
O novo recorde de déficit das empresas estatais divulgado hoje (31) pelo Banco Central reacendeu um debate recorrente sobre a situação financeira dessas companhias. Os dados mostram que o conjunto das estatais registrou déficit primário de R$ 7,8 bilhões no primeiro semestre de 2026, o pior resultado para o período desde o início da série histórica, em 2002. A divulgação, porém, costuma ser interpretada como sinônimo de “prejuízo das empresas”, quando, na prática, os indicadores medem fenômenos distintos.
A diferença é especialmente evidente no setor de tecnologia da informação. Enquanto o resultado primário do Banco Central inclui empresas como Serpro, Dataprev e Telebras na estatística fiscal do setor público, os balanços dessas companhias mostram uma realidade bastante diferente. Serpro e Dataprev continuam registrando lucro líquido, expansão de receitas, geração positiva de caixa e fortalecimento patrimonial, figurando entre as estatais federais de melhor desempenho operacional.
A origem da aparente contradição está na metodologia. O Banco Central não divulga um ranking de empresas lucrativas ou deficitárias. Seu objetivo é medir o impacto das empresas estatais sobre as contas públicas por meio do chamado resultado primário, indicador utilizado para avaliar a necessidade de financiamento do setor público. Nesse cálculo entram receitas e despesas consideradas para fins fiscais, independentemente do lucro líquido apurado pelas normas contábeis.
Já os balanços das empresas seguem as regras contábeis e procuram responder outra pergunta: a empresa gerou lucro ou prejuízo para seus acionistas? Nesse caso, são considerados fatores como receitas financeiras, depreciação, investimentos, equivalência patrimonial e outros critérios previstos nas normas contábeis. Assim, uma estatal pode apresentar lucro líquido ao final do exercício e, ao mesmo tempo, integrar um conjunto de empresas que registra déficit primário nas estatísticas fiscais do Banco Central.
Essa distinção já foi destacada pela própria Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais (Sest). Em seus relatórios, a secretaria observa que os resultados fiscais divulgados pelo Banco Central não devem ser confundidos com o desempenho econômico-financeiro das empresas. No levantamento mais recente disponível, o segmento de Comunicações e Tecnologia apresentou lucro operacional, enquanto a maior parte das empresas federais controladas pela União encerrou o exercício com resultado contábil positivo.
Os balanços de Serpro e Dataprev ajudam a ilustrar essa diferença. O Serpro encerrou 2025 com lucro líquido de R$ 755,1 milhões e receita operacional líquida de aproximadamente R$ 4,6 bilhões, mantendo trajetória de crescimento sustentada pela expansão dos serviços de governo digital, computação em nuvem, segurança cibernética e plataformas digitais. A empresa também ampliou seu patrimônio líquido e manteve forte geração de caixa.
Já a Dataprev fechou 2025 com receita operacional líquida de R$ 2,498 bilhões, crescimento de 29,5% em relação ao exercício anterior, e lucro líquido de R$ 899,7 milhões, avanço de cerca de 77% sobre 2024. A estatal permaneceu como empresa não dependente de recursos do Tesouro Nacional, ampliou investimentos em infraestrutura tecnológica e reforçou sua posição financeira.
A situação da Telebras é distinta. A empresa continua fortemente vinculada à execução de políticas públicas, como o Norte Conectado, a Rede Privativa da Administração Pública Federal e projetos de conectividade em regiões remotas. Embora tenha ampliado sua atuação estratégica, ainda enfrenta desafios para converter esses investimentos em resultados financeiros consistentes.
O resultado divulgado pelo Banco Central também não permite identificar quais empresas individuais contribuíram para o déficit primário. As Estatísticas Fiscais apresentam apenas os números consolidados das estatais federais, estaduais e municipais, sem discriminar o desempenho de cada companhia. Por isso, não é possível afirmar, com base exclusivamente nesses dados, quais empresas responderam pela deterioração do resultado agregado.
Essa limitação contribui para um equívoco frequente no debate público. Manchetes de jornais que afirmam genericamente que “as estatais deram prejuízo” acabam misturando conceitos diferentes. O déficit primário divulgado pelo Banco Central não significa, necessariamente, que as empresas estejam operando no vermelho. Em muitos casos, trata-se de companhias que continuam registrando lucro contábil, mas cujo fluxo de receitas e despesas, calculado segundo critérios fiscais, produz impacto negativo sobre o resultado consolidado do setor público.
A diferença pode parecer técnica, mas altera substancialmente a interpretação dos números. Enquanto o resultado primário busca medir os efeitos das estatais sobre as contas do governo, o lucro líquido revela a capacidade de cada empresa de gerar resultado econômico e preservar seu patrimônio. São indicadores complementares, mas não equivalentes.
Os resultados de Serpro e Dataprev evidenciam essa diferença. Embora ambas integrem o universo de empresas considerado nas Estatísticas Fiscais do Banco Central, seus balanços mostram crescimento de receitas, lucros próximos de R$ 1,7 bilhão quando somados, expansão patrimonial e capacidade de investimento. Em outras palavras, aparecem no conjunto de empresas que compõem o déficit fiscal das estatais, mas permanecem entre as empresas públicas mais lucrativas da administração federal.
O desafio para o debate público é separar o conceito de desempenho fiscal do conceito de desempenho empresarial, evitando que toda divulgação de déficit primário seja automaticamente interpretada como prova de prejuízo operacional das empresas estatais, o que já favoreceu, no passado, o discurso liberal da privatização.






