Varejo amplia uso de reconhecimento facial e IA para tentar conter perdas e furtos

As perdas operacionais do varejo brasileiro chegaram a R$ 36,5 bilhões em 2025 e estão levando empresas do setor a ampliar o uso de inteligência artificial, reconhecimento facial e análise de dados na prevenção de furtos. A mudança ocorre em um cenário no qual redes varejistas tentam deixar para trás modelos baseados apenas em câmeras e vigilância local para adotar sistemas capazes de cruzar informações e identificar pessoas associadas a ocorrências anteriores.

Dados apresentados no Fórum ABRAPPE 2026 indicam que as perdas operacionais cresceram 15,3% em relação ao ano anterior, enquanto o faturamento do setor avançou 6,4%, chegando a R$ 2,55 trilhões. O índice médio de perdas passou de 1,51% para 1,65% no período.

Parte desse problema está relacionada a furtos, mas as perdas no varejo também envolvem desvios de mercadorias, falhas de estoque, erros no recebimento de produtos e problemas nos processos internos. Ao mesmo tempo, empresas do setor relatam dificuldades para acompanhar grupos que atuam em diferentes lojas, cidades e estados, principalmente quando as informações sobre ocorrências ficam restritas a cada operação.

O uso da tecnologia no controle de perdas ganhou repercussão recentemente após um vídeo mostrar um sistema instalado no açougue de um supermercado. Câmeras posicionadas sobre as áreas de corte foram integradas a um software capaz de identificar produtos e comparar informações com o peso registrado nas balanças. O objetivo era reduzir divergências entre o que era manipulado e o que entrava efetivamente no controle de estoque.

Embora sistemas desse tipo possam reforçar o acompanhamento dos processos internos, o setor vem ampliando o foco para ferramentas destinadas a identificar reincidências e cruzar informações entre diferentes unidades. Segundo Rodrigo Tessari, CEO da Deconve, empresa especializada em prevenção de perdas no varejo físico e integrante do Grupo OSTEC, criminosos podem migrar rapidamente entre estabelecimentos e regiões depois de serem identificados em determinada rede.

Nesse contexto, plataformas de reconhecimento facial passaram a ser utilizadas para comparar imagens captadas nas entradas das lojas com bases formadas a partir de registros anteriores. Quando uma possível correspondência é identificada, a equipe responsável pela prevenção de perdas recebe um alerta para acompanhar a situação.

Uma dessas ferramentas é a Deconve ID, desenvolvida pela própria empresa. De acordo com dados divulgados pela Deconve, a plataforma reúne mais de 17 mil cadastros e é utilizada em mais de 500 operações varejistas. A companhia afirma que foram emitidos 15.143 alertas no início de 2026 e estima que as ocorrências identificadas tenham evitado prejuízos superiores a R$ 7 milhões, considerando um valor médio de R$ 489 por furto inibido.

Ainda segundo a empresa, o sistema processa mais de 5 mil alertas por mês e registra, em média, 21 tentativas de furto inibidas mensalmente por estabelecimento. Em uma rede da Região Sul, a Deconve atribui à adoção da tecnologia uma redução de 17% nas perdas totais e uma economia estimada em R$ 25 milhões.

A expansão dessas ferramentas mostra como a prevenção de perdas está migrando da simples gravação de imagens para sistemas que tentam antecipar situações de risco a partir de dados acumulados. Ao mesmo tempo, o avanço do reconhecimento facial coloca no centro da discussão questões relacionadas à qualidade das informações utilizadas, aos critérios de identificação e ao tratamento de dados pessoais.

Com o aumento das perdas e a circulação de grupos entre diferentes regiões, o varejo tende a intensificar o uso de inteligência artificial e integração de informações. O desafio passa a ser combinar essas tecnologias com processos internos de controle e critérios capazes de evitar que sistemas automatizados transformem suspeitas ou correspondências imprecisas em decisões sem verificação humana.