IA devora eletricidade na Ásia e antecipa desafio bilionário para o Redata

A corrida para transformar o Brasil em polo internacional de data centers pode colocar o setor elétrico diante de uma demanda de energia de dimensão até pouco tempo inexistente no planejamento nacional. Enquanto Malásia e Coreia do Sul começam a rever seus planos de geração por causa da expansão da inteligência artificial, o Ministério de Minas e Energia já contabiliza no Brasil 38 gigawatts (GW) em pedidos de acesso de data centers ao sistema elétrico.

O número brasileiro chama atenção quando comparado com o tamanho do próprio sistema. No cenário de referência do Plano Decenal de Expansão de Energia 2035, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) estima que a carga média de todo o Sistema Interligado Nacional (SIN) chegará a aproximadamente 115 GW médios em 2035. No cenário de crescimento mais acelerado, que considera maior presença de grandes projetos de data centers e produção de hidrogênio, seriam 138 GW médios.

A comparação, porém, precisa ser feita com cuidado. Os 38 GW divulgados pelo MME correspondem a pedidos de acesso, isto é, potência pretendida por empreendimentos que procuram conexão ao sistema. Não representam consumo efetivo, tampouco significam que todos os projetos serão construídos. Os 115 GW do PDE, por sua vez, representam carga média efetivamente projetada para todo o sistema.

A diferença entre esses conceitos pode se transformar em uma das questões centrais do planejamento elétrico provocado pelo Redata: descobrir quanto da avalanche de projetos anunciados corresponde a data centers que efetivamente sairão do papel e qual será sua demanda simultânea por eletricidade.

O próprio MME já reconhece a velocidade da mudança. Em setembro de 2024, havia 22 projetos registrados, que poderiam alcançar 9 GW até 2035. Em dezembro de 2025, a demanda solicitada já alcançava 28,5 GW. Em junho deste ano, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, informou que o volume havia chegado a 38 GW de pedidos de parecer de acesso. Dentro desse universo, segundo ele, 7,1 GW representavam investimentos estimados em R$ 159 bilhões.

A escalada brasileira ocorre justamente quando outros países começam a descobrir que atrair infraestrutura de inteligência artificial significa também redesenhar partes de seus sistemas elétricos.

Alerta malaio

O exemplo mais recente vem da Malásia, segundo informou a Agência Reuters. Dados apresentados na terça-feira (08) pela Comissão de Energia do país mostram que os data centers chegaram a responder por 9,3% do consumo nacional de eletricidade na segunda semana de agosto, recorde que supera significativamente a média de aproximadamente 7% registrada ao longo deste ano.

O calor ajudou a provocar o salto. Segundo a presidente-executiva da Comissão de Energia da Malásia, Siti Safinah Salleh, temperaturas mais elevadas fizeram os sistemas de refrigeração dos data centers consumirem muito mais eletricidade.

A projeção de longo prazo é ainda mais expressiva: a Agência Reuters informa que os data centers poderão representar até 31% da demanda de eletricidade da Malásia peninsular em 2035. Para sustentar o crescimento do consumo enquanto abandona gradualmente o carvão, o país estima que precisará acrescentar cerca de 9 GW de capacidade de geração a gás até 2032.

O caso revela um paradoxo que interessa diretamente ao Brasil. Um data center pode contratar eletricidade renovável ou de baixa emissão e, individualmente, cumprir exigências ambientais. Mas a entrada simultânea de grandes consumidores pode exigir do sistema novas fontes capazes de fornecer potência firme e energia continuamente.

Na Malásia, essa resposta está sendo buscada no gás natural. Portanto, a eletricidade contratada pelo empreendimento não conta toda a história ambiental. É necessário observar como o sistema elétrico inteiro precisa se expandir para acomodar a nova carga.

Vantagem brasileira

Esse é precisamente um dos pontos que deverão acompanhar a implantação do Redata no Brasil. O país parte de uma posição muito diferente da malaia. Segundo o Balanço Energético Nacional 2026, elaborado pela EPE com dados de 2025, 86,8% da matriz elétrica brasileira é renovável. Hidrelétricas continuam dominantes e a expansão de solar e eólica tem sido acelerada. Somadas, solar e eólica responderam por 26,4% da geração de eletricidade no país em 2025.

Mas existe um sinal importante no mesmo balanço: apesar da elevada participação renovável, a geração termelétrica aumentou 12,3% em 2025, chegando a 169,9 TWh, enquanto o consumo de gás natural destinado à geração elétrica cresceu 22,7%. A própria EPE relaciona a redução da participação renovável, de 88,2% em 2024 para 86,8% em 2025, à menor geração hidráulica e ao aumento da geração a gás.

