Scala pode elevar em quase 50% consumo de energia do RS

A discussão sobre o impacto dos data centers no consumo de eletricidade já tem um caso concreto no Brasil. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) autorizou a Scala Data Centers a acessar diretamente a Rede Básica do Sistema Interligado Nacional (SIN) para abastecer o “Scala AI City”, megacomplexo de data centers de inteligência artificial projetado para Eldorado do Sul, no Rio Grande do Sul. O empreendimento prevê alcançar demanda de 1,8 GW até 2033. Se essa potência fosse utilizada continuamente ao longo de um ano, corresponderia a 15,8 TWh de eletricidade, volume equivalente a quase metade do consumo anual atual do Rio Grande do Sul.

A comparação é uma equivalência energética, e não uma projeção do consumo efetivo do empreendimento. Um data center não necessariamente opera durante as 8.760 horas do ano utilizando toda a potência disponível. Ainda assim, a conta revela a dimensão da nova carga que o sistema elétrico terá de estar preparado para atender.

O Scala AI City poderá crescer ainda mais. O Ministério de Minas e Energia (MME) trabalha com potencial de expansão para 5 GW em horizonte posterior. Nesse caso, se toda essa potência fosse utilizada continuamente, a equivalência alcançaria 43,8 TWh por ano, volume superior ao consumo anual atual de eletricidade de todo o Rio Grande do Sul.

O próprio governo utiliza outra comparação para demonstrar a escala. Segundo o MME, quando atingir 5 GW, o empreendimento adicionará ao SIN uma demanda equivalente a aproximadamente 20% da carga máxima atualmente registrada em toda a Região Sul. Essa expansão, porém, ainda dependerá de novos estudos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE).

É nesse contexto que ganha importância o Despacho nº 3.506, de 3 de setembro de 2026 – publicado hoje (09) no Diário Oficial da União. A Aneel autorizou a Scala a acessar a Rede Básica por meio do seccionamento da linha de transmissão Guaíba em 525 kV, da futura subestação Scala AI City.

A decisão transforma em infraestrutura elétrica concreta uma discussão que até agora aparecia principalmente nas projeções sobre a expansão dos data centers no Brasil. O novo consumidor não dependerá apenas da rede convencional de distribuição. Será conectado diretamente à infraestrutura de alta tensão que forma a espinha dorsal do sistema elétrico brasileiro.

Histórico

A entrada do projeto no planejamento elétrico começou antes da autorização da Aneel. Em maio de 2025, o MME publicou a Portaria SNTEP/MME nº 2.942 reconhecendo que a alternativa proposta para conectar o empreendimento à Rede Básica atendia ao critério de mínimo custo global e era compatível com o planejamento da expansão do setor elétrico em horizonte mínimo de cinco anos.

O ministério informou então que o Scala AI City implantaria 1,8 GW de demanda até 2033 e poderia chegar posteriormente a 5 GW. A conexão à Rede Básica ainda dependeria da disponibilidade do sistema e dos estudos do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e da Aneel.

A EPE já passou a tratar especificamente do impacto dessas cargas sobre o sistema gaúcho. Em sua programação de estudos aparece o “Estudo Prospectivo para Inserção de Cargas de Data Centers no Estado do RS”. A apresentação da empresa cita expressamente o Scala AI City, seus 1,8 GW até 2033 e o potencial de 5 GW e informa que estão sendo avaliados os reforços necessários à rede de transmissão.

O problema, portanto, não se limita a encontrar eletricidade suficiente para abastecer os servidores. Uma carga dessa dimensão precisa ser incorporada ao planejamento de geração e, principalmente, à capacidade de transportar energia até o ponto onde ela será consumida.

Rede pressionada

Estudos da própria EPE mostram que o problema é mais amplo que o projeto da Scala. A empresa contabiliza projetos de data centers em análise no MME que somam demanda da ordem de 5 GW apenas no Rio Grande do Sul. A EPE ressalva que existem incertezas sobre o cronograma e sobre os volumes que serão efetivamente contratados. Por isso, essas cargas ainda não foram incorporadas integralmente a determinados balanços utilizados nos estudos de transmissão. Mesmo assim, sua possível chegada já influencia as decisões sobre a expansão da rede.

Em estudo sobre o sistema Sul, a EPE calcula que poderá ser necessário ampliar a capacidade de importação de eletricidade da região para algo entre 17 GW e 18 GW a partir de 2033 e 2035, respectivamente, caso não haja aumento correspondente da geração local nos cenários críticos considerados. Entre as razões para ampliar essa capacidade estão a necessidade de enfrentar situações hidrológicas adversas e a perspectiva de conexão das novas cargas eletrointensivas.

A empresa considera a ampliação da capacidade de importação uma medida de maior segurança para o abastecimento da Região Sul e observa que essa infraestrutura também poderá atender às cargas dos data centers caso os projetos se concretizem.

A questão começa, assim, a inverter parte da lógica histórica do planejamento elétrico. Durante décadas, o crescimento da demanda esteve associado principalmente à expansão industrial, urbana e residencial. A inteligência artificial introduz consumidores individuais capazes de acrescentar milhares de megawatts ao sistema.

No caso do Scala AI City, apenas a etapa prevista de 1,8 GW dá uma medida da transformação. É praticamente a mesma potência dos 1,8 GW adicionais que o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico decidiu antecipar para todo o SIN a partir de setembro de 2026 para reforçar a segurança do atendimento à carga. As duas situações não estão diretamente relacionadas, mas a comparação evidencia a escala do empreendimento.

Redata

É também nesse ponto que a autorização concedida à Scala se encontra com a discussão sobre o Redata. O incentivo à instalação de data centers não produz apenas uma corrida por investimentos em infraestrutura digital. Produz simultaneamente uma nova corrida por eletricidade e por capacidade de transmissão.

A EPE reconhece o fenômeno. Ao explicar seus estudos relacionados ao Redata, informou que está acelerando o planejamento da rede diante do crescimento dos projetos de data centers e avaliando reforços, capacidade disponível das subestações e corredores de transmissão. Para o Rio Grande do Sul, a empresa destaca justamente a perspectiva de até 5 GW de demanda.

Isso significa que exigir fontes renováveis ou de baixa emissão para os novos empreendimentos resolve apenas parte do problema. É necessário produzir a energia adicional, assegurar que ela esteja disponível quando os data centers precisarem e construir ou reforçar a infraestrutura capaz de transportá-la.

O caso gaúcho mostra que essa discussão deixou de ser uma hipótese. A futura subestação Scala AI City será conectada a uma linha de 525 kV. O empreendimento já percorreu etapas no MME e no ONS e agora recebeu autorização da Aneel para acessar a Rede Básica. Ao mesmo tempo, a EPE estuda quais reforços serão necessários para acomodar a nova demanda.

A experiência internacional dá dimensão ao que pode ocorrer. Na Malásia, como mostrou o Capital Digital, os data centers já chegaram a consumir 9,3% da eletricidade do país e as projeções indicam que essa participação poderá crescer fortemente nos próximos anos.

No Brasil, a escala potencial de um único empreendimento permite antecipar o tamanho do desafio. Os 1,8 GW previstos para o Scala AI City equivaleriam, em utilização contínua, a cerca de 15,8 TWh por ano. E os 5 GW projetados para uma etapa futura equivaleriam a 43,8 TWh.

A questão que passa a acompanhar a política brasileira para data centers, portanto, não é mais apenas quantos bilhões de reais esses projetos poderão atrair. É quanto de nova eletricidade e de infraestrutura de transmissão o país terá de acrescentar ao sistema para sustentá-los e quem pagará por essa expansão.