
O presidente da Telebrasil, Alberto Griselli, abriu o Painel Telebrasil 2026 com um discurso marcado por críticas ao atual modelo regulatório das telecomunicações, alertas sobre a velocidade da transformação tecnológica global e defesa de um novo pacto entre Estado e mercado para permitir a consolidação do chamado “Brasil digital”. Diante de autoridades do Executivo, Congresso e setor regulatório, Griselli afirmou que o país já construiu, ao longo das últimas décadas, um “Brasil conectado”, mas que agora precisa avançar para uma nova etapa baseada em inteligência artificial, dados, nuvem, infraestrutura digital e soberania tecnológica.
“O desafio e a oportunidade para o futuro é fazer um salto: do Brasil conectado para o Brasil digital”, afirmou o executivo.
Na avaliação de Griselli, o país já atingiu um grau elevado de conectividade. Ele destacou que o Brasil possui hoje uma das redes móveis mais rápidas do mundo e que o 5G já alcança cerca de 70% da população brasileira em menos de quatro anos após o leilão das frequências. Também ressaltou que praticamente todos os municípios brasileiros contam atualmente com infraestrutura de fibra óptica, em um processo financiado majoritariamente por investimentos privados orientados por políticas públicas construídas ao longo de quase três décadas.
O presidente da Telebrasil afirmou que a conectividade deixou de ser apenas uma plataforma de consumo digital e passou a sustentar serviços críticos do Estado e da economia. Citou o avanço das teleconsultas médicas, a digitalização de serviços públicos, a conectividade em escolas, segurança pública, propriedades rurais e a expansão do empreendedorismo digital impulsionado por ferramentas financeiras eletrônicas.
“O PIX, responsável pelo índice de crescimento dos microempreendimentos brasileiros, é talvez o exemplo mais eloquente do que a conectividade significa para o tecido econômico nacional”, declarou.
Griselli também procurou contextualizar a velocidade da transformação tecnológica global. Segundo ele, o volume mundial de dados se multiplicou por 70 na última década e a computação em nuvem deve dobrar ou até quadruplicar nos próximos anos. Citou ainda a rápida expansão da inteligência artificial generativa como exemplo da mudança estrutural em andamento.
“O mundo está atravessando uma transição cuja magnitude nós todos estamos compreendendo a cada dia”, afirmou, ao mencionar conceitos como cloud, tokens, edge computing, inferência e agentes de inteligência artificial.
Segundo o executivo, caso o Brasil consiga consolidar essa nova infraestrutura econômica digital, o impacto poderá chegar a R$ 1,3 trilhão adicionais ao Produto Interno Bruto brasileiro.
O centro do discurso, no entanto, esteve na crítica ao atual ambiente regulatório e institucional. Griselli afirmou que o desenho regulatório das telecomunicações brasileiras pode não estar preparado para enfrentar o novo cenário tecnológico global. “O poder de mercado hoje é global, mas a perspectiva regulatória é extremamente local”, disse.
Segundo ele, as regras atuais continuam concentradas sobre operadores de infraestrutura, enquanto as grandes plataformas digitais globais operam sob níveis menores de obrigações locais. Para Griselli, isso gerou uma “assimetria invertida” no ecossistema digital brasileiro. “Quanto maior o poder de mercado global, menor a obrigação regulatória local que sobre ele recai”, afirmou.
O executivo também criticou o excesso de revisões normativas e a insegurança regulatória, argumentando que investimentos de longo prazo em infraestrutura digital não convivem bem com mudanças constantes de regras. “O capital de longo prazo que é preciso para construir infraestrutura digital do futuro não convive bem com a incerteza de horizonte”, declarou.
Griselli dedicou parte relevante do discurso à defesa de políticas consideradas estruturantes para consolidar o “Brasil conectado”. Entre elas, destacou a política de espectro, o compartilhamento de infraestrutura e a proteção das redes contra o avanço do crime organizado.
Segundo ele, o país enfrenta atualmente um cenário de forte pressão sobre as redes, incluindo o contrabando anual de cerca de 4,5 milhões de aparelhos celulares e o furto de aproximadamente 5 milhões de metros de cabos de telecomunicações. O executivo afirmou que a situação já produz impactos sociais relevantes. “Sete milhões de brasileiros estão desconectados em consequência do crime organizado”, disse.
Ao abordar infraestrutura, Griselli defendeu o compartilhamento de redes em um país de dimensão continental como o Brasil e criticou modelos que estimulem duplicação desnecessária de investimentos físicos. “Duplicar rede é um luxo que a economia brasileira não pode permitir”, afirmou.
O executivo também fez críticas ao modelo atual dos fundos setoriais das telecomunicações. Segundo ele, o setor arrecadou cerca de R$ 268 bilhões nos últimos 26 anos, mas parte significativa desses recursos não retornou efetivamente para expansão e modernização da infraestrutura.
“Alguns fundos já perderam sua finalidade original”, declarou, ao defender inclusive a extinção do Fistel e a reformulação de mecanismos como o Fust.
Outro ponto sensível levantado pelo presidente da Telebrasil foi a neutralidade de rede. Sem defender explicitamente mudanças legislativas imediatas, Griselli sinalizou que o conceito tradicional precisa ser reinterpretado diante da nova dinâmica econômica das plataformas digitais e da inteligência artificial. “A rede não é um ativo passivo. É tecnologia, investimento, planejamento”, afirmou.
Ao final do discurso, Griselli defendeu a construção de uma estratégia nacional voltada ao desenvolvimento tecnológico brasileiro, incluindo formação de talentos, infraestrutura de data centers, energia limpa e governança de dados. Segundo ele, o país precisa deixar de ser apenas consumidor de tecnologia estrangeira. “Precisamos formar uma geração brasileira capaz de criar tecnologia, e não apenas consumi-la”, declarou.
Em um dos trechos mais políticos da fala, o executivo afirmou que a transição para o “Brasil digital” exigirá uma nova relação entre setor público e iniciativa privada. “O Brasil digital não se constrói deprimindo o investimento em redes com regras onerosas e obsoletas. O Brasil digital se constrói liberando o potencial de investimento privado em um país maior, mais inteligente, mais competitivo e mais soberano”, concluiu.







