70% dos CIOs colocam IA entre as prioridades, mas empresas ainda falham na governança

A inteligência artificial já ocupa posição prioritária na agenda de tecnologia das empresas, mas sua adoção avança mais rapidamente do que a capacidade de controlar riscos, custos e segurança. É o que aponta uma pesquisa realizada pela Premiersoft durante o 4CIO Private Sectors 2026, que ouviu 59 lideranças de tecnologia de setores como indústria, serviços financeiros, saúde e educação.

Segundo o levantamento, 70% dos CIOs consideram a inteligência artificial uma prioridade alta ou máxima. Apesar disso, 56% das empresas ainda não possuem um processo formal para testar novas ferramentas e recursos de IA. Outros 32% admitem que a governança está sendo estruturada depois que as tecnologias já começaram a ser utilizadas, enquanto 29% não realizam nenhum tipo de auditoria sobre o uso dessas soluções.

O cenário se torna mais complexo porque a inteligência artificial já está presente em diferentes áreas das organizações. A pesquisa mostra que 71% das empresas utilizam mais de um modelo ou ferramenta simultaneamente. Desse total, 42% trabalham com duas a quatro soluções, enquanto 29% utilizam cinco ou mais.

A multiplicidade de ferramentas dificulta o acompanhamento do consumo, dos custos e dos riscos associados a cada tecnologia. Sem mecanismos centralizados de controle, as equipes de TI podem perder visibilidade sobre quais departamentos utilizam IA, quais dados são compartilhados e quais fornecedores têm acesso às informações corporativas.

Outro problema identificado é a falta de responsáveis específicos pela governança. Em 44% das organizações, a pessoa encarregada de supervisionar o uso da inteligência artificial acumula outras funções. Em 19% dos casos, não existe sequer um responsável formalmente definido.

A ausência de processos de auditoria também representa um risco. Além dos 29% que não realizam qualquer verificação, 46% das empresas fazem auditorias apenas parciais. Essa limitação pode dificultar a identificação de incidentes, a investigação de falhas e a comprovação de conformidade com exigências regulatórias, como a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

Na prática, a falta de controle pode permitir que ferramentas sejam incorporadas às atividades empresariais sem uma avaliação prévia de segurança, custos ou compatibilidade com os sistemas existentes. Problemas como exposição de informações confidenciais e aumento inesperado de despesas podem ser identificados somente depois que a tecnologia já está integrada à operação.

Para Rodrigo Hülsenbeck, CEO da Premiersoft, um dos principais desafios é estruturar mecanismos de controle que acompanhem a expansão da inteligência artificial sem comprometer o ritmo de inovação das empresas.

Entre as medidas necessárias estão o mapeamento das ferramentas utilizadas pelas equipes, a definição de políticas internas para o compartilhamento de dados e a criação de mecanismos de monitoramento e rastreabilidade. O registro das interações com sistemas de IA também permite identificar responsabilidades e produzir evidências em auditorias e investigações.

A adoção de uma estrutura centralizada de governança é outra alternativa para empresas que utilizam diferentes modelos e fornecedores. Esse tipo de controle permite acompanhar o consumo de recursos, estabelecer limites de utilização e aplicar regras de segurança de maneira padronizada.

O levantamento evidencia uma contradição no processo de transformação digital das organizações: enquanto a inteligência artificial ganha espaço nas operações, parte significativa das empresas ainda não desenvolveu estruturas para administrar sua utilização.

O desafio, portanto, deixou de ser apenas incorporar novas ferramentas de IA. Com a expansão dessas tecnologias, as empresas precisam garantir que sua utilização seja acompanhada por políticas de segurança, controle de custos, auditoria e responsabilidade sobre os dados utilizados.