AI Rollup: estratégia que usa inteligência artificial para aumentar lucros atrai investidores

*Por Lucas Reis

Com cenário macro de juros altos e inflação persistente, o capital migra das empresas de crescimento para as de valor. Nesse cenário, a tese de AI Rollup oferece o que os investidores desejam: uso de tecnologia emergente para ampliação de margem. 

Em setembro, o Federal Reserve subiu a taxa básica americana pela primeira vez desde 2023. No Brasil, mesmo depois de cinco cortes seguidos, a Selic está em 13,75%, um dos patamares mais altos dos últimos 20 anos. Com o custo do capital nesse nível, o investidor prioriza empresas que conseguem realizar lucros agora. 

A exceção são as hyperscalers, as gigantes que vendem capacidade de computação em nuvem. Elas entregaram crescimento em pleno aperto monetário. No segundo trimestre, a receita do Google Cloud cresceu 82%; a do Azure, da Microsoft, 43%; a da AWS, da Amazon, 37%.  

Entretanto, esse desempenho exuberante desperta questionamentos sobre a sua sustentabilidade. Neste mês, o FMI alertou que investimentos e lucros menos duráveis na IA podem levar a uma correção nos preços dos ativos. Satya Nadella, presidente da Microsoft, declarou em Davos que para que não seja uma bolha, os benefícios da IA precisam se espalhar de forma muito mais ampla. Ou seja, se apenas as desenvolvedoras de IA ganharem dinheiro com IA, o ciclo implode. É preciso que outras empresas gerem valor com a tecnologia. 

Aqui entra a tese de AI Rollup, que consiste em comprar empresas de serviço tradicionais e embarcar IA nos seus processos para aumentar a magem. A General Catalyst, uma das gestoras que lideram o movimento, reservou US$ 1,5 bilhão para a estratégia e procura negócios em que a IA consiga automatizar de 30% a 70% do trabalho.  

O que a estratégia busca é usar tecnologia para melhorar margem. A meta é levar o EBITDA da faixa de 10%, típica de empresas de serviço, para 40%, patamar comum em software. 

O alvo são setores grandes de serviços como publicidade, consultoria empresarial, contabilidade e direito. Eles possuem muitas tarefas estruturadas, repetitivas e que demandam baixo nível de cognição (em geral, delegadas aos profissionais juniores). Nos Estados Unidos, os serviços movimentam mais de US$ 6 trilhões por ano. Ou seja, há um potencial de destravar US$ 1,8 trilhão de margem usando IA. 

Diferentes setores buscam isso. Na publicidade, por exemplo, a WPP reorganizou a operação sobre sua plataforma de IA e mira £ 500 milhões de economia por ano. 

No Brasil, a adoção da IA nas Organizações ainda é superficial. Na maior parte das empresas, o uso da tecnologia é individual e experimental. Fluxos executados por agentes de IA ainda não são comuns no mercado, o que mostra que a oportunidade dos AI Rollups está aberta no país.

*Lucas Reis, pesquisador associado do Instituto de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital.