Estratégia global de Trump reduz poder de barganha do Brasil sobre minerais críticos

Um comunicado divulgado pela Casa Branca em 7 de agosto expôs o tamanho da ofensiva montada pelo governo Donald Trump para reduzir a vulnerabilidade dos Estados Unidos em minerais críticos e ajuda a dimensionar o desafio que o Brasil enfrenta ao tentar transformar suas reservas, especialmente de terras raras, em instrumento para atrair indústria, tecnologia e processamento para o país.

Ao anunciar mais de US$ 2 bilhões em novos investimentos em mineração e projetos relacionados, a Casa Branca informou que o governo Trump já assinou ou aprovou, desde sua posse, 160 acordos no setor mineral, totalizando aproximadamente US$ 40 bilhões. O pacote anunciado na sexta-feira incluiu ainda mais de US$ 180 milhões destinados à formação de trabalhadores para a indústria mineral americana.

O comunicado foi divulgado após Trump reunir representantes da indústria de mineração na Casa Branca, em encontro apresentado pelo governo americano como a maior mesa-redonda do setor em mais de 120 anos. Três investimentos anunciados ajudam a compreender o alcance da estratégia.

A Sila Nanotechnologies anunciou US$ 1,4 bilhão para ampliar a produção de materiais de silício-carbono usados em ânodos de baterias e células de íon-lítio na Califórnia. A Sunrise Energy Metals comprometeu US$ 400 milhões com o desenvolvimento da primeira mina primária de escândio dos Estados Unidos. E a Niron Magnetics anunciou US$ 150 milhões para ampliar em Minnesota a produção de ímãs permanentes fabricados sem terras raras.

Os projetos mostram que Washington não está procurando apenas novas minas. A estratégia americana alcança diferentes pontos da cadeia: extração mineral, processamento, materiais avançados, componentes para baterias, ímãs e tecnologias capazes até mesmo de substituir minerais considerados críticos. É a partir dessa ofensiva que precisa ser analisada a estratégia brasileira de usar suas reservas como instrumento de negociação com os Estados Unidos.

O problema para o Brasil não é falta de interesse americano. Washington continua investindo em projetos brasileiros e já comprometeu centenas de milhões de dólares em operações relacionadas às terras raras no país. O problema é que, simultaneamente, os Estados Unidos estão construindo alternativas suficientes para reduzir a dependência de qualquer fornecedor individual.

Essa diferença pode ser decisiva nas negociações entre os dois países. O governo Lula defende que o Brasil não repita com os minerais críticos o modelo histórico de exportação de matérias-primas de baixo valor agregado. A intenção é utilizar as reservas brasileiras, entre as maiores do mundo em determinados minerais, para negociar investimentos em processamento, separação, refino, metais, ligas, ímãs e outras etapas industriais.

A premissa brasileira é transformar vantagem geológica em poder de negociação. A estratégia americana segue uma lógica diferente: transformar diversificação geográfica, financiamento público e capacidade industrial em segurança de abastecimento.

Washington financia simultaneamente projetos no Brasil, nos próprios Estados Unidos, na África, Austrália e outros países aliados ou parceiros. Ao mesmo tempo, coloca recursos em processamento, estoques estratégicos e tecnologias destinadas a diminuir a vulnerabilidade americana a determinados minerais. O comunicado da Casa Branca de 7 de agosto é a expressão mais recente dessa política, mas não representa uma iniciativa isolada.

Em março de 2025, Trump determinou medidas para ampliar a produção mineral americana e acelerar projetos considerados estratégicos. O objetivo declarado pela Casa Branca era transformar os Estados Unidos em líder na produção e no processamento de minerais não combustíveis, incluindo terras raras.

Em janeiro de 2026, o governo avançou para a negociação de acordos com parceiros comerciais sobre minerais críticos processados e produtos derivados. Em julho, Trump reforçou a vinculação entre minerais, indústria de defesa e segurança nacional, determinando novas medidas para proteger as cadeias necessárias à fabricação de equipamentos militares.

