
O avanço acelerado dos projetos de data centers voltados à inteligência artificial no Brasil abriu uma nova frente de disputa política, ambiental, energética e tecnológica no país. Em debate realizado na terça-feira (05) no SINDPD-RS, dirigentes sindicais, trabalhadores de TI e o deputado estadual Matheus Gomes (PSOL-RS), coordenador da Subcomissão dos Data Centers na Assembleia Legislativa gaúcha, defenderam que o país corre o risco de se transformar em uma “colônia digital” caso permita a instalação dessas estruturas sem contrapartidas de soberania tecnológica, proteção ambiental e desenvolvimento industrial nacional. A subcomissão publicou recentemente um relatório elaborado com a participação de pesquisadores e especialistas sobre os impactos econômicos, ambientais, energéticos e tecnológicos da expansão dos data centers no Rio Grande do Sul e no Brasil.
O encontro discutiu principalmente os projetos de grandes data centers previstos para o Rio Grande do Sul, em especial o empreendimento “Scala AI City”, da Scala Data Centers em Eldorado do Sul, tratado no debate como o maior projeto de data center da América Latina. De acordo com informações da empresa, a cidade de data centers compreende um investimento inicial de cerca de R$ 3 bilhões (US$ 500 milhões) apenas na primeira fase, que deverá posicionar o Brasil como um polo central na revolução global da inteligência artificial (IA) e na transformação do Rio Grande do Sul por meio do potencial econômico da infraestrutura digital.
Segundo Matheus Gomes, o Brasil entrou definitivamente na rota global da infraestrutura de inteligência artificial por reunir condições consideradas estratégicas pelas multinacionais: disponibilidade de água, energia renovável, território, conectividade internacional e oferta de minerais estratégicos.
O parlamentar afirmou que o problema não está apenas na chegada dos empreendimentos, mas na ausência de um modelo nacional capaz de definir regras, contrapartidas e limites para a atuação dessas empresas. Segundo ele, o país ainda não possui um arcabouço regulatório robusto para lidar com a expansão dos data centers voltados à IA, o que estaria permitindo que grandes grupos privados avancem sobre infraestrutura crítica sem exigências proporcionais de retorno tecnológico e social.
Durante a exposição, Matheus Gomes afirmou que hoje entre 60% e 80% dos dados produzidos no Brasil por CPFs e CNPJs estão armazenados nos Estados Unidos, o que, segundo ele, compromete a soberania digital brasileira. O deputado criticou inclusive o modelo da chamada “nuvem de governo”, argumentando que a estrutura atualmente em discussão no país continua baseada em tecnologias controladas por grandes empresas norte-americanas.
Segundo o parlamentar, a expansão da inteligência artificial e dos data centers precisa ser analisada também sob o ponto de vista geopolítico e estratégico. Ele afirmou que dados sensíveis do país, inclusive relacionados à defesa nacional, segurança pública e serviços essenciais, permanecem sob jurisdição estrangeira, o que poderia limitar decisões soberanas do Estado brasileiro em cenários de conflito econômico ou político.
O debate também trouxe forte preocupação com o impacto ambiental dos data centers. Um dos pontos mais explorados foi o consumo de água e energia dessas estruturas. Segundo os dados apresentados no encontro, caso o projeto da Scala alcance sua capacidade máxima prevista, o consumo energético poderá se aproximar do equivalente ao consumo de todo o estado do Rio de Janeiro. Já na primeira etapa do empreendimento, o gasto energético estimado seria superior em cerca de 40% ao consumo residencial médio do Rio Grande do Sul.
No caso da água, o relatório citado no encontro alerta que, mesmo utilizando sistema fechado de resfriamento, que é considerado menos agressivo ambientalmente, o empreendimento poderá consumir volume equivalente a cerca de 30% da água utilizada diariamente no município de Eldorado do Sul. Já no modelo de sistema aberto, os volumes seriam muito superiores, chegando ao equivalente a dezenas de piscinas olímpicas diariamente.
O deputado defendeu que o Rio Grande do Sul somente aceite novos data centers mediante obrigatoriedade de sistemas fechados de refrigeração, justamente para evitar o agravamento da pressão hídrica em regiões urbanas e agrícolas. O município de Eldorado do Sul, citado como área prioritária do empreendimento, abriga assentamentos rurais e uma das maiores produções de arroz orgânico do país.
