MeetKai e WideLabs expõem os limites da IA soberana brasileira

A disputa do Serpro para construir uma plataforma brasileira de inteligência artificial colocou frente a frente duas empresas com perfis distintos, mas que chegam ao mesmo problema quando o assunto é soberania tecnológica. A MeetKai Brasil, subsidiária da norte-americana MeetKai Inc, venceu o Chamamento Público 1248/2025 com 97,5% da pontuação máxima. A WideLabs ficou em segundo lugar, com 86,86%. Das empresas que apresentaram propostas, apenas as duas chegaram à etapa final da avaliação técnica.

A escolha da MeetKai não encerra, porém, a discussão sobre quem está se posicionando para fornecer inteligência artificial ao Estado brasileiro. A WideLabs, apesar de derrotada no processo do Serpro, já construiu presença relevante dentro do governo, especialmente na Dataprev, e abriu outras portas na administração pública. As duas empresas também expõem uma contradição da estratégia brasileira de IA soberana. Há desenvolvimento de tecnologia no país e esforços para manter modelos, dados e conhecimento sob controle nacional, mas componentes fundamentais da infraestrutura continuam dependentes de fornecedores estrangeiros.

No caso da MeetKai, a soberania contratada pelo Serpro está principalmente no software. Uma escritura pública lavrada em dezembro de 2025 compromete a empresa a transferir de forma irrevogável e sem royalties os pesos dos modelos, sua arquitetura, o código-fonte e a documentação técnica. O Serpro poderá modificar, retreinar, auditar, exportar e explorar comercialmente a tecnologia, sem limitação territorial ou prazo determinado. Mesmo que a empresa deixe de existir, o Estado conservará esses ativos.

É uma diferença importante em relação à simples contratação de um serviço de inteligência artificial de uma big tech. O governo não estará apenas alugando acesso a um modelo. A intenção é possuir elementos fundamentais da tecnologia e capacidade jurídica para continuar desenvolvendo-a.

O problema aparece quando se desce uma camada na infraestrutura.

Documentos apresentados pela própria MeetKai mostram que a plataforma utiliza capacidade computacional fornecida pela SkyVault, empresa sediada em Tóquio que trabalha com data centers conteinerizados equipados com GPUs NVIDIA H100 e H200. São justamente processadores desse tipo que estão no centro da corrida mundial por inteligência artificial. O Brasil não fabrica chips equivalentes.

Isso significa que o Serpro pode receber o código, os pesos e a arquitetura da inteligência artificial e ainda assim depender de tecnologia estrangeira para treinar modelos de grande porte e mantê-los competitivos. O próprio esforço da estatal para ampliar sua infraestrutura mostra a dimensão do desafio. O Serpro vem aumentando sua capacidade de GPUs, construindo novos data centers e destinando parte relevante dos investimentos associados ao Plano Brasileiro de Inteligência Artificial à infraestrutura de nuvem, mas treinamento de grandes modelos exige capacidade computacional muito superior à necessária apenas para executar modelos já treinados.

A dependência não se resume à NVIDIA. Entre os documentos usados pela MeetKai para demonstrar capacidade técnica aparecem atestados da SkyVault, ThinkAR, Miami University e Huawei. O próprio edital admitiu o processador Huawei Ascend-910B ou equivalente como alternativa às GPUs NVIDIA. A plataforma que pretende reduzir a dependência tecnológica brasileira, portanto, continua inserida em uma cadeia internacional de hardware que passa por empresas americanas, chinesas e japonesas.

A WideLabs apresenta uma versão brasileira diferente desse mesmo dilema.

A empresa nasceu no país e desenvolveu uma estratégia centrada em modelos voltados ao português e às características brasileiras. Sua origem remonta à Wide Mind Tecnologia da Informação, criada em 2020, enquanto a atual Wide Labs Tecnologia da Informação foi constituída em abril de 2023. O capital social da operação chegou a R$ 6,5 milhões e o controle foi posteriormente organizado por meio da Wide Holding Participações.

A expansão foi rápida. Segundo as informações reunidas na investigação, a receita da WideLabs cresceu dez vezes durante 2025 e a companhia atingiu o ponto de equilíbrio financeiro no quarto trimestre. A empresa abandonou progressivamente o posicionamento de simples fornecedora de APIs para se apresentar como uma fábrica de IA capaz de atuar desde o planejamento até a infraestrutura e a orquestração dos modelos. Em 2026 iniciou uma rodada Série A de US$ 50 milhões destinada a financiar sua expansão pela América Latina.

Mas a derrota para a MeetKai no Serpro não significa que a WideLabs tenha ficado fora da estratégia de inteligência artificial do governo. Um dos projetos mais importantes é a modernização da “Helô”, assistente virtual do INSS operada pela Dataprev. A nova versão utiliza IA generativa da WideLabs e trabalha sobre um serviço que registra milhões de atendimentos diariamente. O projeto pretende elevar a capacidade para mais de 10 milhões de interações por dia.

