Serpro prepara rede nacional de data centers e negocia complexo de 12 MW no Biotic

O Serpro prepara uma expansão de sua infraestrutura de data centers que poderá transformar Brasília no principal núcleo de uma rede nacional de processamento da estatal. O primeiro e maior empreendimento está sendo negociado com o Parque Tecnológico de Brasília, o Biotic, onde a empresa pretende instalar um centro de dados de aproximadamente 12 MW, preparado para inteligência artificial, GPUs e refrigeração líquida. A estratégia vai além da capital: prevê novas regiões de processamento em São Paulo e Fortaleza, recuperação de infraestrutura no Rio de Janeiro e, posteriormente, presença no Sul do país.

O projeto de Brasília já deixou de ser apenas uma intenção anunciada pela direção da empresa. O Plano de Contratações Anual de 2026 do Serpro inclui formalmente a demanda DOD 2024-00234, denominada “Projetar e implementar o novo Data Center de BSA (IN 07) – projeto e obra”. O valor previsto foi tarjado na versão pública do documento.

O mesmo plano contém outra iniciativa relacionada à ampliação da capacidade na capital: DOD 2024-00224, destinada a “viabilizar um segundo site em BSA (Brasília) por meio de um colocation privado”. São, portanto, duas frentes diferentes previstas no planejamento da estatal: a construção de um novo centro de dados e a contratação de capacidade em uma infraestrutura privada. Os valores das duas iniciativas foram ocultados pelo Serpro.

O novo data center deverá ser instalado dentro do Biotic, na região da Granja do Torto, em Brasília. Até agora, porém, nem Serpro nem Biotic divulgaram publicamente qual lote ou parcela do parque será destinado ao empreendimento. O Lote 4, que aparece nas agendas oficiais das reuniões entre as duas empresas, é o endereço do Edifício de Governança do Biotic, onde ocorreram os encontros, e não há documento público que permita afirmar que será o terreno do data center.

A definição é relevante porque o parque já concentra infraestrutura de processamento e energia e abriga instalações ligadas a instituições financeiras públicas. A escolha da área precisará considerar principalmente a disponibilidade de energia, um dos fatores que passaram a determinar a localização dos grandes projetos de data centers. O local já conta com a presença do Data center do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal, há uma projeção para um data center do BRB (Banco do Brasília). Portanto, falta uma manifestação mkais clara de onde será instalado o novo centro de dados do Serpro.

12 megawatts

Em entrevista ao Capital Digital, o presidente do Serpro, Wilton Mota, afirmou que a proposta do Biotic está sendo validada e que a intenção é concluir a negociação ainda em 2026. Segundo ele, o novo centro terá capacidade projetada de aproximadamente 12 MW, muito superior à capacidade atualmente disponível para a estatal em Brasília. Cerca de 3 MW deverão utilizar refrigeração líquida, tecnologia necessária para equipamentos de alta densidade energética, especialmente servidores equipados com GPUs utilizados em inteligência artificial.

A infraestrutura deverá ser modular. Isso permitirá que novos módulos sejam acrescentados à medida que a demanda aumentar, evitando que toda a capacidade prevista tenha de ser construída e equipada de uma só vez.

O próprio mercado internacional de data centers já começou a registrar o empreendimento como uma instalação planejada de 12 MW dentro do Biotic. Essas bases privadas, entretanto, não identificam o endereço exato dentro do parque, o que reforça que essa informação ainda não está publicamente definida. O dado oficial disponível até agora é a decisão empresarial de implantar o novo centro em Brasília e a negociação com o Biotic.

Negociação antiga

As conversas são anteriores à atual fase do projeto. Em agosto de 2025, o então presidente do Serpro, Alexandre Amorim, recebeu o presidente do Biotic, Gustavo Dias Henrique, na sede da estatal, em Brasília. A pauta oficial foi registrada apenas como “assuntos institucionais”.

A relação entre as duas empresas, na realidade, é ainda mais antiga. O processo SEI 04005-00001054/2018-77 registra a cooperação institucional iniciada entre Biotic e Serpro. O processo original não trata especificamente da construção do novo data center, mas a documentação posterior do próprio Biotic mostra que a relação evoluiu.

No Relatório da Administração de 2025, o Biotic registra entre suas ações a parceria com o Serpro para instalação física e evolução de infraestrutura e informa que, “no mesmo eixo”, estavam sendo realizadas tratativas técnicas para implantação de um data center no parque.

O documento é particularmente importante porque revela que já haviam sido reunidas informações preliminares e diretrizes de negócio destinadas às avaliações técnica e institucional. O Biotic, entretanto, decidiu preservar as informações consideradas comerciais e estratégicas. Ou seja, os estudos existem, mas ainda não estão disponíveis integralmente ao público.

