
A Brasscom praticamente triplicou, em apenas um ano, sua projeção de investimentos em transformação digital no Brasil. A mudança aparece na comparação entre os Relatórios Setoriais 2024 e 2025 da entidade e revela um avanço relevante no discurso e nas prioridades estratégicas do setor de tecnologia da informação e comunicação no país.
No relatório divulgado em 2025, referente ao desempenho de 2024, a Brasscom projetava que o Brasil investiria R$ 774 bilhões em tecnologias de transformação digital entre 2025 e 2028. Naquele momento, o principal vetor previsto era a computação em nuvem, com expectativa de R$ 331,9 bilhões em investimentos, seguida por Inteligência Artificial, com R$ 145,9 bilhões, e Big Data & Analytics, com R$ 110,5 bilhões.
Um ano depois, no Relatório Setorial 2025, divulgado em 2026, a previsão foi radicalmente ampliada. A Brasscom passou a estimar investimentos de R$ 2 trilhões entre 2026 e 2029. A nova projeção praticamente reposiciona toda a estratégia do setor ao redor de infraestrutura computacional, IA e data centers. Segundo o documento, somente os investimentos previstos em Nuvem alcançam R$ 765,6 bilhões, enquanto Inteligência Artificial salta para R$ 736,6 bilhões. Pela primeira vez, a entidade também destaca de forma isolada os Data Centers, com previsão de R$ 252,4 bilhões no período.
A comparação entre os dois estudos mostra um crescimento explosivo das expectativas do setor. O volume total projetado de investimentos saiu de R$ 774 bilhões para R$ 2 trilhões, um salto de aproximadamente 158%. A área de Nuvem mais do que dobrou de tamanho projetado. Já Inteligência Artificial teve a mudança mais agressiva: passou de R$ 145,9 bilhões para R$ 736,6 bilhões, crescimento superior a 400%.
Outra mudança relevante é conceitual. No relatório anterior, a Brasscom ainda organizava suas projeções sob o guarda-chuva genérico de “tecnologias de transformação digital”. No documento mais recente, o foco passa claramente para infraestrutura pesada de processamento, armazenamento e IA em larga escala. Big Data & Analytics, que aparecia como um dos pilares centrais em 2025, praticamente desaparece como eixo independente no relatório seguinte.
A própria dimensão econômica do setor também foi revisada para cima. O relatório de 2025 apontava que o macrossetor de TIC havia movimentado R$ 762,4 bilhões em 2024, equivalente a 6,5% do PIB brasileiro. Já o relatório mais recente afirma que o mercado alcançou R$ 919,7 bilhões em 2025, atingindo 7,2% do PIB nacional.
O crescimento projetado da computação em nuvem ajuda a explicar parte dessa mudança. Em 2024, a Brasscom indicava um mercado de nuvem de R$ 57,6 bilhões, com crescimento anual de 29%. No relatório seguinte, o setor já aparece movimentando R$ 85 bilhões, com expansão de 35,5%.
O mesmo ocorre com as exportações do setor. O relatório de 2024 apontava exportações totais de TIC de R$ 51,3 bilhões. No relatório seguinte, o volume sobe para R$ 62 bilhões, com crescimento puxado principalmente por software e serviços.
A mudança não ocorreu apenas nos números. O discurso institucional da Brasscom também passou por transformação importante. No relatório anterior, o Plano Brasil Digital 2030+ era apresentado como uma proposta estratégica para impulsionar o crescimento econômico e social por meio das tecnologias digitais. Já no relatório de 2026, o texto incorpora explicitamente a ideia de autonomia tecnológica nacional, afirmando que o objetivo do plano é tornar o Brasil “autônomo no que tange a tecnologia que transforma”.
Na prática, os dois documentos revelam uma mudança estrutural na visão do setor de TIC brasileiro. O relatório de 2025 ainda refletia um ciclo de digitalização corporativa. O documento seguinte já aponta para uma corrida por infraestrutura de IA, capacidade computacional, nuvem soberana e expansão acelerada de data centers, em um contexto global de disputa tecnológica e reorganização das cadeias digitais estratégicas.
Veja o relatório de 2024/25
Veja o relatório de 2025/26







