
Uma corrida pelo direito de pesquisar tungstênio está redesenhando o mapa mineral do Rio Grande do Norte e avançando sobre a Paraíba, justamente quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende reunir o governo para discutir os próximos passos da política brasileira de minerais críticos e estratégicos, após ter se reunido com os presidentes das duas casas legislativas para acelerar a votação do marco regulatório dos minerais críticos. O movimento, facilmente identificado por atos publicados no Diário Oficial da União, ocorre em meio a uma disputa internacional na qual China, Estados Unidos e Europa procuram assegurar novas fontes de matérias-primas consideradas essenciais para tecnologia, indústria e defesa.
Levantamento realizado a partir de atos da Agência Nacional de Mineração (ANM) no Diário Oficial, identificou três empresas que, somente nos alvarás já quantificados, passaram a deter direitos de pesquisa sobre 15.003,97 hectares relacionados ao tungstênio ou à scheelita, um dos principais minerais dos quais se extrai o metal. O Tungstênio não faz parte dos 17 minerais que compõem as terras raras. Mas está na categoria dos minerais estratégicos, por causa da sua aplicação em setores de tecnologia e defesa.
A dimensão das áreas liberadas pela ANM equivale a aproximadamente 21 mil campos de futebol, considerando como referência um campo de 105 metros por 68 metros.
Não são minas concedidas nem reservas comprovadas. Os alvarás asseguram às empresas o direito de pesquisar os polígonos durante o período autorizado. Mas é justamente aí que começa a disputa: a existência de direitos minerários anteriores pode impedir que outros interessados obtenham autorização sobre as mesmas áreas.
Entre os beneficiários aparecem empresas recém-criadas, companhias com capital social declarado de apenas R$ 50 mil ou R$ 100 mil e empresários relacionados a outros projetos de minerais estratégicos.
A movimentação ganha relevância política depois de Lula acertar com os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre, e da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, a inclusão do projeto dos minerais críticos entre as prioridades do esforço concentrado do Congresso. Ao tratar do assunto, o presidente demonstrou preocupação com a velocidade de entrada de interesses estrangeiros no setor ao afirmar que “já tem muita gente estrangeira comprando aquilo que ainda nem regulamos”.
O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, informou ainda que Lula convocou ministros para discutir os desdobramentos da política de minerais críticos e os instrumentos que poderão ser adotados pelo Executivo. Para compreender por que alguns milhares de hectares no interior do Rio Grande do Norte e da Paraíba ganharam importância geopolítica, é necessário entender o que existe por trás do nome tungstênio.
Metal tecnológico
O metal possui uma combinação excepcional de propriedades físicas. Tem o maior ponto de fusão entre os metais puros, elevada densidade, grande resistência mecânica e capacidade de operar em condições extremas de calor e desgaste. Quando combinado com carbono, produz carbeto de tungstênio, material extremamente duro. Na prática, isso coloca o tungstênio nas ferramentas capazes de fabricar outras coisas.
Brocas, fresas e ferramentas de corte contendo carbeto de tungstênio são empregadas para furar, cortar e usinar materiais de alta resistência. O metal aparece em equipamentos de mineração e construção, ligas especiais, componentes elétricos, eletrodos, equipamentos de soldagem e produtos submetidos a elevado desgaste.
O Serviço Geológico dos Estados Unidos, conhecido pela sigla em inglês USGS (United States Geological Survey), classifica o tungstênio como necessário para aplicações estratégicas, comerciais e industriais e destaca sua dureza, resistência e elevado ponto de fusão. Isso também o aproxima diretamente da indústria tecnológica. Uma fábrica de equipamentos avançados depende de máquinas e ferramentas capazes de cortar e moldar metais e outros materiais com enorme precisão. Muitas dessas ferramentas utilizam carbeto de tungstênio.