Em 2026, as negociações avançaram. Em 5 de agosto, Wilton Mota e o diretor de Infraestrutura do Serpro, Wallyson Lemos dos Reis Oliveira, reuniram-se com Gustavo Dias no Parque Tecnológico. A audiência ocorreu no Lote 4, Bloco B, onde funciona o Edifício de Governança do Biotic.

Em 17 de setembro, Wilton voltou ao parque para nova reunião com Gustavo Dias. Novamente, a pauta divulgada foi apenas “assuntos institucionais”. A sequência de encontros coincide com o período em que, segundo Wilton, a proposta para implantação do novo centro entrou em fase de validação.

Conta bilionária

O tamanho financeiro do empreendimento ainda não está definitivamente estabelecido. Durante a entrevista ao Capital Digital, Wilton inicialmente mencionou aproximadamente R$ 3 bilhões envolvendo investimento e operação. Depois, ao conferir os números, estimou a construção em aproximadamente R$ 1 bilhão e diferenciou esse investimento inicial dos custos de funcionamento, financiamento e atualização tecnológica ao longo dos anos. Em outro trecho mencionou aproximadamente R$ 2,5 bilhões considerando um horizonte de 15 anos.

A diferença parece decorrer da utilização de conceitos distintos, principalmente investimento inicial e custo total de propriedade, mas ainda não há documento público que permita fechar essa conta.

A estimativa de R$ 1 bilhão para implantação não surgiu apenas na entrevista atual. Em fevereiro de 2026, Wilton já havia informado publicamente que o projeto de Brasília estava concluído e estimava investimento inicial próximo desse valor. Na ocasião, calculava que cada novo data center poderia consumir entre R$ 3 bilhões e R$ 4 bilhões ao longo de dez anos, considerando implantação, manutenção e atualizações.

O Plano de Contratações do Serpro confirma que a construção entrou no planejamento empresarial, mas justamente o campo que poderia esclarecer a estimativa financeira foi ocultado na versão pública. Segundo Wilton, uma vez contratado, o empreendimento poderá ser construído em aproximadamente 12 meses.

Energia

Mais do que terreno, o fator determinante para a expansão é energia. Wilton afirma que a questão não se resume à quantidade de eletricidade produzida pelo país. Grandes centros de dados precisam receber blocos elevados e contínuos de energia e, em muitos casos, a dificuldade está na transmissão, nas subestações e na conexão da carga ao sistema elétrico.

Esse fator ajudou a colocar o Biotic no centro da estratégia. O presidente do Serpro observa, entretanto, que a capacidade elétrica existente na região também passou a ser disputada pela expansão urbana nas proximidades do parque. Isso poderá exigir reforços adicionais caso a concentração de data centers cresça. A subestação de energia elétrica inicialmente construída para o parque tecnológico, acabou sustentando a criação do “Setor Noroeste”, que abriga várias Superquadras com prédios de alto luxo.

“O mais importante é a energia elétrica”, afirmou ao explicar os critérios que orientam a escolha das novas regiões.

A necessidade aumenta ainda mais com inteligência artificial. Servidores equipados com GPUs concentram muito mais capacidade computacional por rack e elevam simultaneamente a demanda elétrica e a necessidade de refrigeração. Daí a previsão de reservar aproximadamente 3 MW do novo empreendimento para estruturas com refrigeração líquida. “Não dá para pensar em centro de dados hoje sem pensar em IA”, afirmou Wilton.

Rede nacional

O Biotic será apenas a primeira peça de um planejamento que, segundo o presidente, olha para os próximos 15 anos. Brasília deverá funcionar como principal região de processamento. São Paulo formará outro polo. O Nordeste deverá ganhar uma região própria, provavelmente em Fortaleza, e o Serpro também estuda capacidade no Sul e a recuperação de infraestrutura existente no Rio de Janeiro.

A estratégia está diretamente associada à expansão da Nuvem de Governo. Quanto maior o volume de sistemas públicos transferidos para ambientes de nuvem, maior a necessidade de capacidade física, redundância e distribuição geográfica.

Hoje, a política de soberania adotada pelo Serpro não significa necessariamente utilizar somente tecnologia brasileira. O modelo considera diferentes graus de controle sobre dados, operação e tecnologia, avaliando inclusive quem administra o ambiente, quem controla as chaves, a jurisdição à qual a tecnologia está submetida e se os serviços continuariam funcionando diante de eventual restrição externa. A infraestrutura física passa, assim, a ser uma das condições da soberania pretendida pelo governo.

