
Uma nova autorização concedida pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) à MGGK Data Center – publicada hoje (13) no Diário Oficial da União – acrescenta uma peça importante a um projeto de grande porte que vem sendo desenvolvido em Jundiaí, no interior de São Paulo. Estudos sobre a expansão dos data centers no sistema elétrico mostram que o empreendimento chegou a aparecer no planejamento do Ministério de Minas e Energia com referência de 288 megawatts (MW), uma escala compatível com grandes complexos de computação em nuvem e inteligência artificial.
Isso não significa, entretanto, que esteja confirmada a construção de um data center de 288 MW, nem que toda essa potência venha efetivamente a ser utilizada. Também não há, até agora, documento público identificando o futuro cliente ou afirmando que o empreendimento será dedicado à inteligência artificial. O que existe é uma sequência de decisões e investimentos que mostra a preparação de uma infraestrutura de grande porte em Jundiaí. A informação mais recente veio com o Despacho nº 3.917, de 7 de outubro de 2026, pelo qual a Aneel autorizou a MGGK Data Center Ltda. a acessar a Rede Básica do Sistema Interligado Nacional em São Paulo.
Na prática, a Rede Básica funciona como a grande malha de alta tensão que transporta enormes volumes de eletricidade pelo país. Grandes data centers procuram conexão direta a essa rede quando a quantidade de energia necessária torna insuficiente ou menos adequada uma ligação convencional à rede de distribuição local. O novo despacho está vinculado ao processo 48500.026177/2026-79, mas o ato publicado pela Aneel não revela a potência solicitada, o local exato da conexão nem o cronograma previsto para utilização da energia. É justamente aí que os documentos anteriores ganham importância.
288 MW
O principal indício sobre a dimensão que o projeto chegou a alcançar aparece no estudo “Cenários de expansão de data centers no Sistema Elétrico Brasileiro”, publicado em março de 2026 pelo Grupo de Estudos do Setor Elétrico da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Gesel/UFRJ. O levantamento apresenta duas referências para Jundiaí. A primeira é o DCT Synergy Campus Jundiaí I, com 121,3 MW. A outra aparece como “DCT Synergy Campus Jundiaí II (DCT Synergy revisão)”, com 166,7 MW.
Mas há uma diferença importante na interpretação desses números. O Gesel não informa simplesmente que uma segunda fase de 166,7 MW será construída e deverá ser somada à primeira. O estudo explica que chegou aos 166,7 MW calculando a diferença entre os 288 MW identificados no painel do Ministério de Minas e Energia e os 121,3 MW atribuídos ao Campus Jundiaí I.
Portanto, a informação segura é que o projeto chegou a aparecer no planejamento setorial com referência de 288 MW. O estudo do Gesel desdobrou esse número entre os 121,3 MW do Campus I e outros 166,7 MW associados ao Campus II ou a uma revisão do empreendimento.
Há sinais de que essa revisão avançou além de uma intenção preliminar. O Gesel classifica tanto o Campus I quanto o Campus II/revisão como “processo concluído”. Para o primeiro, informa que houve parecer favorável para acesso à rede elétrica, condicionado à realização de obras adicionais, e que o contrato para utilização da rede de transmissão, chamado CUST, foi celebrado. Para a revisão, o estudo também registra parecer de acesso favorável condicionado e CUST celebrado.
Isso torna os 288 MW uma referência relevante para a investigação, mas não autoriza afirmar que a MGGK terá necessariamente essa potência disponível ou que o complexo será construído exatamente nessa dimensão. Projetos desse porte passam por revisões de carga, cronogramas e condições de conexão antes de sua implantação. O que os documentos demonstram é que o empreendimento de Jundiaí chegou a ser considerado nessa escala pelo planejamento do setor elétrico.
Rede própria
A preparação da infraestrutura necessária começou anos antes. Em setembro de 2023, o Ministério de Minas e Energia reconheceu oficialmente a solução escolhida para conectar o DCT Synergy Campus Jundiaí à Rede Básica. A Portaria nº 2.599 da Secretaria Nacional de Transição Energética e Planejamento do MME afirma que a alternativa atendia aos critérios de custo e era compatível com o planejamento de expansão do sistema elétrico.
Traduzindo a linguagem técnica, o projeto foi concebido para ter praticamente uma entrada própria na grande rodovia elétrica nacional. A solução aprovada prevê conexão com a Subestação Bom Jardim, em Jundiaí, além da construção de uma subestação dentro do próprio empreendimento. A ligação entre as duas instalações teria cerca de 200 metros e operaria em 440 mil volts, tensão utilizada para transportar grandes quantidades de energia.
Também seria necessário ampliar a Subestação Bom Jardim para receber o novo consumidor. O detalhe técnico importa pelo que revela sobre o tamanho do projeto: desde o início, o empreendimento não foi pensado como um pequeno centro de processamento atendido simplesmente pela rede elétrica comum da região.
