Futuro digital do Brasil passa por energia, dados e minerais

Um Brasil capaz de multiplicar por cinco sua capacidade de data centers já no início da próxima década, aproveitar sua matriz elétrica renovável para atrair infraestrutura computacional, transformar reservas de minerais críticos em uma cadeia industrial de maior valor agregado e usar a digitalização como instrumento de aumento da produtividade. Esse é um dos recortes do Visão Brasil 2050, estudo da Roland Berger produzido em comemoração aos 50 anos de atuação da consultoria no país.

O levantamento não foi elaborado sob encomenda do governo ou de uma empresa. Foi desenvolvido conjuntamente pelo escritório brasileiro da Roland Berger e pelo Roland Berger Institute, braço global de pesquisa econômica da consultoria, utilizando como base estudos proprietários sobre megatendências e dados de organismos nacionais e internacionais.

A tese geral é ambiciosa. A Roland Berger calcula que, se continuar na trajetória das últimas décadas, o Brasil deverá crescer cerca de 1,5% ao ano e chegar a 2050 com uma economia de aproximadamente US$ 3,3 trilhões. Num cenário de reformas, aumento de produtividade e aproveitamento das mudanças estruturais da economia mundial, o crescimento poderia chegar a 4% ao ano, levando o PIB para cerca de US$ 6 trilhões e colocando o país entre as cinco maiores economias do planeta.

O digital não aparece no relatório como um capítulo isolado. Ele atravessa diferentes motores desse cenário, principalmente energia, infraestrutura, minerais críticos, transformação do Estado, inovação, agricultura e produtividade.

Data centers

É na infraestrutura computacional que o estudo apresenta uma de suas projeções mais expressivas. A Roland Berger calcula que o Brasil possua atualmente cerca de 0,8 GW de capacidade instalada de data centers, volume que já colocaria o país entre os dez maiores mercados mundiais. Projetos em construção ou em estágio avançado de desenvolvimento poderiam elevar essa capacidade para aproximadamente 4 GW no início da década de 2030. Seria uma expansão de cinco vezes em poucos anos.

Na avaliação da consultoria, esse movimento poderia colocar o Brasil entre os cinco maiores mercados globais de data centers, mesmo admitindo que os demais países continuem aumentando suas capacidades a uma taxa média de 16% ao ano.

Mas a transformação exigiria grande volume de capital. A Roland Berger estima investimentos entre US$ 10 bilhões e US$ 15 bilhões por ano durante seis a oito anos. Em seis anos, portanto, o investimento acumulado estaria entre US$ 60 bilhões e US$ 90 bilhões. Em oito anos, poderia atingir de US$ 80 bilhões a US$ 120 bilhões. O próprio estudo compara a dimensão financeira desse esforço ao investimento necessário para a universalização do saneamento básico no país.

O relatório relaciona diretamente a oportunidade dos data centers à vantagem energética brasileira. Segundo a Roland Berger, aproximadamente 90% da eletricidade produzida no Brasil já provém de fontes renováveis, enquanto o país possui condições competitivas para continuar ampliando geração solar e eólica. É essa combinação entre energia abundante e relativamente limpa e crescimento mundial da demanda computacional que abre espaço, na avaliação da consultoria, para uma expansão acelerada da infraestrutura digital instalada no território brasileiro.

O estudo, entretanto, não desenvolve uma política específica para inteligência artificial, tampouco discute em profundidade soberania computacional, propriedade dos data centers ou nacionalidade dos operadores. Seu foco está na oportunidade econômica criada pela instalação dessa capacidade no Brasil.

Minerais críticos

A infraestrutura digital aparece novamente quando o relatório examina minerais críticos. A Roland Berger associa diretamente o crescimento da demanda desses insumos à urbanização, à eletrificação dos transportes e à rápida expansão da infraestrutura digital. Nesse ponto, o Brasil teria uma vantagem geológica que ainda não se converteu em produção proporcional.

Segundo o estudo, o país concentra aproximadamente 95% das reservas mundiais de nióbio, 25% das reservas de grafite e 23% das reservas de terras raras, além de possuir posições relevantes em níquel, lítio e manganês. A combinação faria do Brasil, na estimativa apresentada pela Roland Berger, o segundo maior detentor de reservas de minerais críticos do mundo, atrás somente da China.