Isso demonstra que uma matriz predominantemente renovável não elimina a necessidade de fontes despacháveis em determinadas condições de operação. E data centers têm uma característica particularmente relevante: são grandes consumidores que buscam funcionamento praticamente contínuo.

A EPE já passou a tratá-los explicitamente como grandes cargas capazes de impactar diretamente o planejamento da expansão da transmissão. A empresa afirma que acompanha os pedidos de conexão porque as previsões de potência desses empreendimentos precisam ser consideradas no dimensionamento da rede e na expansão da geração.

O problema deixou de ser teórico. Pouco mais de 60 dias depois da publicação original do Redata, em setembro de 2025, a EPE registrou acréscimo de 6,4 GW em novos projetos apresentados ao MME para estudos de conexão à Rede Básica. O total passou de 19,8 GW em setembro para 26,2 GW em novembro daquele ano. A própria estatal fez uma ressalva que agora ganha importância: a concretização desses projetos está sujeita a múltiplos condicionantes.

Quanto é real?

Essa diferença entre intenção de investimento e consumo efetivo tornou-se crucial. Em junho de 2025, o MME contabilizava 52 pedidos de acesso de data centers à Rede Básica. Dezoito já tinham recebido portarias reconhecendo a alternativa técnica de conexão e outros 34 permaneciam em análise. Um ano depois, o ministro Alexandre Silveira passou a falar em 38 GW de pedidos de parecer de acesso.

A dimensão desse número pode ser percebida por outra comparação. O consumo final brasileiro de eletricidade foi de 667,8 TWh em 2025, segundo o BEN 2026. Isso corresponde, em termos puramente aritméticos, a uma potência média de aproximadamente 76 GW ao longo do ano.

Assim, os 38 GW atualmente reivindicados pelos projetos de data centers equivalem, em potência solicitada, a aproximadamente metade desse consumo médio nacional de 2025. Novamente, isso não significa que data centers passarão a consumir metade da eletricidade do Brasil. Pelo contrário: a comparação mostra por que o governo precisa determinar quanto desses 38 GW é efetivamente realizável. Mesmo o subconjunto de 7,1 GW destacado pelo ministro de Minas e Energia já seria uma carga expressiva caso os projetos operassem simultaneamente perto dessa potência.

É nesse ponto que aparece o risco da chamada “demanda fantasma”: empresas podem apresentar projetos, reservar possibilidades de conexão ou disputar capacidade de rede antes de terem decisão definitiva de investimento. Se vários pedidos referentes a projetos concorrentes forem tratados como cargas futuras certas, o planejamento pode superestimar a necessidade real de expansão. Se ocorrer o contrário e projetos considerados improváveis forem efetivamente construídos, transmissão e geração podem chegar atrasadas.

Calor e potência

A experiência da Malásia acrescenta uma variável que merece entrar na discussão brasileira: temperatura. O planejamento não pode considerar somente quantos terawatts-hora um data center consumirá ao longo do ano. Precisa determinar também quanta potência ele exigirá simultaneamente do sistema e como essa demanda se comportará em períodos de temperaturas elevadas.

O consumo destinado à refrigeração varia conforme arquitetura, localização, tecnologia utilizada e eficiência energética da instalação. É justamente por isso que o PUE, indicador que relaciona a energia total consumida pelo data center à eletricidade efetivamente utilizada pelos equipamentos computacionais, ganha importância energética e não apenas ambiental.

A diferença parece pequena quando observada em um único empreendimento. Torna-se relevante quando dezenas de grandes instalações operam simultaneamente. E o problema pode coincidir com momentos em que o restante do sistema também está pressionado pelo calor. Residências e estabelecimentos comerciais elevam o uso de ar-condicionado enquanto os próprios data centers precisam aumentar sua refrigeração.

Em julho deste ano, por exemplo, o consumo nacional de eletricidade chegou a 46.841 GWh, crescimento de 3,7% sobre julho de 2025. O consumo residencial aumentou 7% e o comercial, 6,3%. Nos 12 meses encerrados em julho, o país havia consumido 572.154 GWh.

O episódio malaio sugere, portanto, uma pergunta que vai além da quantidade anual de energia disponível: qual será a potência requerida pelos data centers brasileiros exatamente nos momentos de maior estresse do sistema?