Há ainda aplicações aeroespaciais e militares. A elevada densidade do metal permite sua utilização em ligas pesadas e aplicações de defesa, enquanto sua resistência térmica interessa a motores, turbinas e equipamentos submetidos a condições extremas. O tungstênio, portanto, não aparece para o consumidor como o lítio de uma bateria. Sua importância está muitas vezes escondida dentro das máquinas, ferramentas e componentes necessários para construir produtos tecnologicamente sofisticados.
Domínio chinês
Essa importância industrial torna a concentração mundial da oferta especialmente sensível. Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos, a China produziu aproximadamente 67 mil toneladas de tungstênio em 2025, diante de uma produção mundial estimada em 85 mil toneladas. Isso significa que praticamente quatro de cada cinco toneladas extraídas no planeta vieram da China.
Pequim possui uma posição ainda mais relevante quando se observa o conjunto das cadeias de minerais críticos. A própria Agência Nacional de Mineração, citando dados da Agência Internacional de Energia, conhecida pela sigla em inglês IEA (International Energy Agency), informa que a China responde, em média, por aproximadamente 70% da capacidade mundial de refino de minerais críticos. Em terras raras, chega a aproximadamente 85% a 90% do refino e a cerca de 90% da fabricação de ímãs permanentes.
A agência brasileira reconhece que China, Estados Unidos e União Europeia possuem interesse nos minerais brasileiros dentro de uma estratégia de diversificação das cadeias de suprimento, redução da dependência de fornecedores concentrados e segurança energética e tecnológica. No caso específico do tungstênio, Pequim passou em fevereiro de 2025 a controlar exportações de determinados produtos.
As restrições chinesas ocorreram em meio a uma forte valorização internacional e aumentaram a importância econômica de novas fontes de tungstênio fora da China. Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos, em Roterdã a referência do concentrado com 65% de tungstênio passou de US$ 266 para US$ 551 por unidade métrica de tonelada, enquanto o paratungstato de amônio, produto intermediário importante da cadeia, saltou de US$ 331 para US$ 675. Ao mesmo tempo, novos projetos no Canadá e nos Estados Unidos passaram a receber recursos associados à Defense Production Act, a Lei de Produção de Defesa norte-americana.
Esse cenário desencadeou uma busca internacional por fontes alternativas e ajuda a explicar por que áreas ainda em fase de pesquisa ganharam importância. Não é possível afirmar, apenas pelos alvarás da Agência Nacional de Mineração, que a alta dos preços tenha motivado diretamente os pedidos da Jamari Metais, Brazilian Strategic Minerals e Brazil Mining. Mas as autorizações brasileiras estão sendo concedidas justamente quando restrições chinesas, valorização do metal e políticas governamentais transformaram novas fontes de tungstênio fora da China em ativos mais valiosos econômica e estrategicamente.
É nesse novo cenário internacional que milhares de hectares no Nordeste brasileiro entram no radar da mineração.
Corrida potiguar
A maior movimentação identificada no levantamento é da Jamari Metais Ltda., constituída em junho de 2023 e sediada em Ariquemes, Rondônia. Em poucos dias de agosto, a empresa recebeu uma sequência de autorizações para pesquisar minério de tungstênio no Rio Grande do Norte e na Paraíba.
Em Santana do Matos, foram 1.964,11 hectares. Em Serra Negra do Norte, outros 1.216,58 hectares. A autorização neste último caso é explícita ao permitir a pesquisa de minério de tungstênio durante três anos. Entre Caicó e São João do Sabugi, a companhia recebeu mais 1.193,11 hectares. Outro título exclusivamente em Caicó acrescentou 737,84 hectares. A expansão chegou à Paraíba. Em Belém do Brejo do Cruz, a Jamari obteve outros 1.985,62 hectares.
Somente esses cinco títulos somam 7.097,26 hectares, área equivalente a quase 10 mil campos de futebol.
Os alvarás foram expedidos praticamente em sequência, em meados de agosto. Não se trata, portanto, de uma carteira formada ao longo de décadas, mas de direitos concedidos agora, em um momento de valorização internacional do tungstênio. Há ainda uma obrigação importante: os títulos determinam o início dos trabalhos de pesquisa em até 60 dias, sob pena das sanções previstas no Código de Mineração. Também deixam claro que o alvará não substitui as licenças ambientais necessárias.
