questão financeira em uma preocupação estrutural. Um laboratório sofisticado, uma plataforma de supercomputação, um biobanco, uma estação na Antártica ou uma base científica de milhões de registros não pode simplesmente ser desligado ao término de um edital e religado anos depois sem consequências.

O levantamento trata as redes como resultado acumulado do investimento público. O mapeamento das relações entre pesquisadores registra não apenas produção científica, mas a capacidade coletiva construída e as fragilidades provocadas pela descontinuidade institucional e financeira.

Isso significa que uma interrupção orçamentária pode destruir um ativo que não aparece contabilizado apenas pelo valor dos equipamentos. Perdem-se relações entre pesquisadores, conhecimento acumulado, equipes especializadas, capacidade de operar instalações complexas, cooperação internacional e confiança de parceiros públicos e privados.

A situação é especialmente delicada nas Ciências Exatas, onde o relatório identifica como principal risco a vulnerabilidade à descontinuidade de financiamento e a ausência de modelos de governança compatíveis com a escala e o custo de infraestruturas críticas. Nas Engenharias, o risco apontado é a fragmentação da governança e a instabilidade institucional, capazes de comprometer contratos de P&D, parcerias tecnológicas e interoperabilidade das infraestruturas.

Nas Agrárias, aparecem falta de previsibilidade, desigualdade regional e carências de infraestrutura. Na Saúde, risco às plataformas estratégicas e à capacidade de resposta sanitária. Nas Biológicas, o custo de manutenção. Nas Humanas, a dificuldade de sustentar observatórios e bases de dados. No Meio Ambiente, o financiamento e a logística. Não é, portanto, uma deficiência localizada. Tem característica de fragilidade do modelo.

Estado distante

Há ainda uma contradição maior. O levantamento documenta dezenas de situações nas quais os institutos já trabalham para o Estado. Eles colaboram com ministérios, agências reguladoras, governos estaduais, municípios, órgãos de controle, SUS e instituições responsáveis por políticas ambientais, agrícolas e tecnológicas.

Nas Ciências Exatas, as infraestruturas contribuem para políticas de saúde, saneamento, energia, meio ambiente, planejamento territorial, mobilidade e defesa civil. O estudo chega a classificá-las como verdadeiras “plataformas de Estado”.

Nas Engenharias há interação com reguladores e ministérios. Nas Agrárias, influência sobre planos e legislação. Na Saúde, participação direta no SUS. Nas Humanas, apoio a TSE, TCU, AGU e outros órgãos. Na área ambiental, produção de dados para políticas climáticas, fiscalização e segurança. Ainda assim, a conclusão transversal é de que essa relação não atingiu todo o potencial disponível.

O país conseguiu financiar redes de especialistas, equipamentos, bancos de dados, software, capacidade computacional e conhecimento de fronteira, mas não criou na mesma velocidade uma arquitetura institucional capaz de mobilizar esse conjunto em torno das prioridades nacionais.

Outro modelo

É nesse ponto que a avaliação da CGEE deixa de ser apenas um balanço do passado e passa a indicar um caminho para o futuro. A integração em rede deveria deixar de ser consequência eventual da aproximação entre pesquisadores e tornar-se objetivo explícito da política científica. O documento sugere cooperação interinstitucional, inter-regional e entre áreas, além de missões científicas organizadas em torno de desafios nacionais.

Essa mudança poderia alterar inclusive a maneira de pensar novos investimentos tecnológicos. Em vez de começar cada grande programa procurando montar do zero equipes, laboratórios, sistemas de dados e capacidade computacional, o Estado poderia identificar quais competências já foram financiadas, onde estão instaladas, quais infraestruturas podem ser compartilhadas e quais INCTs poderiam atuar conjuntamente.

O estudo não apresenta uma conta consolidada de quanto o país gastou para construir todo esse patrimônio nem estima quanto custaria mantê-lo de forma permanente. Também não permite concluir, apenas a partir de seus dados, quanto dos novos investimentos anunciados pelo governo poderia ser substituído pelo aproveitamento das infraestruturas existentes. Essas contas exigiriam cruzamento posterior com orçamento, FNDCT, Finep, CNPq e demais fontes de financiamento.

Mas o diagnóstico produzido pela avaliação é suficiente para levantar uma questão anterior ao dinheiro.

O Brasil talvez não esteja começando do zero nas políticas que hoje chama de soberania tecnológica. Ao longo de mais de uma década, o próprio Estado financiou uma infraestrutura distribuída de ciência de dados, computação de alto desempenho, software, informação quântica, materiais avançados, energia, robótica, saúde digital, biotecnologia, vacinas, monitoramento climático, bancos de dados e inteligência para políticas públicas.

Em alguns campos, essa infraestrutura já atende diretamente ao governo. Em outros, possui conexões com empresas e reguladores. Há redes com produção científica de classe internacional e laboratórios sofisticados. Há também pesquisadores isolados, plataformas dependentes de editais, desigualdades regionais e instituições que pouco conversam entre si.

A avaliação dos 104 INCTs revela, assim, algo maior que um problema de financiamento da ciência. O Brasil conseguiu construir peças importantes de uma infraestrutura científica e tecnológica nacional, mas ainda não conseguiu transformá-las plenamente em sistema.

Antes de perguntar apenas quanto custará construir a próxima infraestrutura estratégica, o estudo sugere outra pergunta: quanto o país já gastou para construir capacidades que possui, onde elas estão e por que o Estado ainda não consegue utilizá-las como uma rede nacional?

*Baixe o estudo do CGEE: https://capitaldigital.com.br/wp-content/uploads/2026/08/E-book-de-Avaliacao-Estrategica-dos-INCTs.pdf