EUA viram sócios de empresas de tecnologia (parte 1)

O governo dos Estados Unidos está transformando o próprio Estado em acionista de empresas privadas para disputar a corrida pelas tecnologias estratégicas. Em vez de apenas conceder subsídios, empréstimos ou incentivos, Washington começou a exigir participações acionárias como contrapartida ao dinheiro público destinado a determinadas companhias. O contribuinte assume parte do risco tecnológico, mas passa também a poder participar do ganho caso a empresa financiada se valorize.

A estratégia ganhou um novo exemplo nesta terça-feira (08), quando a D-Wave Quantum anunciou a assinatura do acordo definitivo que lhe dará acesso a até US$ 100 milhões do CHIPS and Science Act. Os recursos financiarão o desenvolvimento de novas gerações de computadores quânticos e, como condição para recebê-los, a empresa entregará ao Departamento de Comércio americano uma participação minoritária e não controladora.

Não se trata de estatização. A D-Wave continuará sendo uma companhia privada e o governo não assumirá sua administração. Mas Washington passará a possuir ações da empresa e poderá participar economicamente de sua valorização.

A justificativa foi apresentada pelo próprio Departamento de Comércio em maio, quando anunciou cartas de intenção que somavam US$ 2,013 bilhões para nove empresas e projetos relacionados à computação quântica. O governo informou expressamente que receberia participações minoritárias e não controladoras como condição para a concessão dos recursos, com o objetivo de aumentar o retorno para o contribuinte americano.

A carteira reúne diferentes apostas tecnológicas. Foram anunciados até US$ 100 milhões para Atom Computing, US$ 38 milhões para Diraq, US$ 100 milhões para D-Wave, US$ 100 milhões para Infleqtion, US$ 100 milhões para PsiQuantum, US$ 100 milhões para Quantinuum e até US$ 100 milhões para Rigetti, além de US$ 375 milhões para a GlobalFoundries e US$ 1 bilhão para a IBM em estruturas relacionadas à fabricação e pesquisa.

O Departamento de Comércio descreveu a estratégia como uma “portfolio approach”. Em vez de escolher antecipadamente uma única tecnologia vencedora, o governo distribui recursos entre diferentes caminhos para a computação quântica, incluindo sistemas supercondutores, fotônicos, de átomos neutros, spin de silício e íons aprisionados.

A lógica se aproxima da diversificação utilizada por fundos de venture capital. Algumas apostas podem fracassar, enquanto outras podem produzir empresas extremamente valiosas. Ao receber participação nas companhias beneficiadas, o Estado passa a ter a possibilidade de capturar parte do resultado das vencedoras.

O acordo da D-Wave permite enxergar em detalhes como a nova política funciona. Documentos apresentados pela companhia à Securities and Exchange Commission (SEC) mostram que serão emitidas diretamente para o Departamento de Comércio 7.095.721 ações ordinárias. Para a operação, foi estabelecido preço de US$ 14,093 por ação, calculado conforme critérios definidos no acordo e com desconto de 15%.

O próprio Departamento de Comércio será titular dos papéis. Washington não criou uma empresa estatal ou um fundo público intermediário para receber a participação. Ao mesmo tempo, o acordo procura separar propriedade econômica de controle empresarial.

Enquanto permanecerem nas mãos de uma entidade governamental americana ou de uma companhia majoritariamente controlada pelo governo, as ações não terão direitos ordinários de voto. As exceções estão relacionadas principalmente a alterações dos direitos associados aos próprios papéis e a operações como fusões, consolidações ou combinações empresariais.

O governo poderá posteriormente registrar e vender as ações conforme as condições estabelecidas no acordo. A arquitetura revela uma preocupação central da nova estratégia: o Estado quer participar economicamente do negócio sem administrar a companhia. Os US$ 100 milhões também não serão liberados de uma única vez.

O acordo prevê uma primeira parcela de até US$ 53,55 milhões. As seguintes chegam a aproximadamente US$ 9,08 milhões, US$ 16,70 milhões e US$ 20,39 milhões, além de uma parcela final de US$ 287 mil. Os desembolsos dependerão do cumprimento de metas relacionadas à aquisição e instalação de equipamentos, fabricação de protótipos de unidades de processamento quântico, integração de processos, calibração e avaliação de desempenho. O período de execução poderá chegar a cinco anos.

A D-Wave pretende desenvolver, entre outros projetos, um computador quântico de recozimento de 100 mil qubits e uma arquitetura baseada em portas com 10 mil qubits físicos, destinada a atingir 100 qubits lógicos capazes de executar mais de um milhão de operações.

O governo também receberá direitos relacionados à propriedade intelectual desenvolvida com os recursos federais. O acordo prevê licença para utilização governamental de determinadas tecnologias financiadas, os chamados march-in rights e exigências relacionadas ao controle e à produção doméstica das invenções.