Quem é Jamari
A extensão dos direitos chama atenção quando comparada ao porte societário declarado da empresa. A Jamari possui capital social de R$ 400 mil. Seu quadro societário é formado por Liwen Hao, sócio-administrador desde junho de 2023, e Yaxian Liu, que ingressou na sociedade em novembro de 2024.
Os nomes dos dois empresários são de origem aparentemente chinesa, mas não foi possível comprovar a nacionalidade de Liwen Hao ou Yaxian Liu nos documentos públicos consultados, tampouco demonstrar que o capital da Jamari seja chinês ou de qualquer outra nacionalidade estrangeira.
A distinção é necessária. A origem de um nome não constitui prova de nacionalidade, cidadania, residência ou procedência do capital. Portanto, não há elementos para apresentar a Jamari como empresa chinesa.
O dado ganha interesse apenas pelo contexto internacional. A China é o maior produtor mundial de tungstênio, domina parcelas importantes do processamento de minerais críticos e possui reconhecido interesse nas cadeias brasileiras desses materiais. Não foi encontrado, porém, elemento documental que permita relacionar esse interesse geopolítico à Jamari.
Há, entretanto, outra movimentação empresarial de Liwen Hao que merece atenção. Em 2 de junho de 2026, foi aberta em Parnamirim, no Rio Grande do Norte, uma empresa individual em seu nome, com capital declarado de R$ 1 milhão. A atividade econômica principal registrada é a extração de minérios de nióbio e titânio. Isso significa que o administrador da Jamari não está se posicionando empresarialmente apenas em tungstênio. No mesmo ano em que a companhia recebeu milhares de hectares para pesquisar esse metal, Liwen Hao constituiu outra operação no Rio Grande do Norte dedicada a dois outros minerais relevantes para cadeias industriais.
Mais áreas
A Brazilian Strategic Minerals Ltda. constitui outro movimento recente. A empresa recebeu direitos para pesquisar scheelita em Angicos, no Rio Grande do Norte. Scheelita não é um mineral desconectado do tungstênio: é justamente uma das principais fontes minerais das quais o metal é obtido.
Um dos alvarás concedeu 1.531,12 hectares. Outro acrescentou 1.531,86 hectares. Somadas, as duas áreas chegam a 3.062,98 hectares, equivalentes a aproximadamente 4.290 campos de futebol.
A Brazilian Strategic Minerals foi criada em 15 de janeiro de 2025, em Natal. Seu capital social declarado é de R$ 100 mil, e seu único sócio-administrador registrado é Joanderson Batista Pereira Araujo. Não aparece diretamente no quadro societário disponível da companhia uma pessoa jurídica estrangeira. Portanto, os documentos consultados não permitem classificá-la como empresa controlada por capital externo.
A trajetória empresarial de seu único sócio, porém, leva a outras companhias do setor mineral.
Rede mineral
Joanderson Batista Pereira Araujo aparece relacionado à administração ou participação em outras companhias do setor, entre elas International Mining Participações Ltda., IMC Rare Earths Participações Ltda. e Ionic Clays Brazil Ltda. Essas relações não significam, por si só, que a Brazilian Strategic Minerals pertença a essas empresas ou seja controlada por capital estrangeiro. Não foi encontrada documentação que permita fazer essa afirmação.
A conexão empresarial torna-se mais concreta em outra companhia que também recebeu direitos para pesquisar scheelita no Rio Grande do Norte: a Brazil Mining Importação e Exportação Ltda. Criada em maio de 2022, com sede em Itapuranga, Goiás, e capital social declarado de apenas R$ 50 mil, a Brazil Mining tem como sócia a International Mining Participações Ltda. Joanderson Batista Pereira Araujo aparece como administrador.
