
A disputa tecnológica entre Estados Unidos e China ganhou uma nova frente nesta semana: o uso de modelos de inteligência artificial de uma empresa para acelerar o desenvolvimento de sistemas concorrentes. Em um alerta conjunto publicado ontem (08), a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA), a Agência de Segurança Cibernética e de Infraestrutura (CISA) e o FBI acusaram seis empresas chinesas de realizar campanhas de “destilação” em escala industrial contra modelos de IA desenvolvidos por companhias americanas.
O documento, intitulado China-Based Artificial Intelligence Companies Conducting Industrial-Scale Distillation Campaigns Against U.S. AI Companies, cita nominalmente DeepSeek, Moonshot AI, Alibaba, MiniMax, StepFun e Z.AI. Segundo as agências americanas, essas empresas teriam extraído bilhões de tokens em milhões de consultas feitas a modelos de fronteira desde pelo menos o fim de 2024. Entre os sistemas mencionados estão diferentes versões de Claude, GPT, Gemini e Grok. O relatório afirma ainda que as operações teriam ocorrido “provavelmente com conhecimento” do governo chinês uma avaliação das autoridades americanas que Pequim contesta.
A destilação, por si só, não é considerada uma prática ilícita. Trata-se de uma técnica conhecida no desenvolvimento de IA em que um modelo, muitas vezes chamado de “professor”, é usado para gerar respostas ou conhecimentos que ajudam no treinamento de outro modelo. O próprio documento americano reconhece que a destilação é uma ferramenta legítima de pesquisa. A mudança está no enquadramento dado pelos órgãos de segurança dos EUA a determinadas operações realizadas em grande escala, que são descritas como “agressivas, maliciosas e direcionadas”.
Na avaliação das agências, o problema não estaria apenas em um modelo aprender com outro, mas na maneira como esse acesso teria sido obtido e organizado. O relatório afirma que empresas chinesas teriam distribuído consultas por diferentes provedores, serviços de nuvem, agregadores de APIs e redes de intermediários para reduzir a possibilidade de detecção. Também são citadas estruturas conhecidas como “transfer stations”, um mercado de proxies usado, segundo o governo americano, para driblar restrições geográficas e ocultar a origem das solicitações.
O alerta menciona ainda a criação de contas que as autoridades classificam como fraudulentas, compartilhamento de assinaturas premium entre equipes, consultas automatizadas em grande volume, técnicas de jailbreak e tentativas de obter informações sobre os processos de raciocínio dos modelos. Em alguns casos, as agências apontam volumes que variavam de milhares a milhões de consultas sobre um mesmo domínio técnico.
A NSA, a CISA e o FBI sustentam que esse tipo de operação permitiria reduzir parte dos custos associados ao desenvolvimento de modelos avançados, incluindo capacidade computacional, consumo de eletricidade, geração de dados e pesquisa fundamental. Com isso, a discussão sobre a corrida da IA começa a sair do campo tradicional dos chips e data centers e chega ao próprio acesso remoto aos modelos por APIs.
A DeepSeek recebe atenção especial no documento. As agências afirmam que a empresa teria consultado diferentes versões de Claude, Gemini, GPT e Grok para gerar dados sintéticos e desenvolver funções empregadas nos modelos R1 e V3. Entre as capacidades mencionadas estão raciocínio, funções agênticas, tarefas envolvendo APIs, escrita, programação e especializações em determinados domínios.
O relatório também questiona a interpretação do custo de treinamento de aproximadamente US$ 5,6 milhões associado ao DeepSeek-V3. Para as autoridades americanas, esse valor não refletiria todo o custo econômico necessário para produzir as capacidades do sistema caso parte dos dados e conhecimentos tenha sido obtida por meio da destilação de modelos de terceiros. A afirmação é uma avaliação do governo dos EUA, e não uma nova estimativa independente dos custos da DeepSeek.
A Alibaba, por sua vez, é acusada de ter recorrido aos modelos Claude e GPT-5 para aprimorar características relacionadas a engenharia de software, atendimento, criação de personagens, treinamento supervisionado e fluxos agênticos. Moonshot AI, MiniMax, StepFun e Z.AI também aparecem individualmente no documento, acompanhadas dos modelos americanos que teriam sido consultados e das capacidades que, segundo as agências, estavam sendo buscadas.
A reação chinesa veio em 9 de setembro. Em comunicado oficial, o Ministério do Comércio da China (MOFCOM) rejeitou as acusações americanas, afirmando que elas não teriam base factual ou jurídica. Pequim argumenta que a destilação é uma técnica neutra e amplamente utilizada no setor de IA, inclusive por empresas americanas, e acusa Washington de transformar uma questão tecnológica e comercial em instrumento de disputa geopolítica.