A operação combina, portanto, quatro elementos: dinheiro público, metas tecnológicas, direitos sobre tecnologias financiadas e participação patrimonial. A D-Wave não é um caso isolado.

Também nesta terça-feira, a Rigetti Computing comunicou à SEC a conclusão de um acordo de até US$ 100 milhões com o Departamento de Comércio. A companhia deverá emitir 7.739.938 ações diretamente para o governo americano, por um preço implícito de US$ 12,92 por ação. O acordo da Rigetti também restringe o exercício de direitos de voto pelo governo e estabelece condições para eventual revenda dos papéis. Mas a mudança americana começou antes da atual rodada quântica.

Em agosto de 2025, o governo fechou uma operação muito maior com a Intel. O acordo envolveu aproximadamente US$ 8,9 bilhões de recursos federais e uma participação inicialmente apresentada como próxima de 9,9% da fabricante de semicondutores. Documentos entregues pela Intel à SEC mostram que a companhia concordou em emitir centenas de milhões de ações para o Departamento de Comércio. A estrutura envolveu a antecipação de recursos do CHIPS Act e valores relacionados ao programa Secure Enclave.

Em agosto de 2025, o governo americano já havia dado um passo muito maior com a Intel. Em contrato apresentado à SEC, a fabricante concordou em emitir 433,3 milhões de ações ordinárias para o Departamento de Comércio em contrapartida a US$ 8,87 bilhões em desembolsos federais. A operação incluiu ainda warrants que podem dar ao governo direito a até outras 240,5 milhões de ações. Documentação posterior da própria Intel mostra que, em março de 2026, o governo dos Estados Unidos já detinha as 433,3 milhões de ações, equivalentes então a 8,4% do capital em circulação.

O relatório financeiro do Departamento de Comércio posteriormente registrou as ações recebidas pela administração federal por intermédio do NIST e do programa CHIPS for America. O próprio governo Trump passou a tratar essas operações como parte de sua estratégia econômica.

No balanço do primeiro ano da administração, o Departamento de Comércio criou uma categoria denominada “Strategic Equity & Governance Wins”. Entre os resultados apresentados estão a participação na Intel e outras operações nas quais Washington buscou transformar apoio federal em participação econômica ou direitos especiais.

O governo também destacou a chamada golden share relacionada à U.S. Steel, participação em operação envolvendo a Korea Zinc e proposta de investimento patrimonial na xLight. A participação acionária deixou, assim, de ser uma excepcionalidade para aparecer como uma ferramenta deliberada de política industrial. A mudança é particularmente significativa porque ocorre justamente em setores considerados decisivos para a disputa tecnológica internacional: semicondutores, computação quântica, microeletrônica e tecnologias avançadas de fabricação.

Há, entretanto, uma questão jurídica ainda em aberto. O CHIPS and Science Act concede ao secretário de Comércio poderes amplos para celebrar contratos, grants, cooperative agreements e outras transações necessárias à execução da política. A legislação autoriza expressamente as chamadas “other transactions” e permite estabelecer condições para o apoio federal.

Mas o texto legal não diz simplesmente que o Departamento de Comércio está autorizado a comprar ações de empresas privadas. A política acionária está sendo construída a partir da interpretação desses poderes mais amplos. A novidade aparece nos próprios documentos da D-Wave. Entre os fatores de risco apresentados à SEC, a companhia registra que as transações são novas e complexas e admite a possibilidade de que, futuramente, instâncias legislativas, judiciais ou executivas possam considerar partes da estrutura não autorizadas, inválidas ou anuláveis.

A empresa também informa que nenhum outro órgão ou Poder americano assumiu compromisso de apoiar ou de deixar de questionar a operação. Washington está, portanto, testando simultaneamente uma nova fronteira econômica e jurídica de sua política industrial. O aspecto mais importante talvez esteja na mudança da relação entre Estado e empresa privada.

Num subsídio tradicional, o governo assume parte do custo da política industrial, mas não recebe participação na valorização da companhia. Num empréstimo, recupera o principal e recebe juros, independentemente de a empresa financiada multiplicar seu valor. No modelo acionário, a equação muda. O Estado aceita risco empresarial e, em troca, recebe um ativo cujo valor dependerá do sucesso da companhia.

A administração Trump está tentando apresentar essa mudança não como expansão do controle estatal, mas como proteção econômica do contribuinte. O argumento é simples: se o dinheiro público ajuda a construir uma companhia que posteriormente se torna extremamente valiosa, parte dessa valorização pode retornar ao próprio Estado.

O resultado é uma inversão curiosa no debate tradicional sobre política industrial. Os Estados Unidos, historicamente associados a uma fronteira mais rígida entre Estado e empresas privadas, estão utilizando diretamente participações societárias para financiar algumas das tecnologias mais estratégicas da nova economia.

Washington não pretende controlar essas empresas. Pretende ser sócio de uma parte do resultado.