A empresa acumulou direitos para pesquisa de scheelita em diferentes pontos do Rio Grande do Norte. Entre Ouro Branco e Caicó são 1.799,07 hectares; em Umarizal, outros 1.402,94 hectares; e um terceiro alvará, abrangendo Almino Afonso, Rafael Godeiro e Patu, acrescenta 1.641,72 hectares.
Somente esses três títulos representam 4.843,73 hectares, equivalentes a cerca de 6.785 campos de futebol.
A Agência Nacional de Mineração registra ainda movimentação da Brazil Mining em Santana do Matos, justamente um dos municípios onde a Jamari também recebeu autorização para pesquisar tungstênio. Isso não significa que as áreas sejam sobrepostas, mas mostra empresas diferentes buscando direitos dentro da mesma região mineral.
A investigação da rede empresarial relacionada a Joanderson leva também a companhias brasileiras que hoje integram uma estrutura internacional dedicada a terras raras. Nesse ponto, porém, é necessário separar o que está documentalmente comprovado do que não pode ser concluído apenas pelas relações entre administradores e empresas.
A International Mining Participações, que aparece como sócia da Brazil Mining, possui uma conexão societária histórica documentada com empresas que posteriormente passaram a integrar uma estrutura internacional controlada por Francesco Scolaro. Essa conexão, entretanto, não permite afirmar que Scolaro seja atualmente controlador, proprietário ou beneficiário final da Brazil Mining.
Cadeia internacional
A conexão aparece com maior clareza nos documentos apresentados à Securities and Exchange Commission (SEC), órgão responsável pela regulação do mercado de capitais dos Estados Unidos. É nesses registros que surge o nome do empresário Francesco Scolaro, identificado como beneficiário final de uma estrutura internacional relacionada à IMC Rare Earths e a projetos de terras raras desenvolvidos no Brasil.
Beneficiário final, conhecido nos documentos financeiros pela expressão em inglês Ultimate Beneficial Owner (UBO), é a pessoa física que, em última instância, exerce o controle econômico de determinada estrutura societária. Segundo a documentação apresentada à Securities and Exchange Commission, Scolaro controla a International Mineral Corporation Holdings Ltd., acionista relevante da estrutura da IMC Rare Earths. Os documentos descrevem reorganizações societárias envolvendo empresas constituídas no Brasil, em São Vicente e Granadinas e nas Ilhas Cayman.
Entre as empresas brasileiras que aparecem nessa estrutura estão a IMC Rare Earths Participações Ltda., Niobium Brazil Importação e Exportação Ltda. e Ionic Clays Brazil Ltda.
A Niobium Brazil foi constituída em junho de 2022 para exploração, desenvolvimento e comercialização de minerais no Brasil. Posteriormente, passou por reorganizações que a colocaram sob a IMC Rare Earths Participações e, depois, dentro da estrutura internacional descrita à autoridade norte-americana.
A Ionic Clays Brazil fornece um elo particularmente importante para compreender a relação com as empresas encontradas nesta investigação. Constituída no Brasil em abril de 2024, ela havia sido criada pela International Mining Participações Ltda., justamente a empresa que aparece como sócia da Brazil Mining.
Em outubro de 2025, a Ionic Clays foi transferida para a IMC Rare Earths Participações Ltda. e passou a integrar a estrutura internacional descrita nos documentos apresentados nos Estados Unidos.
A documentação financeira afirma que as empresas envolvidas nessa reorganização estavam sob controle comum do beneficiário final durante a operação. Há, portanto, uma conexão societária documentada entre a International Mining Participações, sócia da Brazil Mining, e empresas que posteriormente passaram a integrar a estrutura internacional controlada por Francesco Scolaro.
O alcance dessa descoberta, contudo, precisa ser delimitado.
Os documentos consultados não permitem afirmar que Francesco Scolaro seja atualmente o controlador ou beneficiário final da Brazil Mining. Para estabelecer essa relação seria necessário reconstruir a cadeia societária atual da International Mining Participações, que é a sócia da Brazil Mining, até a pessoa física que exerce seu controle final.