O problema é que a participação brasileira na produção mundial permanece muito inferior ao tamanho dessas reservas. A Roland Berger estima que as exportações minerais brasileiras poderiam sair dos atuais cerca de US$ 55 bilhões para aproximadamente US$ 350 bilhões anuais até 2050. Mas a consultoria sustenta que o ganho econômico poderá ser maior se o país deixar de se limitar à extração mineral e avançar para processamento intermediário e fabricação de produtos ligados às tecnologias avançadas.

Nesse cenário, os minerais tornam-se parte do futuro digital não apenas porque são demandados pela infraestrutura tecnológica, mas porque oferecem ao Brasil a possibilidade de ocupar etapas industriais superiores de cadeias globais que abastecem equipamentos eletrônicos, energia, mobilidade elétrica e sistemas digitais.

Estado digital

Outro eixo do relatório é a transformação digital do setor público. A Roland Berger apresenta o gov.br como demonstração de que o Brasil consegue executar transformações institucionais em grande escala quando cria condições para isso. Segundo os números utilizados pelo estudo, a plataforma atendia em 2025 quase 170 milhões de usuários e concentrava mais de 4 mil serviços públicos digitais, abrangendo documentos digitais, declarações fiscais, registros de saúde e assinaturas eletrônicas.

O exemplo aparece dentro de uma discussão mais ampla sobre eficiência governamental. A consultoria coloca o Brasil próximo da 120ª posição mundial em efetividade de governo e sustenta que dificuldades institucionais, demora administrativa e baixa capacidade de execução representam parte importante do chamado custo Brasil. O gov.br serve, nesse contexto, como contraponto: a digitalização demonstraria que problemas históricos de eficiência não seriam necessariamente permanentes.

O relatório também cita a redução do prazo médio de análise de patentes, de oito para três anos entre 2016 e 2024, como outro exemplo de melhoria institucional decorrente de mudanças de processos e gestão. A visão apresentada pela Roland Berger, portanto, trata governo digital principalmente como instrumento de produtividade do Estado e redução de custos econômicos, mais do que como política autônoma de tecnologia.

Produtividade

O núcleo de toda a projeção para 2050 está na produtividade. O envelhecimento da população deverá reduzir progressivamente a contribuição do crescimento da força de trabalho para a expansão econômica. Dessa forma, para sustentar crescimento do PIB próximo a 4%, o país precisaria produzir significativamente mais com praticamente o mesmo volume de trabalho.

A Roland Berger identifica cinco alavancas para alcançar esse resultado: aprofundamento de capital, melhoria da qualidade regulatória, maior efetividade governamental, redução da informalidade e educação.

A consultoria estima que uma melhora da qualidade regulatória poderia elevar a produtividade em cerca de 15% até 2050, enquanto avanços na efetividade governamental poderiam produzir ganho adicional de aproximadamente 12%. Na educação, a melhoria do capital humano poderia adicionar cerca de 0,4 ponto percentual ao crescimento anual da produtividade.

Embora o relatório não atribua isoladamente à inteligência artificial ou à digitalização uma parcela desses ganhos, a tecnologia aparece como instrumento recorrente para elevar eficiência, ampliar capital por trabalhador e reorganizar setores da economia.

Agro digital

A agricultura é usada como demonstração de que essa transformação já ocorreu em um setor brasileiro. A Roland Berger rejeita a leitura de que a competitividade agrícola nacional tenha resultado apenas de abundância de terras e mão de obra. Segundo o estudo, inovação científica, mecanização e incorporação tecnológica desempenharam papel central.

A consultoria cita a disseminação de máquinas guiadas por GPS, imagens de satélite e plataformas de gestão agrícola entre os fatores que transformaram a produção brasileira. O relatório atribui ainda à Embrapa contribuição equivalente a aproximadamente 40% do crescimento da produtividade agrícola desde 1970 e relaciona a evolução do setor à existência de produtores dispostos a incorporar rapidamente novas tecnologias.

Esse modelo é relevante para a visão geral da consultoria: a digitalização, combinada à pesquisa e à incorporação tecnológica, é apresentada como caminho para transformar vantagens naturais em produtividade e competitividade internacional. No cenário aspiracional, as exportações agrícolas brasileiras poderiam passar de aproximadamente US$ 144 bilhões para cerca de US$ 500 bilhões até 2050, caso o país consiga absorver uma parcela relevante do aumento mundial da demanda por alimentos.

