
Quatro anos depois de entregar aos candidatos à Presidência uma agenda centrada na recuperação do financiamento da ciência, na educação e na transformação da pesquisa em inovação, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) chega às eleições de 2026 com uma conclusão mais dura: o Brasil já sabe, em boa medida, o que precisa fazer. O problema passou a ser executar, dar continuidade e organizar uma política de Estado capaz de transformar conhecimento em desenvolvimento. A mudança de discurso fica ainda mais evidente quando o novo documento da Academia é confrontado com uma avaliação feita pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) sobre 104 Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs). Por caminhos diferentes, os dois trabalhos desembocam praticamente no mesmo diagnóstico.
Em 2022, o documento entregue pela ABC aos presidenciáveis tinha como título “A importância da ciência como política de Estado para o desenvolvimento do Brasil”. Naquele momento, a Academia descrevia um sistema científico ameaçado pela redução persistente de recursos, pela deterioração das bolsas, pela fuga de pesquisadores e pela falta de previsibilidade do financiamento. Defendia que o investimento brasileiro em ciência, tecnologia e inovação alcançasse pelo menos 2% do Produto Interno Bruto já no quadriênio seguinte, além de fortalecer CNPq, Capes, Finep e MCTI e ampliar o protagonismo da ciência dentro do governo.
O documento de 2022 também insistia na necessidade de uma “revolução na educação”, defendia maior autonomia das universidades, ampliação das bolsas, estímulo à inovação empresarial, uso do poder de compra do Estado e remoção de obstáculos para a aplicação do Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação. A preocupação era evitar que o país continuasse dependente de commodities e de produtos estrangeiros de maior conteúdo tecnológico. Naquele momento, a ABC lembrava que o Brasil tinha cerca de 900 pesquisadores por milhão de habitantes, enquanto economias desenvolvidas chegavam a aproximadamente 4 mil.
Quatro anos depois, o título já revela uma mudança de ambição. “O futuro não pode esperar: ciência, educação, inovação e soberania para um projeto nacional de desenvolvimento” substitui a formulação mais genérica de 2022. A palavra “soberania” passa a estruturar parte importante da agenda.
O novo documento não abandona as reivindicações anteriores. Ao contrário, começa justamente avaliando quanto delas avançou e quanto permaneceu sem solução. A própria ABC reconhece a recuperação de instrumentos importantes durante o período recente. O FNDCT, por exemplo, passou de cerca de R$ 5 bilhões em 2022 para R$ 10 bilhões em 2023 e aproximadamente R$ 15 bilhões em 2025. A Academia também registra a reativação do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia em 2023, a consolidação do Marco Legal, investimentos em grandes estruturas como Sirius e o supercomputador Santos Dumont e o crescimento dos projetos apoiados pela Embrapii.
Entre 2023 e 2025, segundo o documento, a Embrapii investiu R$ 2,42 bilhões em 1.344 projetos envolvendo 1.118 empresas. Só em 2025 foram contratados 811 projetos, com inteligência artificial presente em 32% deles. A ABC considera esses números relevantes, mas insuficientes para alterar o quadro estrutural.
A meta mais emblemática de 2022, afinal, não foi cumprida. O Brasil não chegou aos 2% do PIB em pesquisa e desenvolvimento pedidos pela Academia para o quadriênio 2023-2026. O próprio documento de 2026 registra que a meta jamais foi atingida e que o pico histórico ocorreu em 2015, com 1,34% do PIB.
É nesse ponto que o discurso muda de tom. Em 2022, a ABC ainda fazia predominantemente uma defesa da reconstrução do sistema. Em 2026, passa a fazer também uma crítica à incapacidade de implementar aquilo que já foi diagnosticado. “O Brasil não carece de diagnóstico”, afirma o novo documento. Carece de execução, continuidade e governança.
A Academia chega a classificar o financiamento instável como o “maior fracasso estrutural” da política brasileira de ciência. Além da insuficiência dos recursos, persistem baixa intensidade de P&D empresarial, fraca interação entre universidades e empresas, dificuldades para transformar conhecimento em patentes, produtos e competitividade, desigualdades regionais e descontinuidade das políticas públicas.