Também não há base documental para estender o controle de Scolaro à Brazilian Strategic Minerals. Nessa empresa, Joanderson Batista Pereira Araujo aparece como sócio-administrador, e não foi encontrada participação societária estrangeira direta.
O que a documentação permite afirmar é mais específico: um empresário que aparece nas empresas que agora obtêm direitos para pesquisar scheelita no Rio Grande do Norte também participa da administração de companhias brasileiras inseridas numa estrutura internacional de minerais estratégicos; e a empresa que figura como sócia da Brazil Mining possui uma conexão societária histórica documentada com empresas que hoje fazem parte do grupo controlado por Scolaro.
Terras raras
Essa estrutura internacional possui interesses minerais relevantes no Brasil. Entre eles está o Projeto Itarantim, de terras raras, na Bahia e em Minas Gerais, que reúne aproximadamente 452 quilômetros quadrados, ou 45,2 mil hectares, sob direitos minerais. A área equivale a cerca de 63,3 mil campos de futebol.
A documentação apresentada à Securities and Exchange Commission informa que os direitos do projeto são mantidos pela Niobium Brazil Importação e Exportação Ltda., empresa pertencente à estrutura da IMC Rare Earths. A companhia apresenta Itarantim como projeto destinado à produção de terras raras magnéticas e declara a intenção de inseri-lo nas cadeias de abastecimento dos Estados Unidos e da Europa.
A documentação revela ainda que, em junho de 2025, a Niobium Brazil celebrou acordo para destinar 50% dos produtos de terras raras extraídos de Itarantim à Mineradora Havilah, que recebeu também opção relacionada a uma parcela adicional da produção não comprometida.
O caso mostra que a presença internacional identificada na investigação não se limita a estruturas societárias registradas fora do país. Ela alcança projetos brasileiros de minerais estratégicos e estratégias declaradas de fornecimento para cadeias industriais estrangeiras.
Área disputada
Há outro elemento dos despachos da Agência Nacional de Mineração que ajuda a compreender por que esses alvarás possuem valor mesmo antes de qualquer mina existir. Empresas estão tentando requerer áreas e encontrando territórios integralmente atingidos por direitos anteriores.
Um dos casos identificados no levantamento envolve a Biondi Resources Brazil Ltda.. Seu requerimento 848.137/2026 foi indeferido por “interferência total”. O documento disponível não foi suficiente para estabelecer qual mineral a Biondi pretendia pesquisar naquele processo nem quem são todos os titulares que provocaram a interferência. Por isso, não é possível vinculá-lo diretamente à corrida pelo tungstênio.
O episódio demonstra, porém, o mecanismo. Quando uma área já está onerada por direitos minerários anteriores, outro interessado pode não conseguir avançar sobre aquele mesmo espaço. A disputa começa, portanto, antes da descoberta comercial. Primeiro disputa-se a área. Depois se comprova o minério.
Novo filtro
Esse cenário torna particularmente relevante uma mudança adotada pela própria Agência Nacional de Mineração neste mês. A Ordem de Serviço nº 434, de 18 de agosto de 2026, criou um procedimento padronizado para a análise dos pedidos de prorrogação de alvarás de pesquisa.
Prorrogar um alvará não é novidade. A legislação já permitia que empresas que não conseguissem concluir os trabalhos dentro do prazo solicitassem tempo adicional. A novidade está no roteiro nacional padronizado de análise. O técnico passa a ter de examinar elementos como substância pesquisada, extensão da área, trabalhos realizados, existência de prorrogações anteriores, justificativas técnicas e razões pelas quais a empresa ainda precisa permanecer com aquele direito.
A medida não declara como objetivo “acabar com a reserva de mercado”. Seria incorreto atribuir essa expressão à agência sem manifestação específica. Mas o efeito potencial é relevante: um controle mais rigoroso das prorrogações pode dificultar a retenção prolongada de áreas por empresas que não consigam demonstrar tecnicamente a necessidade de continuar pesquisando. A mudança ocorre justamente quando aumenta o valor estratégico de garantir prioridade sobre áreas com potencial para minerais críticos.