Regulação

Para que essa transformação ocorra, a Roland Berger dedica atenção especial ao ambiente regulatório. O estudo coloca o Brasil na 117ª posição entre 193 países em qualidade regulatória e argumenta que regras inadequadas reduzem concorrência, limitam investimentos e retardam a incorporação tecnológica.

Ao defender reformas, a consultoria aponta casos brasileiros em que mudanças regulatórias produziram transformações rápidas. Um deles é o saneamento. Outro é o Pix.

Segundo o relatório, a organização regulatória que permitiu a participação de fintechs, a liquidação instantânea e a operação permanente do sistema financeiro ajudou a disseminar rapidamente a plataforma entre a população brasileira. Para a Roland Berger, o caso demonstra como regulações desenhadas para ampliar concorrência e inovação podem acelerar a adoção tecnológica.

A mensagem extrapola o setor financeiro. Na lógica do estudo, a disputa brasileira por investimentos em data centers, infraestrutura digital, energia e indústrias baseadas em tecnologia dependerá também da previsibilidade regulatória e da capacidade de implementação do Estado.

Capital humano

A expansão digital projetada também esbarra em um desafio estrutural que o relatório trata de forma ampla: educação.

A Roland Berger reconhece os avanços brasileiros no acesso ao sistema educacional, mas considera que o problema central passou a ser a qualidade. O desempenho brasileiro no PISA permaneceu praticamente estagnado durante longo período e, segundo a consultoria, seria necessária uma melhora superior a 100 pontos para aproximar o país do nível compatível com o cenário de renda projetado para 2050.

A questão é diretamente relacionada à tecnologia. O documento destaca que trabalhadores com maior nível educacional apresentam maior capacidade de adotar novas tecnologias, tomar decisões mais complexas, criar conhecimento e gerar inovação. Isso significa que o crescimento da infraestrutura computacional, isoladamente, não resolveria o problema brasileiro de produtividade. O cenário da Roland Berger depende simultaneamente de capital, tecnologia, instituições e formação profissional.

Brasil 2050

A visão construída pela Roland Berger para seus 50 anos de atuação no país é menos um prognóstico inevitável do que um cenário condicionado. A consultoria parte de uma constatação: desde aproximadamente 1980, o crescimento da renda por habitante no Brasil ficou abaixo não apenas das economias emergentes de melhor desempenho, mas também da média mundial. A manutenção dessa trajetória levaria o país a crescer apenas entre 1% e 2% ao ano nas próximas décadas.

A alternativa desenhada pelo estudo depende de forte elevação da produtividade e dos investimentos. O Brasil teria de aumentar sua taxa agregada de investimentos para aproximadamente 23% do PIB, mobilizando especialmente capital privado.

Dentro dessa estratégia, o futuro digital brasileiro aparece apoiado em quatro ativos principais: energia renovável para sustentar grandes cargas computacionais, possibilidade de rápida expansão de data centers, reservas de minerais críticos necessárias às novas cadeias tecnológicas e uma base de digitalização pública e produtiva já demonstrada por experiências como gov.br, Pix e agricultura de precisão.

Não há, contudo, no estudo um plano detalhado de inteligência artificial, uma estratégia de soberania tecnológica ou uma proposta de política industrial digital completa. A Roland Berger trabalha em uma camada anterior: identifica as condições econômicas e estruturais que, em sua avaliação, permitiriam ao Brasil disputar investimentos e ganhar produtividade na economia digital das próximas décadas.

O número mais concreto dessa aposta está nos data centers. Passar de 0,8 GW para 4 GW de capacidade no começo dos anos 2030, mobilizando até US$ 15 bilhões anuais, transformaria a infraestrutura computacional em uma das maiores frentes de investimento do país.

Para a consultoria, a presença dos equipamentos não basta. O cenário em que o Brasil chega a 2050 como a quinta maior economia depende de usar essa infraestrutura, seus recursos energéticos, minerais e tecnológicos para elevar produtividade e avançar na cadeia de valor. Caso contrário, o país poderá continuar possuindo muitos dos recursos que a economia digital mundial demanda sem capturar integralmente o valor econômico gerado por eles.