A aproximação com a Dataprev não aparece apenas no projeto. A agenda oficial do superintendente de Relacionamento Comercial da estatal, Saulo Milhomem dos Santos, registra reuniões de “Alinhamento Widelabs” em Brasília, inclusive em julho de 2026. A movimentação ocorre justamente enquanto a direção da Dataprev defende publicamente que o governo precisa desenvolver capacidade própria de inteligência artificial e reduzir sua dependência exclusiva das grandes empresas americanas de tecnologia.

A empresa também conseguiu se habilitar, em abril, no Chamamento Público 01/2026 da Secretaria de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde. A habilitação não representa contrato automático, mas permite à WideLabs participar de prospecções relacionadas ao SUS Digital e ao programa Agora Tem Especialistas. Em Minas Gerais, a companhia também pediu esclarecimentos técnicos sobre o chamamento da Prodemge para uma Plataforma de Relacionamento Digital com o Cidadão.

O resultado é que as duas finalistas da disputa da IA soberana do Serpro permanecem, por caminhos diferentes, dentro do mercado governamental brasileiro. A MeetKai conquistou a parceria diretamente associada à plataforma soberana da estatal. A WideLabs perdeu o certame, mas já fornece tecnologia para uma aplicação de grande escala da Dataprev e procura espaço em outras áreas do governo.

A WideLabs também desenvolveu o Amazônia IA, ecossistema que reúne modelos especializados, e participou da criação do Nemotron Personas Brazil, uma base de seis milhões de personas sintéticas brasileiras destinada ao treinamento de sistemas capazes de reproduzir características regionais e culturais do país. A iniciativa foi desenvolvida em parceria com a NVIDIA.

É justamente nesse ponto que a experiência da WideLabs se aproxima do dilema encontrado no projeto da MeetKai. A tecnologia pode ser concebida no Brasil, treinada para o português, alimentada com referências culturais brasileiras e controlada por uma empresa nacional, mas sua infraestrutura continua conectada ao ecossistema tecnológico internacional.

A própria WideLabs mantém parcerias com Oracle, NVIDIA, AWS e Ascenty. O relatório sobre a empresa registra ainda uma questão técnica que permanece sem resposta conclusiva: qual é o grau efetivo de independência do Amazônia IA em relação a bases estrangeiras de código aberto e quanto do sistema é efetivamente proprietário.

Isso não elimina o componente nacional dos projetos. Ao contrário, possuir modelos desenvolvidos no país, equipes brasileiras capazes de modificá-los, dados adaptados à realidade nacional e, no caso da MeetKai, acesso ao código, arquitetura e pesos representa um avanço em relação à dependência integral de serviços fechados de fornecedores estrangeiros.

Mas estabelece uma fronteira para o significado da palavra “soberania”.

O Brasil pode controlar o modelo e não controlar o processador no qual ele é treinado. Pode possuir o código e continuar dependendo de GPUs importadas. Pode manter os dados em território nacional e executar aplicações em data centers brasileiros, mas utilizar tecnologias fundamentais produzidas por empresas sujeitas às legislações e às políticas comerciais de outros países.

Essa limitação aparece inclusive fora da disputa MeetKai-WideLabs. O governo mantém simultaneamente outras iniciativas apresentadas sob o conceito de soberania em IA. O SoberanIA, lançado em maio, reúne MCTI, Ministério das Comunicações, Serpro e Telebras, mas também AWS e Oracle. Paralelamente, MCTI e Serpro assinaram protocolo de cooperação com a chinesa iFlytek.

A multiplicidade de projetos revela que o governo está tentando construir capacidade nacional por diferentes caminhos, e não por meio de uma única tecnologia. Também deixa evidente que nenhuma dessas iniciativas, pelo menos até agora, consegue fechar toda a cadeia tecnológica dentro do país.

A disputa vencida pela MeetKai e a ascensão da WideLabs dentro da Dataprev ajudam a mostrar onde está sendo construída essa nova política. A primeira oferece ao Serpro a propriedade e o controle de componentes centrais do software, mas depende de uma infraestrutura internacional de processamento. A segunda é uma empresa brasileira, desenvolve modelos voltados ao país e já conseguiu colocar sua tecnologia em serviços públicos de grande escala, mas igualmente trabalha integrada a NVIDIA, Oracle, AWS e outros fornecedores globais.

A IA soberana que começa a surgir no governo brasileiro é, portanto, soberana em algumas camadas e dependente em outras. O país avança na tentativa de dominar modelos, código, dados, treinamento e conhecimento técnico, algo que não existiria se simplesmente contratasse soluções prontas das big techs. Mas permanece sem autonomia sobre a peça que hoje determina boa parte do poder mundial na inteligência artificial: a capacidade computacional e, sobretudo, os semicondutores avançados.

É nesse limite que o discurso da soberania terá de ser medido. Não apenas por quem desenvolveu o modelo ou pelo local onde os dados estão armazenados, mas por quanto tempo o Brasil conseguiria treinar, atualizar e operar suas próprias inteligências artificiais se o acesso às tecnologias estrangeiras que sustentam essa infraestrutura fosse interrompido.