
Por Glauco Sampaio*
A possibilidade de compartilhar informações clínicas entre diferentes organizações promete reduzir retrabalho, melhorar diagnósticos, dar mais agilidade ao atendimento e ampliar a continuidade do cuidado ao paciente. A discussão sobre a interoperabilidade na área da Saúde ganhou força conforme os hospitais, operadoras, laboratórios e órgãos públicos passaram a buscar formas de integrar informações que historicamente permaneceram isoladas. À medida em que esses dados passaram a circular entre diferentes ambientes, pessoas, sistemas, softwares e dispositivos médicos, surge um desafio que, infelizmente, ainda recebe menos atenção do que a própria integração tecnológica: como manter os dados seguros em ambientes integrados? A discussão vai além da infraestrutura de TI ou das questões técnicas associadas; ela precisa focar no risco do comportamento humano.
O Brasil já utiliza a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) para unificar informações de pacientes da rede pública, formando a base do histórico clínico digital. O próximo passo é integrar esses dados a um denso ecossistema privado de saúde com o objetivo de facilitar a troca de dados entre diferentes ambientes seguindo normas rígidas de segurança e diretrizes da LGPD – Lei Geral de Proteção de Dados.
Dessa forma, o avanço da conectividade entre sistemas desloca esse olhar para um território mais complexo. A preocupação deixa de estar concentrada apenas na proteção da informação armazenada e passa a envolver quem pode ou acessa determinado dado, como ele circula a informação entre diferentes sistemas e se existe clareza sobre o uso que está sendo feito com esses dados ao longo do caminho, já que informações clínicas acompanham o paciente por diferentes organizações ao longo de toda a sua vida.
Política de Dados
A troca de informações entre diferentes organizações não só determina a capacidade do setor de trabalhar de forma mais integrada, como também aumenta a dependência de processos, pessoas e tecnologias que nem sempre estão sob a mesma gestão. Na prática, isso significa que uma decisão aparentemente simples pode produzir impactos em diferentes organizações que compartilham a mesma informação. Credenciais compartilhadas, acessos excessivos, uso inadequado de aplicações em nuvem ou falhas na definição de permissões continuam entre os fatores capazes de gerar exposição de dados, mesmo em ambientes tecnicamente protegidos.
Levantamento recente da fabricante de sistemas de segurança cibernética Netskope, por meio do Netskope Threat Labs, mostra que o setor de saúde já convive com desafios relevantes relacionados à circulação e ao uso de informações sensíveis. Segundo a pesquisa, 89% das violações de políticas de dados envolvendo aplicações de IA generativa estão relacionadas a informações regulamentadas, como prontuários e dados clínicos. O estudo também aponta que 43% dos profissionais utilizam contas pessoais de IA generativa no ambiente de trabalho e que dados regulamentados representam 82% das violações associadas a aplicações pessoais de nuvem.
Os números mostram que esse desafio já faz parte da rotina das organizações. A circulação de informações sensíveis acontece hoje em diferentes ambientes tecnológicos e exige um nível de coordenação que vai além da infraestrutura, tornando mais difícil acompanhar como esses dados são utilizados ao longo da operação e quais decisões podem ampliar sua exposição.
Governança dos dados
Boa parte do debate sobre proteção de dados na saúde costuma estar concentrada em infraestrutura, conformidade regulatória e mecanismos de segurança. Todos esses elementos continuam fundamentais, mas mostram apenas parte do problema, porque decisões aparentemente operacionais, como definir níveis de acesso, compartilhar informações entre equipes ou utilizar aplicações externas, passaram a influenciar diretamente a exposição ao risco em um ambiente cada vez mais integrado.
A partir desse momento, acompanhar apenas as questões relacionadas aos sistemas, deixa de ser suficiente. As organizações passam a precisar entender também como profissionais acessam, compartilham e utilizam essas informações, porque pequenas decisões tomadas no dia a dia podem comprometer a segurança de toda a cadeia de dados antes mesmo que qualquer incidente seja percebido.
A integração entre sistemas faz parte da evolução natural da saúde digital e, repito, tende a gerar benefícios importantes para pacientes, profissionais e instituições. O desafio é fazer com que esse avanço venha acompanhado da mesma capacidade de compreender como essas informações são utilizadas ao longo de toda a jornada, porque proteger dados continuará sendo essencial, mas a exposição ao risco será cada vez mais determinada pela forma como as pessoas acessam, compartilham e utilizam essas informações no dia a dia. É justamente nesse ponto que a gestão do risco humano deixa de apoiar apenas iniciativas de conscientização e passa a integrar a estratégia de governança dos dados em saúde.
*Glauco Sampaio é CEO da Beephish.