A discussão ocorreu em meio a críticas ao modelo de licenciamento ambiental que estaria sendo desenhado para os projetos. Integrantes do sindicato afirmaram que o governo gaúcho já sinalizou interesse em acelerar os processos de licenciamento para viabilizar rapidamente a instalação das empresas. O tema gerou preocupação entre os participantes, principalmente após a informação de que os empreendimentos poderiam tramitar sob modelos simplificados de autorização ambiental.
Durante o debate, também foram levantadas críticas à falta de transparência nas negociações entre o governo do Rio Grande do Sul e as empresas interessadas nos projetos. Matheus Gomes relatou que a Assembleia Legislativa teve dificuldades para acessar documentos e protocolos firmados com as companhias, inclusive via Lei de Acesso à Informação.
Outro eixo central da discussão foi a crítica à possibilidade de o Brasil assumir apenas a parcela de baixo valor agregado da cadeia tecnológica global. Segundo Matheus Gomes, existe o risco de o país se transformar apenas em fornecedor de energia, água, território e minerais estratégicos para alimentar sistemas controlados externamente por big techs norte-americanas.
O parlamentar defendeu que a discussão sobre data centers precisa estar vinculada ao debate sobre terras raras, semicondutores e soberania industrial. Ele citou a necessidade de criação de estruturas nacionais semelhantes ao papel histórico exercido pela Petrobras no setor petrolífero, afirmando que o Brasil deveria aproveitar o atual momento geopolítico para estruturar empresas e políticas públicas voltadas ao domínio nacional das cadeias estratégicas da inteligência artificial.
O encontro também trouxe críticas ao modelo tributário proposto no REDATA, iniciativa federal voltada à atração de investimentos para data centers. Segundo os debatedores, a proposta atual privilegia benefícios fiscais sem exigir contrapartidas proporcionais de desenvolvimento tecnológico interno. O percentual previsto para pesquisa e desenvolvimento foi considerado insuficiente pelos participantes.
Segundo Matheus Gomes, o percentual previsto para investimentos em pesquisa e desenvolvimento dentro do REDATA representa valor muito inferior ao necessário para reposicionar o Brasil na cadeia global de tecnologia. O deputado argumentou que, sem exigências mais robustas, o país poderá repetir no setor digital a lógica histórica de exportação de commodities sem domínio tecnológico sobre as etapas mais sofisticadas da produção.
Representantes sindicais e trabalhadores de TI demonstraram preocupação adicional com o avanço da inteligência artificial sobre o mercado de trabalho. Integrantes do sindicato afirmaram que empresas já começam a substituir profissionais de tecnologia por sistemas automatizados baseados em IA generativa. Também foi debatida a perspectiva de uma “economia pós-trabalho”, com crescente automação de atividades administrativas, atendimento, programação e análise de sistemas.
Durante o debate, também surgiram comparações com outros processos históricos de dependência tecnológica brasileira. Integrantes do SINDPD-RS citaram o desmonte da indústria nacional de informática após a abertura econômica dos anos 1990 e criticaram o fato de o Brasil não ter consolidado empresas nacionais robustas no setor de tecnologia da informação. Foram lembradas empresas brasileiras históricas da área de informática e tecnologia que desapareceram após a abertura do mercado nacional para grandes grupos estrangeiros.
A discussão ainda abordou o papel geopolítico das big techs. Participantes lembraram que grandes empresas de tecnologia norte-americanas hoje concentram investimentos trilionários em infraestrutura de IA e passaram a exercer influência direta sobre governos e políticas nacionais. Também foi citado o alinhamento político recente dessas empresas ao presidente norte-americano Donald Trump e as pressões internacionais relacionadas ao controle de dados e inteligência artificial.
Durante a reunião, representantes sindicais também fizeram paralelos com outros modelos de exploração econômica considerados predatórios no país, incluindo parques eólicos e grandes empreendimentos industriais instalados sem contrapartidas proporcionais para as populações locais. Participantes defenderam a criação de mecanismos permanentes de participação social, audiências públicas e fiscalização popular sobre os projetos de data centers.
Ao final do encontro, Matheus Gomes afirmou que pretende ampliar a discussão através de uma frente parlamentar e de audiências públicas envolvendo universidades, sociedade civil, órgãos ambientais e representantes do setor de tecnologia. O relatório produzido pela subcomissão da Assembleia Legislativa será utilizado como base para novas discussões sobre soberania digital, impactos ambientais, energia, água, participação social e exigências de contrapartidas tecnológicas para futuras instalações de data centers no estado.