Nova agenda
A diferença mais marcante entre 2022 e 2026 está na ampliação da pauta. O documento anterior tratava prioritariamente do sistema de CT&I, educação, inovação e desenvolvimento sustentável. O novo dedica capítulos específicos a educação, emergência climática, transição energética, biomas, agropecuária, minerais críticos e estratégicos, saúde e justiça social.
Na educação, a ABC abandona parte da formulação genérica de 2022 e apresenta metas e instrumentos mais concretos. Defende universalização das creches, alfabetização adequada, reformulação do ensino médio, maior presença da formação técnica e valorização dos professores. Na pós-graduação, propõe alterar a avaliação da Capes para considerar impacto socioeconômico, interdisciplinaridade e colaboração com o setor produtivo. Também defende doutorados industriais, mestrados profissionais orientados à inovação e reajustes periódicos das bolsas.
A Academia chega a propor que, até 2040, pelo menos 5% dos artigos científicos brasileiros tenham coautoria industrial. Também sugere vouchers de inovação para que pequenas e médias empresas contratem laboratórios universitários e mudanças legais que facilitem a prestação de serviços de P&D pelas universidades e sua participação em empresas derivadas da pesquisa acadêmica.
Outra mudança importante é o peso dado às mudanças climáticas e à transição energética. A ABC considera que a crise climática deixou de ser um problema futuro e passou a afetar infraestrutura, cidades, saúde, agricultura e segurança alimentar. Na energia, chama atenção para custos de armazenamento, redes, hidrogênio de baixa emissão e dependência tecnológica. Defende orçamentos plurianuais para CNPq, Finep, Embrapii, universidades e centros de pesquisa e afirma que o Brasil não deve apenas importar tecnologias existentes, mas produzir soluções próprias.
A saúde também passa a ser tratada explicitamente como questão de soberania. A ABC aponta que o Brasil importa entre 90% e 95% dos insumos farmacêuticos ativos usados em vacinas e medicamentos, classifica essa dependência como risco de segurança nacional e defende o fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Ao mesmo tempo, considera preocupante uma redução de 22% no orçamento destinado a P&D em saúde em 2026.
No campo digital, aparecem temas que praticamente não tinham a mesma centralidade em 2022. A ABC defende acesso universal à internet, alfabetização digital, monitoramento científico da desinformação, uso de big data e inteligência artificial para identificar campanhas coordenadas e regulamentação da IA com transparência algorítmica e responsabilização das plataformas. Propõe ainda avaliar a criação de centros regionais de pesquisa que compartilhem infraestrutura de inteligência artificial.
Há, porém, uma lacuna importante. Apesar de falar em soberania tecnológica, dados e inteligência artificial, o documento não constrói uma política específica para semicondutores, capacidade nacional de processamento, aceleradores, data centers ou infraestrutura computacional soberana comparável à estratégia que apresenta para minerais críticos. A palavra “semicondutores” sequer aparece no documento.
Essa ausência chama atenção porque a infraestrutura física da inteligência artificial passou a ser uma das áreas centrais da disputa tecnológica mundial. A ABC menciona o supercomputador Santos Dumont como um avanço histórico da infraestrutura científica brasileira, mas não formula uma estratégia equivalente para a próxima geração de capacidade computacional exigida pela IA.
Minerais
É nos minerais críticos que a mudança entre 2022 e 2026 aparece com maior intensidade.
No documento anterior, a mineração surgia integrada à agenda de sustentabilidade e biodiversidade, com defesa da exploração racional e da agregação de valor.
Agora, ganha um capítulo próprio e passa a ser apresentada como uma questão de soberania econômica, tecnológica e geopolítica. A ABC afirma que o Brasil vive um “fosso crescente” entre seu patrimônio geológico e a capacidade de transformar essa riqueza em produtos de alto valor. Entre os gargalos estão baixo investimento em PD&I, falta de tecnologias próprias, atraso regulatório e uma cultura de exportação de produtos pouco processados.
