ABIPTI e Softex unem esforços na nova política tecnológica brasileira

ABIPTI (Associação Brasileira das Instituições de Pesquisa Tecnológica e Inovação) e Softex (Associação para Promoção da Excelência do Software Brasileiro) assinaram um memorando de entendimento, com duração de cinco anos, para desenvolver projetos conjuntos de pesquisa, desenvolvimento e inovação em Tecnologia da Informação e Comunicação. O documento não anuncia investimentos nem projetos específicos, mas monta uma estrutura de cooperação que poderá ser usada para disputar, organizar e executar iniciativas vinculadas às políticas públicas de tecnologia. A aproximação entre a ABIPTI e a Softex acontece num momento em que o governo tenta transformar inteligência artificial, semicondutores, microeletrônica e infraestrutura digital em áreas prioritárias da política industrial brasileira. E é justamente nesse espaço que as duas entidades querem atuar juntas.

O movimento é relevante porque aproxima duas pontas importantes desse mercado. A ABIPTI reúne instituições de pesquisa e inovação espalhadas pelo país. A Softex tem histórico de relacionamento com empresas, startups, universidades e governo e participa da execução de programas de desenvolvimento tecnológico.

A aproximação entre as entidades acontece num momento em que o governo tenta transformar inteligência artificial, semicondutores, microeletrônica e infraestrutura digital em áreas prioritárias da política industrial brasileira. E é justamente nesse espaço que as duas entidades querem atuar juntas. Na prática, a parceria tenta criar uma ponte entre quem pesquisa e quem transforma pesquisa em produto, serviço ou negócio.

O memorando cita expressamente algumas das áreas que ganharam espaço na agenda federal nos últimos anos: inteligência artificial, semicondutores, microeletrônica, transformação digital e fortalecimento da indústria nacional. Também prevê atuação em iniciativas apoiadas pela Lei de Informática, projetos para a Amazônia, transferência de tecnologia, formação de profissionais e aceleração de startups.

Isso coloca a parceria em sintonia com uma mudança mais ampla na política tecnológica brasileira. Depois de anos em que boa parte da digitalização do país foi sustentada pela aquisição de tecnologias prontas, inclusive de fornecedores estrangeiros, o discurso do governo passou a enfatizar desenvolvimento local, domínio tecnológico e redução de dependências externas.

Essa orientação aparece em programas voltados à inteligência artificial, semicondutores e digitalização da indústria. O desafio, porém, continua sendo transformar dinheiro público destinado à pesquisa e incentivos fiscais em tecnologia efetivamente desenvolvida no país e, principalmente, em produtos capazes de chegar ao mercado. É exatamente nessa passagem entre laboratório e mercado que ABIPTI e Softex procuram se posicionar.

Para as Instituições de Ciência, Tecnologia e Inovação (ICTs) ligadas à ABIPTI, o acordo pode significar acesso mais direto a empresas, startups e programas de financiamento. Para a Softex, representa uma aproximação de uma rede de instituições que dispõe de pesquisadores, laboratórios e conhecimento técnico que podem ser utilizados na montagem de projetos de maior porte.

Há ainda uma segunda frente, que é a internacionalização. O acordo prevê iniciativas para ajudar empresas brasileiras de base tecnológica a colocar produtos e serviços no exterior. A ambição, portanto, não é apenas substituir tecnologia importada, mas tentar criar empresas brasileiras capazes de competir fora do país.

O presidente da ABIPTI, Diego Menezes, afirma que o país já dispõe da base científica necessária. “O Brasil tem competência, conhecimento e uma comunidade de inovação altamente qualificada. Ao unirmos esforços com a Softex, ampliamos as possibilidades de transformar esse potencial em resultados concretos, fortalecendo a competitividade nacional e contribuindo para o desenvolvimento tecnológico do país.”

Christian Tadeu, presidente da Softex, resumiu a lógica da parceria como a união de duas competências: produção científica e capacidade de transformar inovação em mercado. “De um lado, a capacidade de pesquisa e produção de conhecimento científico. De outro, a experiência em articular o setor produtivo, incentivar o empreendedorismo tecnológico e transformar inovação em oportunidades de mercado”, afirmou.

A declaração toca num problema antigo da política de inovação brasileira. O país possui universidades, centros de pesquisa e instrumentos de financiamento, mas enfrenta dificuldades para transformar parte dessa produção científica em empresas, produtos e propriedade intelectual com escala comercial.

Por enquanto, o acordo entre ABIPTI e Softex é apenas um guarda-chuva institucional. Não há projetos, valores ou fontes de financiamento anunciados. Sua importância dependerá justamente do que vier depois: quais programas públicos serão utilizados, quanto dinheiro será mobilizado, quais empresas e ICTs participarão e, sobretudo, quanto da tecnologia resultante será efetivamente desenvolvida e controlada no Brasil.

É aí que o memorando poderá deixar de ser apenas uma declaração de intenções e passar a ocupar espaço concreto na nova política tecnológica brasileira.