O Ministério do Comércio também acusou os Estados Unidos de adotar um padrão desigual ao criticar empresas chinesas pelo uso de destilação enquanto empresas de outros países recorrem à mesma técnica. O governo chinês afirmou que pretende manter o diálogo sobre inteligência artificial, mas declarou que poderá adotar medidas de resposta caso Washington transforme as acusações em ações concretas contra companhias chinesas.
Por enquanto, o alerta americano não cria novas sanções, controles de exportação ou proibições de acesso. Trata-se de um Cybersecurity Advisory, com orientações dirigidas principalmente a desenvolvedores de modelos, provedores de nuvem, agregadores de APIs e empresas responsáveis pela infraestrutura utilizada para acessar sistemas de IA.
Entre as principais recomendações estão ampliar a identificação de contas e consultas anormais, observar padrões como uso máximo imediatamente após a abertura de uma conta e grandes volumes contínuos de solicitações e correlacionar informações entre diferentes empresas. As autoridades também sugerem que os provedores possam alterar de maneira direcionada as respostas oferecidas a contas consideradas suspeitas, diminuindo a utilidade do material coletado para treinamento de outros modelos.
O terceiro ponto é particularmente relevante: NSA, CISA e FBI defendem o compartilhamento de inteligência entre laboratórios de IA, plataformas de nuvem e agregadores de APIs para identificar campanhas distribuídas entre diferentes serviços. Na prática, o governo americano passa a tratar determinadas formas de destilação de modelos de maneira semelhante a outras ameaças acompanhadas pelo setor de cibersegurança.
Brasil
Para o Brasil, o episódio abre uma discussão que pode ganhar importância à medida que avançam os investimentos nacionais em inteligência artificial: até onde modelos brasileiros podem utilizar respostas e dados sintéticos produzidos por sistemas estrangeiros para treinamento sem enfrentar questionamentos contratuais, de propriedade intelectual ou de acesso?
O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) 2024-2028 prevê, entre seus objetivos, o desenvolvimento de modelos avançados de linguagem em português, infraestrutura computacional nacional e ações voltadas à soberania tecnológica. O plano tem investimentos previstos de cerca de R$ 23 bilhões e envolve recursos e iniciativas de instituições como Finep, FNDCT e BNDES.
BNDES e Finep também lançaram em 2026 uma chamada para um fundo destinado a startups intensivas em inteligência artificial no contexto do PBIA, com participação de recursos públicos. Nesse cenário, a origem dos dados sintéticos utilizados para treinar sistemas nacionais pode se transformar em um tema de governança. Editais, contratos e projetos financiados pelo poder público poderão, no futuro, precisar estabelecer critérios mais claros sobre quais modelos podem ser usados para produzir dados de treinamento, quais termos de serviço precisam ser respeitados e como documentar a procedência desse material.
A mesma questão pode alcançar a administração pública. Caso órgãos ou empresas estatais brasileiras usem APIs estrangeiras para desenvolver ou aperfeiçoar agentes próprios, limites de volume, finalidade de utilização e proibições contratuais relacionadas ao treinamento de outros modelos poderão ganhar maior peso. Não há, no alerta americano, qualquer acusação envolvendo projetos brasileiros, Serpro ou Dataprev; o impacto para essas instituições é, neste momento, uma questão de prevenção e governança, não de responsabilização.
A dimensão geopolítica também pode ser mais ampla. Se o entendimento apresentado pelas agências de segurança americanas for posteriormente convertido em medidas comerciais, controles de exportação ou restrições de acesso, a disputa tecnológica entre Washington e Pequim poderá passar a envolver não apenas a venda de GPUs e equipamentos para data centers, mas também quem pode consultar remotamente determinados modelos e para qual finalidade.
Isso acrescenta uma nova camada ao debate sobre soberania digital. Ter data centers, chips ou capacidade computacional própria não significa necessariamente possuir independência tecnológica se o desenvolvimento de modelos nacionais continuar dependendo de grandes volumes de dados sintéticos e capacidades produzidas por sistemas estrangeiros.
Por enquanto, porém, essa possibilidade permanece no campo das consequências potenciais. O documento de 8 de setembro é um alerta técnico e de cibersegurança. Não estabelece calendário de novas restrições e não anuncia penalidades contra as seis empresas chinesas citadas. O que muda é o enquadramento: o governo americano colocou formalmente determinadas práticas de destilação em escala industrial dentro de sua agenda de segurança cibernética e nacional.
Fontes oficiais: Comunicado da NSA de 8 de setembro de 2026 | Documento técnico integral de NSA, CISA e FBI — 18 páginas | Resposta oficial do Ministério do Comércio da China, de 9 de setembro | Plano Brasileiro de Inteligência Artificial — MCTI.