Em março de 2025, a Aneel deu outro passo. Pelo Despacho nº 859, autorizou formalmente a DCT Synergy Campus Jundiaí I – SPE Ltda. a acessar a Rede Básica por meio de uma linha de 440 kV, com aproximadamente 200 metros, ligando a subestação do próprio consumidor à Subestação Bom Jardim. O processo dessa autorização é o 48500.004442/2025-87. Posteriormente, a titularidade dessa autorização passou para a MGGK Data Center Ltda.
Agora, a MGGK aparece novamente na Aneel, mas em outro processo, o 48500.026177/2026-79, e recebe uma nova autorização de acesso à Rede Básica em São Paulo.
A MGGK é pouco conhecida no mercado de data centers, mas documentos financeiros e estudos do setor elétrico oferecem pistas importantes sobre a estrutura empresarial relacionada ao projeto. O próprio Gesel identifica tanto o Campus Jundiaí I quanto o Campus Jundiaí II/revisão como empreendimentos de um consórcio da DCT Synergy com a Casa dos Ventos.
A MGGK, por sua vez, aparece entre os investimentos do Salus Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia. Documentos enviados à Comissão de Valores Mobiliários mostram que o mesmo fundo mantém uma participação bilionária na Casa dos Ventos.
Essa estrutura recomenda uma ressalva. Os documentos permitem estabelecer uma relação econômica entre MGGK, Salus e Casa dos Ventos e, separadamente, o Gesel associa expressamente o projeto de Jundiaí à DCT Synergy e à Casa dos Ventos. Mas, enquanto não aparecer documentação societária demonstrando controle direto, é mais preciso evitar simplesmente definir a MGGK como uma subsidiária da Casa dos Ventos.
Escala IA
É a referência de 288 MW que acrescenta uma nova dimensão à história. A rápida expansão da inteligência artificial está elevando fortemente a necessidade de eletricidade dos novos data centers. Sistemas de IA utilizam grandes conjuntos de processadores especializados funcionando simultaneamente e exigem também enorme capacidade de refrigeração.
Por isso, disponibilidade de energia tornou-se um dos principais fatores na escolha de locais para instalação desses complexos. Um empreendimento planejado na escala de centenas de megawatts é compatível com grandes campi capazes de receber computação em nuvem, hyperscalers e infraestrutura de inteligência artificial. Isso não significa, porém, que os 288 MW identificados no planejamento de Jundiaí sejam prova de um data center de IA.
Até agora, não foi localizado documento oficial, contrato ou anúncio empresarial que diga que o DCT Synergy/MGGK será dedicado à inteligência artificial. Também não apareceu evidência documental que permita identificar AWS, Microsoft, Google, Meta, Oracle, ByteDance ou qualquer outra grande empresa de tecnologia como futura ocupante do complexo. Resta saber para quem está sendo preparada uma infraestrutura que chegou a ser considerada nessa escala de uso de energia.
Nova etapa
A nova autorização da Aneel pode ser a peça necessária para entender se o empreendimento está avançando para outra configuração. A situação conhecida até agora é a seguinte: o Campus Jundiaí I teve referência de 121,3 MW; posteriormente apareceu uma revisão que o Gesel chama também de Campus Jundiaí II, associada a 166,7 MW, número calculado a partir dos 288 MW encontrados no painel do MME. Para ambos, o estudo registra parecer de acesso condicionado e contrato de uso da transmissão celebrado.
Agora, em outubro de 2026, a Aneel autoriza novamente a MGGK a acessar a Rede Básica em São Paulo, mas sob um novo número de processo. A proximidade entre essas informações é relevante, mas ainda não permite afirmar que o Despacho nº 3.917 corresponda justamente à revisão que levou o planejamento à referência de 288 MW.
Para fechar essa ligação documental será necessário conhecer a íntegra do processo 48500.026177/2026-79 e, principalmente, o Parecer de Acesso elaborado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico. O processo está guardado sem divulgação pública.
Esse documento deverá permitir responder às perguntas que permanecem abertas: qual é a potência solicitada pela MGGK, onde será feita a conexão, quando a carga deverá entrar no sistema e se a nova autorização está efetivamente relacionada ao complexo de Jundiaí. Se o novo parecer mencionar a Subestação Bom Jardim, o Campus Jundiaí, a revisão de 166,7 MW ou a referência total de 288 MW, será possível estabelecer uma ligação direta entre a decisão publicada agora e a revisão do empreendimento.
Até lá, o que pode ser afirmado com segurança é que um grande projeto de data center em Jundiaí continua avançando, que sua infraestrutura elétrica vem sendo preparada há anos e que o empreendimento chegou a aparecer no planejamento do setor com referência de 288 MW.
A escala é suficiente para colocar o projeto no radar da expansão da infraestrutura necessária à inteligência artificial. Mas ainda faltam duas informações fundamentais para saber exatamente o que está sendo construído: qual será a capacidade efetivamente implantada e quem pretende utilizá-la?