Cenário extremo

A EPE já começou a colocar parte desse risco nas projeções oficiais. O PDE 2035 foi o primeiro a incorporar de forma mais explícita as chamadas “cargas especiais”, grupo que reúne data centers, produção de hidrogênio por eletrólise e eletromobilidade.

No cenário de referência, o consumo total de eletricidade do Brasil chegaria a 939 TWh em 2035. No cenário superior, alcançaria 1.118 TWh. Dependendo das premissas, as cargas especiais poderão representar entre 1,2% e 12,9% da demanda total de eletricidade em 2035. No cenário mais favorável à expansão desses investimentos, as cargas especiais atingiriam aproximadamente 131 TWh em 2035. A EPE diz expressamente que esse cenário considera a entrada de grandes projetos de data centers e produção de hidrogênio.

Há, contudo, uma limitação importante para o debate sobre o Redata: esses números agregam diferentes novas cargas. Não permitem concluir diretamente quanto, isoladamente, os data centers representarão do consumo brasileiro em 2035. Essa é justamente a informação que passa a ser necessária diante dos 38 GW em pedidos de acesso.

Vinte reatores

O segundo alerta internacional veio nesta mesma terça-feira da Coreia do Sul. O ministro do Clima, Energia e Meio Ambiente sul-coreano, Kim Sung-whan, afirmou que a expansão da inteligência artificial, combinada aos novos complexos de fabricação de semicondutores, poderá acrescentar 25 GW a 30 GW à demanda elétrica do país.

Para dimensionar o tamanho do desafio, o próprio governo fez uma comparação: caso toda essa capacidade adicional tivesse de ser atendida por geração nuclear, corresponderia aproximadamente à potência de 20 reatores do padrão atualmente utilizado pela Coreia do Sul. O país possui hoje 26 reatores, responsáveis por pouco menos de um terço de sua eletricidade.

O governo prepara uma revisão de seu planejamento energético até 2040 e, segundo a Reuters, avalia se será necessário construir novas usinas nucleares. Ao mesmo tempo, o país pretende abandonar o carvão até aquele ano. O ministro sul-coreano classificou a energia nuclear como elemento que precisa ser considerado na composição futura da matriz.

A experiência sul-coreana aproxima a discussão internacional de outra questão que começa a surgir no Brasil: a eventual utilização da energia nuclear para garantir geração firme e de baixa emissão destinada à expansão da infraestrutura digital.

EUA

Ontem (08), o Departamento de Energia dos Estados Unidos anunciou o fechamento de um empréstimo de até US$ 1,9 bilhão para a NextEra Energy financiar a reativação da usina nuclear Duane Arnold Energy Center, em Iowa. A instalação, fechada desde 2020, tem 615 MW de capacidade e deverá voltar a fornecer energia de base ao sistema elétrico regional.

Na justificativa oficial do DOE, o governo afirma expressamente que a reativação ajudará a atender o crescimento da demanda associado à infraestrutura de nuvem e inteligência artificial. Ou seja, não se trata apenas de uma política nuclear ou de confiabilidade da rede; o financiamento público está sendo usado para ampliar geração firme destinada, entre outros fatores, ao avanço da infraestrutura computacional.

O projeto deverá gerar aproximadamente 1.500 empregos durante construção e reforma e mais de 462 empregos permanentes. A usina, quando retomada, terá capacidade equivalente ao consumo de quase 500 mil residências. A volta à operação depende ainda das autorizações da Nuclear Regulatory Commission.

Vantagem brasileira?

É esse estágio da discussão que o Redata pode antecipar no Brasil. O país possui uma vantagem que poucos concorrentes internacionais conseguem oferecer: uma matriz elétrica 86,8% renovável. Mas os números apresentados pelo próprio governo mostram que a discussão já não pode se limitar à existência de energia renovável suficiente em termos anuais.

O desafio será saber quanto dos 38 GW solicitados realmente sairá do papel, onde essas cargas estarão concentradas, quando entrarão em operação, quanto exigirão simultaneamente da rede e que geração estará disponível para sustentá-las continuamente, inclusive durante secas, ondas de calor e horários críticos do sistema.

A corrida brasileira pelos data centers, portanto, pode começar como política industrial e digital promovida pelo Redata, mas seus efeitos deverão chegar rapidamente ao planejamento da transmissão, aos leilões de geração e à discussão sobre gás, armazenamento e energia nuclear.

A pergunta que Malásia e Coreia do Sul já começaram a responder está agora colocada para o Brasil: quais usinas precisarão ser construídas para fornecer a eletricidade que a inteligência artificial vai consumir?