
Um documento elaborado por André Marinho, candidato do Novo ao governo do Rio de Janeiro e filho do suplente de Flávio Bolsonaro no Senado, apresenta uma proposta de aproximação entre Brasil e Estados Unidos para exploração, processamento e industrialização de minerais críticos e terras raras em um eventual governo de Flávio Bolsonaro. A informação foi publicada nesta sexta-feira (12) pelo portal Amado Mundo. Segundo o veículo, Marinho confirmou ser o autor do material, mas afirmou que o estudo foi uma iniciativa pessoal, sem relação com a campanha presidencial.
A apresentação tem 22 páginas, está em inglês e teria sido produzida em 19 de março de 2026. Os metadados do arquivo apontam Marinho como autor. Embora ele negue vínculo com a campanha, a reportagem afirma que a capa traz a inscrição “Flávio Bolsonaro | 2026 Campaign” e que as demais páginas utilizam a marca de Flávio Bolsonaro acompanhada do slogan “Prosperity Partnership”.
O conteúdo coloca os minerais críticos no centro de uma possível reorganização das relações econômicas entre Brasil e Estados Unidos. Na apresentação, o Brasil é descrito como uma das principais áreas ainda pouco desenvolvidas fora da Ásia para esse tipo de recurso e como uma alternativa para reduzir a dependência americana das cadeias de processamento controladas pela China. Uma das mensagens centrais estampadas no material é direta: “Brazil is the solution”, ou “O Brasil é a solução”.
O texto propõe que um eventual governo Flávio Bolsonaro posicione o país como fornecedor e centro de processamento de minerais críticos alinhado ao Ocidente. O argumento é que o Brasil deveria evitar tanto a condição de simples exportador de matérias-primas quanto uma dependência estrutural das cadeias chinesas, aproximando-se dos Estados Unidos na construção de uma cadeia paralela de abastecimento.
O atual governo é retratado como marcado por “ambiguidade geopolítica”, maior flexibilidade nas relações com a China e lentidão regulatória. A alternativa apresentada para Flávio seria um alinhamento mais claro com o Ocidente, associado a aceleração regulatória e atração de capital. Em uma das páginas, a mensagem é resumida pela frase “Lula hesitates. Bolsonaro executes”, “Lula hesita. Bolsonaro executa”. Essas avaliações fazem parte da argumentação política do documento e não representam uma análise independente sobre os dois governos.
Outra página descreve o Brasil como a “maior bateria inexplorada do mundo ocidental” e sustenta que os minerais críticos terão no século XXI uma importância comparável à do petróleo no século XX. O material também cita o chamado “Project Vault”, apresentado na imagem como uma linha de crédito de US$ 10 bilhões, dentro de uma estratégia que trata os minerais como prioridade de segurança nacional e busca formar um grupo de países alinhados em torno de uma cadeia de fornecimento menos dependente da China.
A proposta apresentada por Marinho estaria estruturada em seis frentes, segundo o Amado Mundo. Entre elas estão mudanças e aceleração de regras para mineração e licenciamento, garantia de demanda pelos Estados Unidos, estímulo ao processamento dos minerais dentro do Brasil, combinação de capital americano com ativos brasileiros e inclusão do país em um “clube” de fornecedores de minerais críticos alinhados aos EUA. O documento também defende que esses recursos sejam tratados como ativos relacionados à segurança nacional.
As projeções apresentadas são ambiciosas. Em um horizonte de dez anos, o estudo estima entre US$ 50 bilhões e US$ 100 bilhões em investimentos em mineração, refino e processamento, além da criação de 500 mil a 1 milhão de empregos e de um impacto de 1,5 a 2,5 pontos percentuais sobre o PIB. Esses números, no entanto, são estimativas contidas na apresentação e não aparecem acompanhados, na reportagem, de estudos independentes que comprovem a viabilidade das projeções.
O documento também relaciona o fornecimento brasileiro de minerais críticos a setores considerados estratégicos pelos Estados Unidos, como inteligência artificial, indústria de defesa, transição energética e mobilidade elétrica. O objetivo descrito seria transformar o Brasil em um dos principais fornecedores globais fora da China e em um polo de processamento para cadeias produtivas ligadas aos EUA.
A data de produção do material chama atenção porque antecede uma série de encontros nos Estados Unidos. Segundo a reportagem, cerca de três semanas depois, André Marinho esteve no país e se encontrou com o vice-presidente J.D. Vance. Em maio, Flávio Bolsonaro também esteve em Washington, onde se reuniu com Donald Trump e, posteriormente, com Vance e o secretário de Estado Marco Rubio. Flávio afirmou na ocasião ter discutido, entre outros temas, tarifas e terras raras com Trump.
Há ainda uma proximidade de discurso entre o documento e uma declaração feita por Flávio Bolsonaro poucos dias depois de sua elaboração. Em 28 de março, durante a CPAC em Dallas, o senador afirmou que o Brasil poderia ser uma solução para os Estados Unidos reduzirem sua dependência da China em minerais críticos, especialmente terras raras. A apresentação havia sido criada nove dias antes. A coincidência temporal e a semelhança entre as mensagens são destacadas pela reportagem, mas, por si só, não comprovam que o documento tenha sido utilizado pela campanha ou apresentado a autoridades americanas.
A reportagem também relaciona Marinho à Rockbridge Network, rede ligada a financiadores políticos conservadores nos Estados Unidos. André Marinho confirmou ao portal que analisou a possibilidade de instalação de uma estrutura da Rockbridge no Brasil e teria aproximado o empresário Pedro Sang do grupo. Sang aparece em acusações feitas pelo candidato Renan Santos, do Missão, de que recursos americanos teriam chegado à campanha de Flávio Bolsonaro. Até a publicação da reportagem, porém, não haviam sido apresentadas provas de financiamento estrangeiro da campanha, ponto que precisa ser separado do conteúdo efetivamente comprovado do documento.
André Marinho negou que as duas questões estejam relacionadas. Em afirmou que o estudo foi produzido por iniciativa própria e que nunca o enviou ou apresentou a autoridades dos Estados Unidos. Ele também disse que sua viagem ao país não teve relação com o tema e que não houve pedido ou orientação da campanha de Flávio Bolsonaro para elaboração do material. Marinho negou ainda ter participado ou presenciado qualquer negociação envolvendo recursos estrangeiros para campanhas eleitorais brasileiras.
A campanha de Flávio Bolsonaro, não havia respondido às perguntas enviadas pelo veículo até a publicação da reportagem. Entre os questionamentos estavam se o documento havia sido encomendado pela campanha, se suas propostas receberam algum tipo de anuência e se existia a expectativa de apresentá-lo a interlocutores dos Estados Unidos.
Fonte: reportagem de Guilherme Amado e João Pedroso de Campos, publicada pelo Amado Mundo. Acesse a reportagem original no Amado Mundo