Governo reage
É justamente essa segunda etapa que chega à mesa do governo. A Agência Nacional de Mineração reconhece que a vulnerabilidade das cadeias de minerais críticos decorre não apenas da concentração da extração, mas também da dependência de importações, dos gargalos tecnológicos no refino e processamento e do longo prazo necessário para colocar novos projetos em produção.
A agência define minerais estratégicos como aqueles essenciais ao desenvolvimento econômico e relevantes para produtos e processos de alta tecnologia, defesa e transição energética. Por isso, a questão colocada para o governo não é simplesmente impedir empresas estrangeiras de investir no Brasil.
A Constituição determina que os recursos minerais pertencem à União. Empresas estrangeiras que operam no país estão submetidas à legislação brasileira e dependem das autorizações nacionais. A questão estratégica é outra: quem pesquisará, quem financiará as minas, quem beneficiará o minério, onde ocorrerá o refino e quem ficará com as etapas tecnologicamente mais sofisticadas e lucrativas da cadeia.
Valor agregado
O tungstênio ajuda a visualizar esse problema. O Brasil pode descobrir grandes depósitos e continuar ocupando posição secundária caso exporte concentrados e depois importe ferramentas de carbeto de tungstênio, ligas especiais, componentes aeroespaciais ou outros produtos de alto valor fabricados com o mesmo metal.
A China oferece o contraponto: construiu sua posição geopolítica não apenas possuindo minas, mas dominando etapas intermediárias e finais das cadeias. Os números encontrados nos registros brasileiros mostram que a etapa anterior dessa corrida já começou.
A Jamari possui pelo menos 7.097,26 hectares, equivalentes a quase 10 mil campos de futebol, documentados nos cinco títulos considerados no levantamento para pesquisa de tungstênio. Seu administrador, Liwen Hao, também constituiu neste ano uma empresa individual de R$ 1 milhão voltada à extração de nióbio e titânio.
A Brazilian Strategic Minerals, criada em 2025 com capital social declarado de R$ 100 mil, recebeu pelo menos 3.062,98 hectares, aproximadamente 4.290 campos de futebol, em Angicos. Seu único sócio, Joanderson Batista Pereira Araujo, aparece também em outras empresas do setor mineral.
A Brazil Mining, com capital social declarado de R$ 50 mil, possui nos três alvarás já quantificados 4.843,73 hectares, cerca de 6.785 campos de futebol, e tem como sócia a International Mining Participações. Essa empresa possui uma conexão societária histórica documentada com companhias que posteriormente passaram a integrar uma estrutura internacional de minerais estratégicos controlada por Francesco Scolaro. Os documentos consultados, porém, não permitem afirmar que Scolaro seja atualmente controlador ou beneficiário final da Brazil Mining.
Somadas, apenas as áreas já quantificadas dessas três empresas chegam a 15.003,97 hectares, aproximadamente 21 mil campos de futebol.
O número não representa reservas comprovadas, tampouco significa que todo esse território se transformará em minas. Mas mostra a dimensão de algo que já está acontecendo enquanto Brasília discute quais regras adotar.
China, Estados Unidos e Europa procuram assegurar fontes de minerais estratégicos. A China concentra aproximadamente quatro quintos da produção mundial de tungstênio e domina etapas importantes do processamento de minerais críticos. Os preços do metal avançaram fortemente, governos ocidentais financiam fontes alternativas e o próprio governo brasileiro reconhece que a disputa internacional chegou ao país.
No Rio Grande do Norte e na Paraíba, porém, a primeira etapa dessa batalha não está esperando a nova política ficar pronta. Ela já começou, com empresas garantindo prioridade sobre milhares de hectares onde esperam encontrar um metal indispensável às máquinas, às tecnologias e aos sistemas de defesa que estão no centro da nova disputa industrial mundial.







