Governo já liga data centers a pequenos reatores; Google mostra como participar de projetos

O governo brasileiro já colocou os data centers entre os possíveis mercados para pequenos reatores nucleares e procura respostas para um dos maiores problemas dessa tecnologia: quem vai consumir a energia e como financiar os projetos. Um acordo fechado pelo Google na Finlândia acaba de apresentar uma resposta concreta para as duas questões.

A empresa assinou com a finlandesa Fortum um contrato para comprar energia nuclear por 22 anos e sustentar sua expansão de data centers e inteligência artificial. A garantia de um comprador por tanto tempo dará à empresa de energia previsibilidade de receita para continuar investindo na usina nuclear de Loviisa.

A discussão brasileira começou antes da aprovação do Redata e aparece em documentos oficiais da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), do Ministério de Minas e Energia (MME) e do Comitê de Desenvolvimento do Programa Nuclear Brasileiro. Em estudo publicado em outubro de 2025, a EPE já apontava os data centers como um possível mercado para pequenos reatores. O relatório do Fórum EPE e Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares (ABDAN ) sobre pequenos reatores relaciona o crescimento da computação em nuvem e da inteligência artificial à necessidade de fornecimento contínuo de grandes quantidades de energia.

O estudo não tratou apenas da tecnologia. Ao discutir o que falta para pequenos reatores avançarem no Brasil, apontou a necessidade de criar demanda para a energia produzida e encontrar formas de apoio financeiro. Foi exatamente esse encontro entre demanda e dinheiro que ganhou agora um exemplo na Finlândia.

O contrato anunciado pela Fortum começa em 2028. Entre 2030 e 2049, o Google poderá comprar o equivalente a 50% da capacidade da usina de Loviisa, responsável atualmente por cerca de 10% da eletricidade produzida no país. A Fortum pretende investir cerca de € 1 bilhão para manter a usina funcionando até 2050. Aproximadamente € 700 milhões desse programa ainda dependem de decisões futuras. Segundo a companhia, o compromisso assumido pelo Google oferece justamente a segurança de receita necessária para continuar esses investimentos.

Google e Fortum também assinaram um acordo para estudar novos projetos de energia, inclusive novos reatores nucleares. Nesse caso, o desafio será maior. Loviisa já existe e o contrato ajudará principalmente a prolongar sua vida e ampliar sua produção. Construir um reator novo envolve custos e riscos muito maiores.

Ainda assim, o princípio econômico é simples: um consumidor que se compromete a comprar energia por décadas diminui a incerteza de quem precisa investir bilhões para produzi-la.

Governo

É justamente essa discussão que começa a aparecer nos documentos brasileiros. Em novembro de 2025, quando o Comitê de Desenvolvimento do Programa Nuclear Brasileiro discutiu a criação de um grupo para estudar pequenos reatores, a inteligência artificial já apareceu entre as razões para fazê-lo.

A ata da reunião do Comitê registra que a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear citou a crescente demanda mundial de energia provocada pela inteligência artificial. Na mesma reunião, Adriano Macedo, diretor do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, relacionou o estudo dos pequenos reatores às políticas industriais e energéticas em andamento no país, destacando especificamente os incentivos para data centers e a Nova Indústria Brasil.

Ou seja, a ligação entre inteligência artificial, data centers e pequenos reatores já estava colocada dentro do governo antes mesmo da aprovação do Redata. A discussão levou à criação do GT-19, grupo encarregado de avaliar o que o Brasil precisa para receber pequenos reatores. Quando o MME instalou o grupo, em abril, colocou entre os assuntos a serem estudados justamente financiamento e modelos de negócio.

Em julho, o Ministério já dizia que o trabalho serviria para ajudar na construção de uma Política Nacional para Pequenos Reatores Modulares. Na mesma ocasião, a Comissão Nacional de Energia Nuclear apontou a falta de mecanismos específicos de financiamento como uma das barreiras para a tecnologia e informou que mantém pesquisas sobre pequenos reatores inclusive em parceria com a Petrobras. O registro está no balanço da terceira reunião do grupo.

Não há, até agora, documento público mostrando que o grupo tenha estudado especificamente contratos de longo prazo com data centers, como o que Google e Fortum acabam de fechar. Também não há decisão do governo de usar o Redata para financiar projetos nucleares. Mas as duas discussões estão cada vez mais próximas.

Redata

O Redata oferece incentivos para instalação e expansão de data centers no Brasil e exige que os empreendimentos beneficiados atendam às regras de utilização de energia renovável ou de baixa emissão. O governo ainda terá de regulamentar o que será aceito como energia de baixa emissão. Uma das questões será justamente saber se a energia nuclear poderá atender a essa exigência.

Mas o acordo do Google mostra que a discussão pode ir além.

Se o Brasil pretende atrair grandes centros de inteligência artificial, terá de produzir e transportar a enorme quantidade de energia que eles vão consumir. Esses empreendimentos também podem se transformar em compradores capazes de garantir antecipadamente parte dessa demanda. É aí que a questão alcança a Petrobras.

Como mostrou o o blog no último dia 3 na reportagem: “Petrobras entra na agenda nuclear e reforça disputa por energia dos data centers”, a estatal começou a estudar pequenos reatores, inicialmente para reduzir as emissões de suas próprias atividades. Não existe decisão de investimento nem indicação de que a Petrobras pretenda produzir energia nuclear para data centers. Mas a CNEN confirma que já realiza pesquisas sobre pequenos reatores em parceria com a estatal.

O negócio finlandês acrescenta uma possibilidade que até agora aparecia no Brasil principalmente como hipótese: data centers podem não ser apenas grandes consumidores de energia nuclear. Podem também garantir a compra dessa energia por décadas e, com isso, ajudar a tornar os projetos economicamente viáveis.

O governo brasileiro ainda está longe de adotar esse modelo. A política para pequenos reatores está em estudo, o Redata precisa ser regulamentado e não há sequer um pequeno reator comercial funcionando no país.

Mas as peças começaram a se encontrar. A EPE já apontou os data centers como possível mercado para pequenos reatores. O governo relacionou a discussão à demanda provocada pela inteligência artificial e aos incentivos para data centers. O grupo criado pelo MME estuda como financiar a tecnologia. E a Petrobras já entrou nessa agenda.

Agora, o Google apresenta uma experiência concreta para o governo analisar: garantir a compra de energia nuclear por 22 anos para sustentar a expansão da inteligência artificial.

A questão brasileira deixa, portanto, de ser apenas se a energia nuclear poderá entrar no Redata. Passa a ser também se os data centers atraídos pelos incentivos do programa poderão ajudar a criar o mercado necessário para uma nova geração de projetos nucleares no país.