IA “SoberanIA” quer levar infraestrutura nacional ao mercado público brasileiro

A nova plataforma brasileira de inteligência artificial “SoberanIA” criada pelo Governo do Piauí começou a ser apresentada ao mercado público brasileiro nesta terça-feira, em Brasília. Apoiada por uma combinação pouco comum entre empresas estatais, big techs e investimentos públicos federais, o projeto reúne o Serpro, a Amazon Web Services, a Claro, a Oracle em torno da criação de uma LLM nacional voltada ao processamento de dados do setor público brasileiro.

Durante o lançamento, o governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), afirmou que a iniciativa já recebeu um primeiro reforço financeiro de aproximadamente R$ 40 milhões, obtido junto ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), destinado à ampliação da infraestrutura computacional necessária ao treinamento do modelo de linguagem.

Segundo Fonteles, a proposta nasceu há cerca de dois anos dentro da estrutura estadual do Piauí, mas acabou sendo expandida para um modelo que pretende atender estados, municípios e órgãos federais. O governador afirmou que a parceria com o Serpro já garante parte da infraestrutura computacional das aplicações que passam a ser ofertadas comercialmente a partir de agora.

A AWS, por sua vez, participou da etapa de treinamento da linguagem, enquanto Claro, Oracle e até a Telebras foram citadas como empresas envolvidas em negociações relacionadas à infraestrutura tecnológica e conectividade do projeto.

De acordo com o governador, a plataforma foi desenhada para funcionar em diferentes níveis de segurança, dependendo do tipo de dado tratado por cada órgão público. Em aplicações consideradas menos críticas, poderá haver uso de nuvem privada. Já em ambientes que envolvam informações sensíveis ou estratégicas, a exigência será de processamento em infraestrutura pública e controlada pelo Estado.

A fala ocorre em meio ao avanço do debate sobre soberania digital no Brasil, especialmente após o crescimento da dependência de soluções estrangeiras de inteligência artificial e armazenamento em nuvem utilizadas por órgãos públicos. “O dado sensível exige uma infra computacional totalmente pública”, declarou Fonteles durante conversa com jornalistas após o evento.

O governador afirmou ainda que o treinamento da plataforma deverá consumir investimentos permanentes, uma vez que a expansão do volume de dados utilizados pelo modelo aumenta diretamente a necessidade de capacidade computacional. Segundo ele, a base do sistema já se aproxima de um trilhão de tokens processados.

Além da infraestrutura, o projeto tenta se posicionar como uma alternativa nacional aos grandes modelos internacionais de linguagem. Rafael Fonteles afirmou que os testes internos indicam desempenho competitivo em aplicações em português, ponto considerado estratégico para a adoção em serviços públicos brasileiros.

A comercialização das soluções será feita pela Empresa de Tecnologia da Informação do Piauí (ETIPI), estatal de economia mista do governo piauiense. Segundo o governador, a empresa poderá vender diretamente para órgãos públicos ou atuar por meio de parceiros e marketplaces digitais.

Ao longo do evento, Rafael Fonteles insistiu na ideia de que o projeto não deve ser visto apenas como uma ferramenta tecnológica, mas como parte de uma estratégia nacional de controle sobre dados públicos e infraestrutura digital. “A grande riqueza hoje de um país são os dados e a forma como esses dados são tratados”, afirmou.