
O avanço acelerado da inteligência artificial entrou no centro da primeira visita do papa Leão XIV à França. Nesta sexta-feira (25), em Paris, o pontífice usou encontros no Palácio do Eliseu e na sede da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) para reforçar uma preocupação que vem ocupando espaço crescente em seu pontificado: o risco de a tecnologia avançar mais rapidamente do que a capacidade das sociedades de estabelecer limites éticos, políticos e humanos para seu uso. A viagem à França ocorre entre 25 e 28 de setembro e inclui, além de Paris, passagens por Lourdes e Metz.
No encontro com autoridades francesas, Leão XIV recorreu à expressão “paraíso de máquinas” ao advertir sobre um futuro no qual a eficiência tecnológica passe a ocupar o lugar reservado às decisões e relações humanas. A manifestação se insere em uma sequência de alertas feitos pelo papa sobre a necessidade de revisar a forma como sistemas de inteligência artificial são desenvolvidos e incorporados à sociedade. Desde o início de seu pontificado, ele tem defendido regras internacionais para a tecnologia e maior controle humano sobre aplicações capazes de afetar direitos, segurança e decisões de alto impacto.
O tema ganhou ainda mais espaço horas depois, durante o discurso de Leão XIV na sede da Unesco. Diante de representantes de Estados, organizações internacionais, pesquisadores e integrantes da sociedade civil, o papa colocou a discussão sobre IA dentro de uma pergunta mais ampla: o que significa ser humano em uma sociedade cada vez mais mediada por sistemas tecnológicos? A visita marcou a primeira presença de um papa na sede da organização desde João Paulo II, em 1980.
Leão XIV chamou atenção para um paradoxo criado pelo próprio vocabulário da tecnologia. Enquanto sistemas computacionais recebem o qualificativo de “inteligentes”, afirmou, pessoas podem passar a ser avaliadas principalmente por critérios de produtividade e eficiência. Nesse cenário, quem deixa de produzir ou de atender a determinadas expectativas econômicas corre o risco de ser tratado como descartável. Para o pontífice, a discussão sobre IA, portanto, não pode ficar restrita à capacidade técnica dos modelos ou aos ganhos de produtividade proporcionados pela automação.
Outro ponto abordado foi a diferença entre processamento de informação e compreensão da experiência humana. O papa reconheceu que sistemas de inteligência artificial são capazes de analisar grandes volumes de dados, estabelecer relações e executar tarefas antes reservadas às pessoas, mas argumentou que isso não significa que possam responder às questões relacionadas ao sentido da existência a partir de uma experiência vivida. Em uma das frases centrais do discurso, afirmou que “o sentido é o oxigênio do espírito”.
A preocupação também alcançou crianças e adolescentes. Leão XIV defendeu maior proteção para os mais jovens no ambiente digital e afirmou que novas tecnologias deveriam contribuir para o desenvolvimento, a educação e as relações humanas sem comprometer a liberdade de pensamento e de discernimento. A Unesco colocou justamente inteligência artificial, integridade da informação, educação e criação artística no centro da programação realizada nesta sexta-feira em Paris. Antes da chegada do papa, a organização promoveu um fórum dedicado aos jovens na era digital.
O discurso também relacionou desenvolvimento tecnológico e ética. Segundo Leão XIV, a ciência pode perder sua finalidade quando se distancia de critérios capazes de proteger a dignidade humana. O argumento não representa uma rejeição à inteligência artificial. Um dia antes da viagem, ao receber integrantes da Pontifícia Academia das Ciências, o papa havia reconhecido que IA, digitalização e robótica podem contribuir para avanços na medicina, no diagnóstico de doenças, nos sistemas de energia e alimentos, na pesquisa científica e na criatividade humana. Ao mesmo tempo, citou riscos envolvendo vigilância, manipulação, discriminação, armas autônomas e impactos ambientais da infraestrutura necessária para sustentar os sistemas de IA.
As falas na França dão continuidade à linha apresentada por Leão XIV na encíclica Magnifica Humanitas, publicada em maio. No documento, o papa pediu mecanismos internacionais de governança para a inteligência artificial e alertou para problemas relacionados à desinformação, automação do trabalho, concentração do controle sobre dados, segurança infantil e uso militar da tecnologia. Também defendeu que a velocidade da competição comercial entre empresas não determine sozinha os rumos do desenvolvimento da IA.
A escolha da Unesco para aprofundar o assunto também tem peso institucional. A agência das Nações Unidas mantém desde 2021 uma recomendação internacional sobre ética da inteligência artificial e apresentou a visita papal como uma oportunidade de ampliar a cooperação com a Santa Sé em temas como educação, pensamento crítico e desenvolvimento tecnológico centrado nas pessoas. A programação desta sexta-feira reuniu jovens, pesquisadores, artistas e formuladores de políticas públicas para discutir os efeitos da IA sobre educação, informação e produção cultural.
Ao levar o debate para Paris, Leão XIV tenta deslocar a discussão sobre inteligência artificial da pergunta sobre o que as máquinas são capazes de fazer para outra: quais decisões sociedades estão dispostas a entregar a elas. A mensagem apresentada na França não propõe interromper a inovação tecnológica, mas estabelece como linha de preocupação a possibilidade de eficiência, automação e poder computacional se transformarem em critérios suficientes para definir decisões que atingem diretamente a vida humana. Para o papa, é nesse ponto que o avanço técnico deixa de ser apenas uma questão de tecnologia e passa a exigir escolhas políticas, jurídicas e éticas.







