Serpro não será “dependente de terceiros”, diz novo presidente

O novo presidente do Serpro, Witon Itaiguara Gonçalves Mota, falou ontem (19) pela primeira vez com todos os funconários da empresa, após ter tomado posse no cargo. Mais de três mil trabalhadores assistiram o evento por videoconferência, segundo o cerimonial da empresa; o auditório da sede estava lotado. Wilton Mota, como é conhecido, fez questão de destacar dois pontos que considera prioritários em sua gestão: a entrega tecnológica da reforma tributária e a consolidação definitiva da nuvem soberana.

Em um discurso emocionado, Mota recordou seus 39 anos de carreira na instituição, mas rapidamente direcionou a fala para o que considera a responsabilidade central do Serpro nos próximos anos: garantir a infraestrutura que sustentará a reconstrução do sistema tributário nacional e assegurar que os dados públicos permaneçam sob controle estatal, em ambiente próprio e administrado pela casa.

A reforma tributária surgiu em praticamente todos os trechos em que Mota abordou prioridades. Ele qualificou o projeto como o mais importante em execução no país e o principal compromisso do Serpro com seu cliente histórico, a Receita Federal. Segundo ele, o sucesso do novo sistema dependerá diretamente da capacidade da estatal de integrar bases, processar informações críticas em larga escala, manter serviços ininterruptos e garantir segurança absoluta dos fluxos de dados. Afirmou que grande parte da entrega já foi realizada com a atuação intensa de diversas superintendências, mas reforçou que o próximo ciclo exigirá ainda mais preparo técnico, inteligência coletiva e estabilidade operacional.

Para Mota, a reforma tributária não é apenas mais um projeto, mas um projeto de Estado, e por isso ocupa o topo da hierarquia de prioridades. Ele lembrou que a Receita Federal é a razão histórica da existência do Serpro e que nenhuma outra iniciativa poderá competir com a centralidade desse trabalho. Destacou que a sua gestão não permitirá desvios de foco quando se trata desse compromisso: “É o nosso maior contrato, é o nosso principal cliente, e é o projeto que definirá a capacidade do Estado brasileiro de funcionar”, destacou.

Centros de dados e Nuvem

Para sustentar o novo modelo tributário, Mota conectou diretamente o tema aos investimentos em data centers e à nuvem soberana que a empresa vem realizando, que segundo ele, são os pilares que garantirão a autonomia tecnológica do Estado. A construção e modernização dos centros de dados de São Paulo e Brasília foram apresentadas como elementos estruturais que permitirão ao Serpro manter volumes crescentes de processamento e suportar as novas exigências que virão com o redesenho do sistema tributário.

O de São Paulo está sendo concluído até janeiro do ano que vem. Wilton fez questão de lembrar que ele se iniciou na gestão do ex-diretor de Operações , Antonino Guerra, com quem trabalhou no Governo Bolsonaro. “Meu amigo”, destacou. Ele ainda afirmou que não há alternativa possível: uma infraestrutura distribuída, redundante e controlada pela própria estatal é condição essencial para que a reforma tributária funcione com estabilidade.

O presidente dedicou especial atenção à defesa da nuvem soberana, um dos temas mais sensíveis e debatidos nos últimos anos dentro da própria empresa e no governo. Rebateu críticas recentes e classificou como “desconhecimento” qualquer avaliação de que a plataforma não seria soberana. Explicou que ela opera com orquestração offline, administração direta do Serpro, atualizações controladas e nenhum tipo de backdoor ou dependência estrutural de fabricantes.

Comparou o cenário com outras nuvens comerciais, lembrando que, embora úteis para determinados serviços, não podem ser tratadas como equivalentes ao ambiente que o Serpro desenvolveu para garantir sigilo, autonomia e segurança do Estado. Ainda teve espaço para confirmar uma informação que o blog já havia dado em sua coluna semanal “A Tocha”. O projeto de nuvem com Google, ao custo de uns R$ 350 milhões, ainda não decolou. “Teve uns probleminhas”, segundo ele, mas que estão sendo solucionados.

Barriga de aluguel

Mota destacou que a ideia de soberania não se limita ao controle tecnológico, mas envolve também a forma como o Serpro entrega serviços. Disse que a estatal não pode se transformar em “vendedora de caixa preta” nem depender de produtos fechados de terceiros. A missão, segundo ele, é produzir soluções que agreguem valor, que respeitem os fluxos críticos do governo e que mantenham o controle final dentro da própria empresa. Reforçou que a nuvem soberana é justamente a manifestação concreta desse princípio: uma infraestrutura que permite ao Estado brasileiro guardar, processar e proteger suas informações de maneira independente.

