
Hoje, 29 de abril de 2026, eu completo 66 anos. Dito assim, parece apenas mais um aniversário. Mas quando olho para trás e transformo esse tempo em números, a dimensão muda. Eu vivi 24.106 dias. Foram 578.544 horas, mais de 34 milhões de minutos, mais de 2 bilhões de segundos.
E, ainda assim, nada disso explica de fato o que é ter vivido tudo isso.
Ao longo desses 792 meses de vida, o país mudou de forma, de ritmo, de linguagem. E eu mudei junto, às vezes entendendo, às vezes apenas acompanhando. Quando comparo minha trajetória com a expectativa de vida, percebo que já percorri a maior parte do caminho. Se a vida média no mundo é algo próximo de 73 anos, eu já alcancei cerca de 90% disso. Se fosse uma maratona de 100 quilômetros, estou ali pelos 90 km.
Mas o mais curioso é que, aos 66 anos, eu já ultrapassei a marca que a maioria das pessoas no planeta não alcança. Estou entre os mais longevos, não por mérito, mas por circunstância, tempo e acaso.
Eu atravessei 24 mil amanheceres em um país que nunca foi estático. Nasci em 1960 no meu Rio de Janeiro, quando o Brasil ainda aprendia a ocupar Brasília, uma capital recém-inaugurada que simbolizava futuro. Cresci durante a ditadura militar, vivi o silêncio imposto, acompanhei a lenta abertura, vi a redemocratização ganhar as ruas. Eu estava aqui quando o país reescreveu a Constituição em 1988, acreditando que ali começava uma nova era para o Brasil.
Assisti ao Impeachment de dois presidentes, o Plano Real domar uma inflação que corroía o cotidiano, acompanhei a alternância de poder com Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso, testemunhei novo ciclo político com Jair Bolsonaro e o retorno de Lula. Vivi momentos de esperança e de fratura, de construção e de crise. O Brasil nunca foi um lugar de linha reta e eu também não fui. E há um orgulho silencioso que carrego: não fui apenas espectador desses momentos. Eu os vivi exercendo a minha profissão de jornalista, acompanhando de perto decisões, crises e transformações que ajudaram a moldar o país. Registrar a história enquanto ela acontece é um privilégio raro e também uma responsabilidade que marcou a minha trajetória.
O Brasil que eu vivi também foi o das transformações silenciosas. Eu vi a chegada do homem na Lua, da informática, da televisão em cores, da popularização do telefone, depois do celular e depois a internet. E foi justamente com a internet que testemunhei talvez a maior revolução do nosso tempo. Vi o quanto essa rede pode ser poderosa quando utilizada para construir e aproximar pessoas, democratizar o acesso à informação, dar voz a quem antes não tinha, conectar ideias e ampliar horizontes. Mas também vi, com tristeza, esse mesmo instrumento ser capturado pelo lado mais sombrio do comportamento humano, sendo usado para disseminar ódio, desinformação e desunião entre pessoas que vivem num mesmo planeta, dividindo a mesma realidade cotidiana.
É uma contradição difícil de aceitar. Porque, no fundo, não há para onde fugir dessa convivência. Não existe outro lugar além daqui. E, ainda assim, assistimos a divisões que parecem ignorar essa evidência básica da existência humana.
Viver também foi atravessar o imprevisível. Eu sobrevivi a uma das maiores tragédias globais do nosso tempo, a Pandemia de COVID-19. Vi o mundo parar, vi números virarem rostos, acompanhei perdas coletivas que marcaram uma geração inteira. E, para além dos números, ficou a dor. Perdi amigos. Pessoas que faziam parte da minha história e que foram levadas pela crueldade de uma doença que não escolhia suas vítimas. Sobreviver, nesse contexto, deixou de ser apenas continuar vivo e passou a ser também carregar ausências.
No meio desse percurso, construí aquilo que dá sentido real a qualquer biografia. Há 40 anos, eu caminho ao lado da mulher que é a razão do meu viver. Não é força de expressão. Não há um dia em que eu não me lembre de dizer a ela o quanto a amo e agradecer por ainda estar ao meu lado. Em um mundo onde tudo muda com rapidez brutal, essa permanência talvez seja a coisa mais sólida que eu construí. E juntos, tivemos um filho. Um filho maravilhoso. Não há estatística que traduza isso. Nenhuma conta em dias, horas ou segundos consegue capturar o que é ver a vida continuar em outra pessoa. Se existe alguma forma concreta de tocar o sentido da vida, talvez esteja exatamente aí.
Eu não tenho uma resposta definitiva sobre o sentido da vida. Talvez ninguém tenha. Mas, olhando para esses 24.106 dias, eu entendo uma coisa com clareza: viver nunca foi sobre controlar o tempo, mas sobre preenchê-lo com aquilo que faz ele valer a pena.
E sigo em frente, pelo tempo que Deus quiser.