O caso das terras raras é utilizado como exemplo. Segundo a Academia, o Brasil detém cerca de 23% das reservas globais, mas produziu apenas 20 toneladas em 2024, menos de 1% da produção mundial. A China, por sua vez, concentra aproximadamente 85% da capacidade global de processamento. Na prática, o país possui o minério, mas não domina as etapas tecnológicas que capturam a maior parte do valor econômico.
A ABC propõe acelerar a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, criar Zonas de Processamento e Transformação Mineral e instituir um Fundo Nacional de PD&I para Minerais Estratégicos, não contingenciável e abastecido por uma parcela da Compensação Financeira pela Exploração Mineral. Os recursos financiariam pesquisas em universidades, no CETEM e em instituições como a Embrapii.
O princípio é explícito: a corrida pelos minerais não pode ser tratada simplesmente como expansão da atividade extrativa. O país precisa dominar processamento, refino e tecnologia e construir cadeias produtivas dentro do território nacional.
A ABC registra ainda a iniciativa BNDES-Finep que disponibilizou R$ 5 bilhões para projetos de transformação de minerais estratégicos e recebeu propostas no valor total de R$ 85,2 bilhões. A diferença entre demanda e recursos disponíveis ajuda a demonstrar a dimensão do desafio financeiro para construir uma cadeia industrial nessa área.
Mesmo diagnóstico
Se o documento da ABC apresenta o diagnóstico político, a avaliação dos INCTs realizada pelo CGEE e pelo CNPq fornece uma espécie de teste prático dessa tese.
O estudo analisou 104 Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia, utilizando formulários enviados pelos coordenadores, relatórios técnicos e administrativos e uma base de aproximadamente 14 mil currículos da Plataforma Lattes. O objetivo não foi produzir um ranking, mas entender o funcionamento das redes científicas, suas capacidades, seus impactos e seus principais obstáculos.
A conclusão do CGEE é extraordinariamente semelhante à da ABC. Os INCTs são considerados estruturas maduras, capazes de produzir ciência de fronteira, formar recursos humanos, operar laboratórios e plataformas, desenvolver tecnologia e apoiar políticas públicas. Mas sua sustentabilidade é ameaçada exatamente por alguns dos problemas que a Academia apresenta aos presidenciáveis: falta de previsibilidade financeira, fragilidade da governança, dificuldade de manutenção da infraestrutura e baixa articulação entre produção científica e processos decisórios do Estado.
Há uma formulação particularmente reveladora. O estudo considera que os INCTs já funcionam, na prática, como uma “infraestrutura científica de Estado”, mas continuam submetidos em grande medida à lógica de projetos temporários.
A tabela final de recomendações do CGEE transforma essa constatação em uma decisão política: o INCT “opera como infraestrutura, mas é tratado como projeto”. Por isso, recomenda modificar editais, contratos e avaliações para assegurar continuidade às redes maduras.
O financiamento aparece novamente como principal problema. Coordenadores ouvidos pelo estudo afirmam que ciclos descontínuos de fomento comprometem não apenas pesquisas específicas, mas redes formadas durante mais de uma década, equipamentos caros, laboratórios e equipes científicas.
O CGEE vai além da reivindicação genérica por mais recursos. Identifica também um problema de desenho: o dinheiro pode ser excessivamente pulverizado. Valores distribuídos entre dezenas de instituições e centenas de pesquisadores acabam insuficientes para sustentar estruturas de grande escala. A recomendação é escalonar o financiamento conforme maturidade, complexidade e impacto esperado e priorizar investimentos estruturantes.
A avaliação recomenda financiamento plurianual previsível, articulando FNDCT, CNPq, Finep, Capes, fundações estaduais e ministérios setoriais.
Ciência ociosa
O achado mais desconfortável talvez esteja na relação entre essas redes e o próprio governo.