Foi um duro recado ao diretor de Negócios, Governos e Mercados, André Picoli Agatte, que no início do evento foi o único a não cumprimentar o novo presidente. Agatte tem fechado constantes “parcerias de negócios” com empresas privadas, que acabam entrando para o governo pela janela, sem disputar licitação com concorrentes no mercado. Um verdadeiro jogo de cartas marcadas propriciado pela Lei das Estatais, através dos “chamamentos públicos”.

Um exemplo disso foi dado pelo blog na terça-feira (18) através da reportagem “CIX: a govtech apoiada por bolsonaristas que privatizam serviços prestados por estatais“. Uma empresa foi capaz de manter 13 reuniões prévias com a direção do Serpro entre 2022 (Governo Bolsonaro) e 2023 (Governo Lula), para estabelecer os termos de uma parceria que acabou aprovada somente em 2024, após a realização de uma concorrência com claros indícios de edital dirigido para ela.

Segurança

Wilton Mota também relacionou a estabilidade recente do Acesso Gov.br, que completou 11 meses sem queda, à robustez das infraestruturas que estão sendo modernizadas e ao trabalho conjunto das equipes de segurança que operam a nuvem e os centros de dados. Para Mota, esse indicador é uma demonstração objetiva de que o Serpro já possui as condições para assumir o papel central na implementação da reforma tributária e na ampliação de serviços digitais de alta complexidade.

No encerramento do discurso, Wilton Mota reafirmou que todo o direcionamento estratégico de sua gestão – das equipes à infraestrutura – estará voltado para que o Serpro entregue a reforma tributária com excelência e fortaleça a nuvem soberana como marco definitivo da autonomia digital do Estado. Disse que o país vive um momento histórico e que a estatal tem a competência, a experiência e a credibilidade necessárias para liderar essa transformação. Concluiu afirmando que, se permanecer fiel a esses pilares, o Serpro continuará sendo a espinha dorsal tecnológica do governo brasileiro pelas próximas décadas.

Autoestima

A escolha do novo presidente do Serpro foi a única tacada certa dada até agora pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, mesmo que tenha sido via empurrão do presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), da senadora, Professora Dorinha (PP-GO), além de parlamentares do PT e o ex-ministro da SECOM, Paulo Pimenta. A reação de hoje mostrou a felicidade dos funcionários em ter um colega no cargo mais alto da empresa. Há anos eles são obrigados à conviver com indicações políticas, que nunca levaram em conta a “prata da casa”.

Haddad não sabe, mas Wilton Mota – com 39 anos de empresa – é o segundo funcionário de carreira do Serpro a chegar à presidência da estatal. E foram 25 anos de espera para que tal fato ocorresse. O primeiro presidente/funcionário foi Wolney Martins no ano de 2000. Ele assumiu o cargo, primeiro como interino, e depois foi efetivado. Sua nomeação se deveu a escândalos de corrupção no Governo FHC, que acabaram obrigando ao então ministro da Fazenda, Pedro Malan, determinar que o presidente da estatal, na época Sérgio Otero, pedisse a exoneração da função.

Wilton Mota dedicou parte do discurso à relação que manterá com a auditoria interna e com os órgãos de controle. Ao contrário de gestões que trataram a auditoria como obstáculo, defendeu que ela seja vista como ‘parceira” para aperfeiçoar processos. Relembrou que a migração do mainframe para São Paulo tornou-se caso de sucesso apresentado no TCU exatamente porque foi construída com acompanhamento constante da auditoria, que ajudou a ajustar pontos críticos do projeto.

Sem evitar temas sensíveis, Mota reconheceu que há divergências na empresa e que nem todos concordam com tudo, mas pediu maturidade, respeito e disposição para o contraditório. Disse que, se houver conflitos, está disposto a procurar colegas, pedir desculpas e restabelecer o diálogo, afirmando que não consegue “dormir chateado” com ninguém da casa.

Ao final, fez um apelo pela união de todas as áreas, reforçando que nenhuma é superior à outra e que o Serpro só se sustenta se for fortalecido internamente. Reiterou que a estatal tem a confiança do Estado brasileiro porque entrega com segurança, qualidade e responsabilidade, e que essa credibilidade só existe devido às pessoas que a constroem diariamente.

Encerrou dizendo que o Serpro é maior que qualquer indivíduo, inclusive o presidente, e que sua força sempre residiu e continuará residindo na inteligência coletiva de seus profissionais. Não será fácil garantir essa união. A começar pela Comunicação da empresa, cuja titular nem deu as caras no evento. Ontem mesmo Wilton já foi obrigado a desmentir uma fake news, de que estaria pensando em acabar com o home office dentro do Serpro. Deixou claro que nunca pensou nisso.

*A conferir como irá agir o cunhado do Gatinho daqui para a frente, se será “oposição” na diretoria. Ontem ele pisou na bola ao não cumprimentar o novo presidente so Serpro.