A política americana, portanto, combina produção doméstica, acordos internacionais, financiamento de projetos no exterior, processamento industrial, estoques e substituição tecnológica. Isso altera a correlação de forças em uma eventual negociação com o Brasil.

Quanto maior o número de fornecedores disponíveis para os Estados Unidos, menor tende a ser a capacidade de qualquer país individual de usar exclusivamente o acesso às suas reservas para negociar instalação de fábricas, transferência de tecnologia ou participação maior nas etapas industriais da cadeia.

O Brasil continua relevante. Mas relevância não significa indispensabilidade. Essa diferença aparece concretamente nos projetos brasileiros já apoiados por Washington. Em Goiás, os Estados Unidos aprofundaram sua presença na Serra Verde, produtora de terras raras pesadas estratégicas como disprósio e térbio. No projeto Carina, também em Goiás, a DFC americana participa do financiamento.

O desenho industrial do Carina, porém, expõe o limite da estratégia brasileira. A previsão é produzir carbonato misto de terras raras no Brasil e encaminhá-lo para uma futura unidade da Aclara na Louisiana, onde ocorreriam etapas mais sofisticadas, como separação em óxidos e produção de metais e ligas.

Ou seja, o Brasil pode receber investimento, aumentar sua produção mineral e integrar-se à cadeia americana sem necessariamente capturar as etapas mais valiosas dessa cadeia. É nesse ponto que os interesses dos dois países começam a divergir. Brasília pretende utilizar sua riqueza mineral para desenvolver uma cadeia industrial. Washington procura garantir matéria-prima para construir e proteger sua própria cadeia industrial.

A diferença se torna mais relevante porque os Estados Unidos possuem alternativas.

Rede global

A Casa Branca já formalizou acordos com alguns de seus principais parceiros. Em outubro de 2025, Estados Unidos e Austrália estabeleceram um marco bilateral para mineração e processamento de minerais críticos e terras raras. Os dois governos estabeleceram como objetivo apoiar cadeias envolvendo mineração, separação e processamento e previram pelo menos US$ 1 bilhão em financiamento para projetos em cada país.

Poucos dias depois, Washington estabeleceu com o Japão outro marco para minerais críticos e terras raras. O acordo prevê apoio governamental e privado por meio de empréstimos, garantias, participação acionária, contratos de compra e seguros, além da identificação conjunta de projetos considerados estratégicos.

A arquitetura americana, portanto, começou a ser construída antes do anúncio de 7 de agosto e está sendo progressivamente ampliada. Na África, os Estados Unidos financiam novos projetos minerais e infraestrutura. Congo e Zâmbia estão sendo incorporados a uma cadeia ligada ao Corredor do Lobito. No Malawi, Washington apoia um projeto de terras raras. Na Austrália, os americanos procuram garantir novas fontes de minerais e já estabeleceram uma parceria formal que inclui mineração e processamento.

Dentro dos próprios Estados Unidos, o governo Trump acelera produção, processamento e fabricação de materiais avançados. É nesse contexto que precisam ser interpretados os US$ 40 bilhões e os 160 acordos anunciados pela Casa Branca. Não se trata simplesmente de uma soma de investimentos em minas.

Washington está construindo uma rede destinada a reduzir vulnerabilidades em diferentes pontos da cadeia mineral. O anúncio da Niron Magnetics é particularmente ilustrativo. Enquanto Washington procura novas fontes de terras raras no Brasil e em outros países, também financia uma tecnologia de ímãs permanentes que pretende dispensar justamente as terras raras.

A lógica é reduzir dependências por vários caminhos simultaneamente.

Brasil

Para Brasília, a consequência é direta.

A simples existência das reservas brasileiras talvez não seja suficiente para garantir que os Estados Unidos incorporem aos acordos todos os objetivos brasileiros de política industrial, como maior conteúdo local, transferência de tecnologia e processamento no país.