O CGEE conclui que o Estado brasileiro usa de maneira insuficiente a capacidade científica instalada nos INCTs. Embora existam exemplos de contribuição direta para políticas de saúde, agricultura, meio ambiente, engenharia e regulação, essas relações muitas vezes dependem de iniciativas pessoais, contatos individuais ou demandas ocasionais. Não há mecanismos permanentes suficientes para incorporar sistematicamente essas redes à formulação e à avaliação de políticas públicas.
O estudo chama essa situação de descompasso entre a capacidade científica instalada e sua efetiva mobilização pelo Estado.
Por isso, uma das recomendações é estabelecer canais permanentes entre INCTs e ministérios, transformando essas redes em fontes regulares de inteligência científica para a administração pública.
Há também um problema relacionado à infraestrutura existente. O CGEE identifica risco de obsolescência e subutilização de instalações científicas caras, particularmente nas áreas de Ciências Exatas, Biológicas, Saúde e Meio Ambiente. Recomenda que laboratórios e equipamentos sejam tratados como ativos estratégicos nacionais, com políticas específicas de manutenção, compartilhamento e financiamento.
A constatação adiciona uma dimensão importante ao debate promovido pela ABC. Enquanto se discute a construção de novos supercomputadores, laboratórios e grandes estruturas de pesquisa, parte do patrimônio já construído pelo Estado corre risco pela ausência de custeio estável.
A mesma convergência aparece na formação de recursos humanos. A ABC volta a pedir bolsas, valorização das carreiras e condições de retenção de pesquisadores. O CGEE mostra que os INCTs efetivamente formam mestres, doutores e pós-doutores, mas o país enfrenta dificuldades para absorvê-los tanto no sistema científico quanto no setor produtivo, ameaçando perder talentos que o próprio Estado financiou para formar.
Também na inovação os estudos se complementam. A ABC vê baixa intensidade de P&D empresarial como um problema nacional. O CGEE mostra, entretanto, que existem redes com alta capacidade de interação com empresas e reguladores. Nos INCTs de Engenharias, Energias e Tecnologias da Informação aparecem protótipos, propriedade intelectual, plataformas digitais e relações com setores produtivos.
O problema é transformar exemplos bem-sucedidos em um sistema articulado. Em algumas áreas, o estudo identifica verdadeiras “ilhas de excelência”. Nos INCTs de Ciências Agrárias, por exemplo, a parcela de pesquisadores sem qualquer conexão de coautoria dentro de suas próprias redes passou de 38% para 50% entre os períodos analisados, apesar do crescimento da produção científica.
A comparação entre os documentos de 2022 e 2026 e a avaliação do CGEE produz, portanto, uma conclusão mais ampla. Em 2022, a principal mensagem da ABC era reconstruir e financiar adequadamente a ciência brasileira. Em 2026, a Academia reconhece que houve recuperação em áreas importantes, particularmente no FNDCT e em alguns instrumentos de inovação, mas sustenta que os problemas estruturais permaneceram.
O CGEE ajuda a explicar por quê. O Brasil já acumulou laboratórios, redes científicas, plataformas, bases de dados, pesquisadores e conhecimento com capacidade de apoiar diretamente o Estado e a economia. O problema não é apenas criar novos programas ou ampliar despesas. É garantir continuidade, concentrar recursos onde há escala, preservar infraestrutura, integrar instituições e criar mecanismos para que o conhecimento produzido seja efetivamente utilizado.
Por isso, os dois documentos acabam falando essencialmente a mesma língua. A ABC diz aos candidatos de 2026 que o país precisa transformar ciência em política de Estado. O CGEE mostra que parte dessa estrutura de Estado já existe, mas ainda é administrada como uma sucessão de projetos sujeitos a editais, interrupções e arranjos circunstanciais.
A frase da Academia que resume o documento eleitoral também sintetiza o resultado da avaliação dos INCTs: “O desafio do Brasil não é mais diagnóstico, é execução.”
A novidade, depois da leitura conjunta dos dois estudos, é perceber que essa deficiência pode estar custando mais do que oportunidades futuras. Ela pode estar levando o país a desperdiçar capacidades científicas, tecnológicas e humanas que já foram financiadas e construídas com dinheiro público.







