Inteligência artificial muda mercado de trabalho e ameaça espaço de profissionais iniciantes

O avanço da inteligência artificial generativa no mercado de trabalho está modificando não apenas a execução de tarefas, mas também os critérios utilizados pelas empresas para contratar profissionais. Com ferramentas capazes de automatizar atividades operacionais e repetitivas, funções tradicionalmente ocupadas por trabalhadores em início de carreira passam por uma transformação que coloca em discussão o futuro da formação de talentos e a capacidade das organizações de adaptar seus processos de recrutamento.

A automação de atividades antes realizadas por profissionais juniores tem elevado as exigências para novas contratações. Empresas passaram a valorizar competências que vão além da execução técnica, como pensamento crítico, capacidade de decisão, visão de negócios e relacionamento interpessoal. Esse movimento tende a favorecer trabalhadores mais experientes, enquanto profissionais que buscam a primeira oportunidade enfrentam dificuldades para ingressar no mercado.

O cenário também representa um desafio para as próprias organizações. Ao reduzir a contratação de iniciantes, as empresas podem comprometer a formação dos profissionais que ocuparão posições estratégicas e de liderança nos próximos anos. A falta de oportunidades para desenvolver experiência prática pode criar uma lacuna de talentos no médio e longo prazo.

Para Lívia Kuga, cofundadora da Alia, a entrada de novos profissionais continua sendo fundamental, especialmente porque as gerações mais recentes apresentam maior facilidade para incorporar tecnologias e processos de trabalho baseados em inteligência artificial. Segundo ela, a ausência de hábitos profissionais consolidados pode favorecer a adaptação a modelos operacionais diferentes dos tradicionais.

A transformação é particularmente perceptível no setor de tecnologia, onde ferramentas de inteligência artificial já conseguem escrever, revisar e corrigir códigos, automatizando parte das atividades anteriormente desempenhadas por desenvolvedores. Com isso, a atuação desses profissionais passa a exigir uma combinação de conhecimento técnico, compreensão das necessidades dos clientes e capacidade de coordenar diferentes soluções tecnológicas.

O desenvolvedor que concentra sua atuação exclusivamente na escrita de códigos enfrenta um mercado em mudança. A capacidade de compreender problemas, estruturar soluções e transformar demandas comerciais em produtos digitais ganha importância em um ambiente no qual parte significativa da execução pode ser realizada por sistemas automatizados.

Durante um debate promovido pela InHire, em São Paulo, o CEO da empresa, Augusto Frazão, avaliou que a inteligência artificial está deslocando o valor profissional da execução em grande escala para atividades que dependem de julgamento, coordenação e relacionamento. Na avaliação do executivo, essas competências passam a ter maior relevância à medida que ferramentas automatizadas assumem tarefas técnicas e operacionais.

A mudança também aparece na experiência de profissionais que ocupam cargos de liderança em tecnologia. David Pires, CIO e CPO da Zig, relatou que, embora tenha experiência de muitos anos em programação, passou meses sem escrever diretamente uma linha de código. Segundo ele, a utilização de ferramentas tecnológicas permite acompanhar e colocar em produção diferentes entregas simultaneamente, enquanto realiza outras atividades de gestão.

Apesar das mudanças na rotina de trabalho, os processos de recrutamento e seleção não acompanham necessariamente a mesma velocidade. Muitas empresas já incorporaram inteligência artificial em etapas da contratação, mas continuam utilizando descrições de cargos, requisitos e métodos de avaliação baseados em modelos anteriores à popularização dessas ferramentas.

Essa diferença entre as habilidades avaliadas durante uma seleção e aquelas exigidas no exercício da função cria um descompasso entre as necessidades das empresas e o perfil dos profissionais contratados. Em alguns casos, candidatos são impedidos de utilizar ferramentas de inteligência artificial durante testes técnicos, mesmo quando o uso dessas soluções faz parte da rotina da vaga oferecida.

O problema evidencia uma contradição: enquanto as organizações esperam ganhos de produtividade por meio da automação, seus processos seletivos ainda podem privilegiar a execução manual de atividades que deixaram de ocupar posição central no trabalho cotidiano.

Na avaliação de Frazão, parte das empresas continua contratando com base nas exigências profissionais de 2024, mas espera que os trabalhadores apresentem competências compatíveis com a realidade tecnológica de 2026. Essa diferença aumenta a pressão sobre as equipes e evidencia a necessidade de atualizar tanto os critérios de contratação quanto os programas de desenvolvimento profissional.

A requalificação dos trabalhadores, conhecida como reskilling, surge como uma das alternativas para enfrentar essa transição. Em vez de substituir profissionais sempre que uma atividade passa a ser automatizada, as organizações podem investir no desenvolvimento de competências relacionadas ao uso estratégico da inteligência artificial, à análise de informações e à resolução de problemas complexos.

A mudança também exige uma revisão da estrutura das equipes. Antes de abrir uma vaga, gestores precisam identificar quais atividades continuarão dependendo da atuação humana, quais poderão ser automatizadas e quais habilidades serão necessárias para integrar essas duas dimensões.

No recrutamento, isso significa desenvolver avaliações mais próximas das situações enfrentadas no ambiente de trabalho. Testes de raciocínio, capacidade de solucionar problemas, interpretação de resultados produzidos por inteligência artificial e tomada de decisão podem oferecer informações mais relevantes do que exercícios concentrados exclusivamente na execução manual de tarefas.

Para os profissionais em início de carreira, o desafio será desenvolver experiência em um mercado que automatiza justamente parte das atividades historicamente utilizadas como porta de entrada. Sem mecanismos de aprendizagem e oportunidades para aplicar conhecimentos na prática, a exigência crescente por profissionais experientes pode dificultar a renovação das equipes.

A expansão da inteligência artificial generativa, portanto, não representa apenas uma mudança tecnológica, mas uma transformação na maneira como as empresas organizam o trabalho e desenvolvem seus profissionais. O desafio será equilibrar os ganhos de produtividade proporcionados pela automação com a necessidade de manter oportunidades de formação e crescimento.

Nesse contexto, a capacidade de adaptar processos seletivos, atualizar competências e preservar a entrada de novos talentos pode se tornar um fator decisivo para a sustentabilidade das organizações. Afinal, embora a inteligência artificial esteja assumindo uma parcela cada vez maior das tarefas operacionais, a formação de profissionais capazes de interpretar, supervisionar e direcionar essas tecnologias continua dependendo de experiência, aprendizado e oportunidades no mercado de trabalho.