Washington pode incorporar esses objetivos quando forem economicamente convenientes, politicamente negociados ou necessários para assegurar determinado mineral. Mas, quanto maior sua rede internacional de fornecedores, menor será a capacidade brasileira de utilizar exclusivamente suas reservas como elemento de negociação para obter essas contrapartidas.

Isso ganha importância adicional no momento de deterioração das relações entre Lula e Trump.

A tensão política não provocou, até agora, uma retirada dos investimentos americanos em minerais críticos do Brasil. O levantamento dos principais projetos brasileiros mostra justamente o contrário: Washington continua financeiramente envolvido em ativos considerados estratégicos.

Mas o movimento global revelado pela Casa Branca mostra que os Estados Unidos também estão construindo uma política capaz de sobreviver a crises diplomáticas com fornecedores específicos. Uma deterioração das relações com Brasília não significa necessariamente que Washington precise abandonar o minério brasileiro. Mas também não significa que os americanos precisem esperar indefinidamente por um entendimento com o Brasil.

Podem acelerar projetos concorrentes.

Não significa que os Estados Unidos consigam substituir imediatamente todos os minerais brasileiros. Terras raras pesadas como disprósio e térbio continuam sendo ativos particularmente importantes, e projetos como Serra Verde possuem características difíceis de reproduzir rapidamente.

Mas Washington não precisa substituir completamente o Brasil. Precisa possuir alternativas suficientes para evitar dependência excessiva do país. Essa é uma das mensagens mais importantes que emerge do comunicado da Casa Branca.

Janela brasileira

A estratégia americana também introduz um componente de tempo na política brasileira. Hoje, a dependência ocidental da China cria uma oportunidade excepcional para países detentores de minerais críticos. Mas essa janela não necessariamente permanecerá aberta nas mesmas condições.

Novas minas entrarão em produção. Novas unidades de processamento serão construídas. Estoques estratégicos serão formados. Cadeias africanas e australianas poderão amadurecer. Tecnologias capazes de reduzir a utilização de determinados minerais continuarão recebendo investimentos.

O recurso continuará debaixo do solo brasileiro. O prêmio geopolítico associado à sua escassez, porém, pode diminuir. Por isso, o principal desafio brasileiro talvez não seja convencer Washington de que o Brasil possui minerais que os Estados Unidos desejam. Isso os americanos já sabem.

O desafio é transformar essa vantagem geológica em capacidade industrial enquanto a reorganização mundial das cadeias ainda aumenta o valor estratégico das reservas brasileiras. O comunicado da Casa Branca de 7 de agosto ajuda a dimensionar essa corrida.

Quando Washington anuncia mais de US$ 2 bilhões em novos projetos, US$ 180 milhões em formação profissional e informa ter alcançado 160 acordos que somam aproximadamente US$ 40 bilhões, sinaliza que sua resposta à dependência mineral não está concentrada em encontrar um novo fornecedor privilegiado. A resposta é multiplicar fornecedores, financiar diferentes tecnologias e reconstruir capacidade industrial dentro dos Estados Unidos.

É nesse ambiente que o Brasil negocia.

A premissa brasileira é transformar concentração de recursos em poder de negociação. A resposta americana é construir diversificação suficiente para diminuir os riscos dessa concentração. Nesse cenário, as reservas brasileiras continuam extremamente valiosas, mas podem não ser suficientemente exclusivas para garantir, por si mesmas, que os objetivos brasileiros de industrialização sejam incorporados aos futuros acordos.

A questão central passa a ser quanto tempo o Brasil possui para converter riqueza mineral em indústria antes que a vantagem estratégica proporcionada pela atual escassez seja diluída pela diversificação que os Estados Unidos estão financiando em escala global.

*Portanto é preciso dosar o discurso de campanha, quando ele parte do governo central, para não fechar definitivamente as portas a uma futura boa negociação. Cautela e caldo de galinha não fazem mal à ninguém.