Acesso à internet chega a 84% dos lares brasileiros, mas desigualdade digital ainda é desafio

O acesso à internet nos domicílios brasileiros passou de 52% em 2016 para 84% em 2025, segundo dados apresentados pelo Ministério das Comunicações durante o Futurecom 2026, realizado em São Paulo. Apesar do crescimento registrado na última década, a ampliação da infraestrutura digital e a chegada da conectividade a regiões menos atendidas continuam entre os principais desafios do setor de telecomunicações.

Os números foram apresentados na terça-feira (6) pelo secretário de Telecomunicações do Ministério das Comunicações, Hermano Tercius, durante o painel “Brasil Continental: conectividade Brasil adentro, competitividade e inovação”. O debate abordou a expansão das redes de comunicação, os investimentos em infraestrutura e as políticas públicas voltadas à redução das desigualdades digitais no país.

O avanço da conectividade nos últimos anos está relacionado à expansão das redes de telecomunicações, à atuação dos provedores regionais de internet e às medidas regulatórias adotadas pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e pelo Ministério das Comunicações. Essas iniciativas contribuíram para ampliar a cobertura dos serviços e aumentar a presença da internet em municípios e comunidades anteriormente pouco atendidos.

Apesar dos avanços, os dados indicam que 16% dos domicílios brasileiros ainda não tinham acesso à internet em 2025. A situação evidencia a necessidade de ampliar a infraestrutura em localidades onde fatores geográficos, econômicos e sociais dificultam a oferta de serviços de telecomunicações. Além da disponibilidade de redes, questões como o custo do serviço e o acesso a equipamentos também influenciam a inclusão digital.

Uma das estratégias para ampliar a cobertura envolve a utilização de recursos do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust). Segundo o Ministério das Comunicações, os financiamentos reembolsáveis vinculados ao fundo já somam R$ 3,3 bilhões em crédito concedido, beneficiando 508 provedores de internet.

Os recursos apoiam projetos de expansão da infraestrutura de telecomunicações, incluindo iniciativas que alcançam 679 favelas brasileiras. O financiamento busca viabilizar investimentos em regiões onde a implantação de redes pode apresentar menor retorno financeiro para as operadoras, mas representa uma necessidade para a população.

A ampliação do acesso também está relacionada ao Plano Nacional de Inclusão Digital (PNID), iniciativa que pretende organizar políticas públicas voltadas à conectividade e ao uso das tecnologias digitais. A proposta envolve não apenas a expansão das redes, mas também condições para que a população consiga utilizar os serviços digitais em atividades relacionadas à educação, saúde, trabalho e acesso a serviços públicos.

Outro tema discutido no Futurecom foi a Política Nacional de Conectividade em Rodovias. A ampliação da cobertura de telecomunicações nas estradas brasileiras é considerada necessária para melhorar a comunicação durante deslocamentos, apoiar serviços de emergência e permitir o funcionamento de aplicações digitais utilizadas no transporte e na logística.

A infraestrutura de cabos submarinos também entrou na discussão. Historicamente concentradas em pontos de conexão no Nordeste e no Sudeste, as rotas internacionais de transmissão de dados passam por um processo de expansão para outras regiões do país.

De acordo com Hermano Tercius, a infraestrutura já avança em direção ao Sul, enquanto novas possibilidades de conexão estão previstas para localidades como Belém, no Pará. A diversificação dessas rotas pode reduzir a dependência de pontos específicos de conexão internacional, aumentar a resiliência das redes e criar condições para novos investimentos em infraestrutura digital.

A discussão está diretamente relacionada ao crescimento do mercado de data centers no Brasil. Essas instalações dependem de conexões de alta capacidade, fornecimento contínuo de energia e infraestrutura adequada para armazenar e processar grandes volumes de dados, especialmente diante da expansão dos serviços em nuvem e das aplicações de inteligência artificial.

Nesse contexto, o Ministério das Comunicações também abordou a Política Nacional de Data Centers e o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Centers (Redata), voltado à criação de condições tributárias específicas para investimentos no setor. A expectativa apresentada pelo governo é que a ampliação das rotas de conectividade e os mecanismos de incentivo contribuam para atrair novos empreendimentos.

Entretanto, a expansão da infraestrutura digital envolve desafios que vão além da conectividade. A disponibilidade de energia, os custos de implantação, a capacidade de transmissão de dados e a distribuição regional dos investimentos são fatores que influenciam a localização e a viabilidade desses projetos.

A discussão sobre conectividade ocorre em um momento em que o crescimento da inteligência artificial, da computação em nuvem e dos serviços digitais aumenta a demanda por redes mais robustas e maior capacidade de processamento. Ao mesmo tempo, permanece o desafio de garantir que a expansão tecnológica não fique restrita aos grandes centros urbanos e às regiões economicamente mais desenvolvidas.

O Futurecom 2026, realizado entre os dias 6 e 8 de outubro, em São Paulo, chegou à sua 31ª edição reunindo representantes do setor público, empresas, investidores e especialistas. A programação incluiu debates sobre inteligência artificial, segurança digital, infraestrutura de telecomunicações, computação em nuvem e transformação dos serviços digitais.

Embora os indicadores mostrem crescimento do acesso à internet no Brasil, a próxima etapa da conectividade depende não apenas da expansão da cobertura, mas também da qualidade dos serviços, da redução das desigualdades regionais e da capacidade de transformar os investimentos em infraestrutura em acesso efetivo para a população.

*Foto: Divulgação/Futurecom