Três zonas

Wilton sustenta que uma nuvem de governo de grande escala precisa operar com pelo menos três zonas independentes.

Com duas zonas, a indisponibilidade de uma delas concentra toda a carga na restante. Uma terceira permite distribuir melhor capacidade e contingência. Isso ajuda a explicar outra contratação incluída no PCA de 2026. Além do novo centro próprio, o Serpro programou a criação de um segundo site em Brasília por meio de colocation privado.

Há ainda a possibilidade de utilização da infraestrutura da Telebras. Em fevereiro, Wilton já apontava o data center da estatal de telecomunicações como alternativa de curto prazo enquanto os novos centros do Serpro não estivessem disponíveis. O desenho sugere uma estratégia em camadas: aproveitar capacidade existente, contratar capacidade complementar e simultaneamente construir infraestrutura própria de maior escala.

Pólos de processamento

No Nordeste, as negociações envolvem o Banco do Nordeste. Wilton revelou ao Capital Digital que o Serpro discute com o banco a implantação conjunta de infraestrutura de data center em Fortaleza. A intenção é começar o projeto no primeiro semestre de 2027.

A localização faz sentido dentro do desenho nacional porque cria distância geográfica em relação a Brasília e São Paulo e aproxima a infraestrutura governamental de uma região estratégica para conectividade internacional, embora os detalhes técnicos e societários do empreendimento ainda não tenham sido divulgados.

Segundo o planejamento apresentado por Wilton, Brasília viria primeiro, Fortaleza começaria a ser estruturada no primeiro semestre de 2027 e São Paulo avançaria no segundo semestre daquele ano.

São Paulo já aparece formalmente no Plano de Contratações de 2026. O PCA contém a demanda DOD 2025-00320, identificada como “PROJETO – NOVO DC SPO (2026)”. O mesmo documento prevê a instalação de um sexto módulo no data center modular paulista e expansão de colocation do Banco do Brasil. Isso mostra que a estratégia paulista também possui duas dimensões: ampliar imediatamente estruturas existentes e preparar um novo centro para o crescimento futuro.

No Rio de Janeiro, a alternativa é diferente. Em vez de começar necessariamente por uma nova construção, o Serpro avalia recuperar infraestrutura já existente no Horto. Wilton afirma que a instalação possui uma sala-cofre que poderia ser modernizada e reincorporada à capacidade de processamento da estatal.

No Sul, a estratégia está menos madura. O presidente confirma a intenção de criar uma região de processamento, mas ainda não revelou cidade, terreno, parceiro ou cronograma.

O desenho apresentado pela direção do Serpro possui, portanto, diferentes graus de maturidade. Brasília tem projeto previsto no PCA e negociação com o Biotic. São Paulo já possui demanda específica para um novo data center. Fortaleza está sendo negociada com o Banco do Nordeste. Rio poderá recuperar uma instalação existente. E a região Sul permanece em estudo.

Nova escala

A expansão ocorre num momento em que o Serpro tenta deixar de tratar seus data centers apenas como suporte dos sistemas tradicionais da administração pública. Reforma tributária, migração dos órgãos federais para nuvem, inteligência artificial e processamento intensivo estão alterando a escala necessária.

O PCA de 2026 deixa essa mudança particularmente clara. No mesmo planejamento aparecem o novo data center de Brasília, o segundo site por colocation, o novo centro de São Paulo, ampliação do data center modular paulista, expansão de colocation e até um projeto nacional de autossuficiência energética. A estratégia descrita por Wilton, portanto, já começa a aparecer nos documentos internos de planejamento da estatal.

Ainda faltam, porém, algumas das informações mais importantes sobre o principal empreendimento: qual parcela do Biotic receberá o centro de 12 MW, qual será o modelo jurídico de utilização do terreno, quem construirá a infraestrutura, como serão divididos os investimentos entre Serpro e Biotic, quais fornecedores participarão e quanto efetivamente custará o projeto.

Essas respostas deverão estar nos estudos e nas “diretrizes de negócio” cuja existência o próprio Biotic já reconheceu, mas que ainda não foram divulgados.

O novo data center de Brasília será, assim, mais do que uma expansão imobiliária do Serpro. Ele será o primeiro teste financeiro e operacional de uma estratégia que pretende transformar a estatal em operadora de uma infraestrutura nacional de processamento distribuída pelo país.

E essa estratégia já tem uma dimensão concreta: 12 MW em Brasília, novos centros previstos no planejamento empresarial e bilhões de reais em investimentos ao longo dos próximos anos.