Serpro aposta em geração própria de energia para sustentar expansão digital do governo

O Serpro abriu oficialmente a Concorrência Eletrônica nº 90289/2026 para contratar a implantação de um sistema próprio de geração de energia em unidades regionais da estatal. As propostas poderão ser apresentadas até o dia 19 de agosto de 2026, quando ocorrerá a abertura da sessão pública da licitação, marcada para às 9h30 no portal Compras.gov.br. O edital prevê a implantação de usinas de autoprodução de energia fotovoltaica nas regionais de Fortaleza, Salvador, Recife e Belo Horizonte, em um modelo considerado mais sofisticado do que os projetos tradicionais de energia solar utilizados normalmente para simples compensação de conta de luz.

Embora o valor estimado total da contratação seja tratado como “sigiloso” nos documentos disponíveis até o momento, o edital deixa claro que o Serpro pretende contratar uma solução completa de infraestrutura energética, no modelo EPC (“Engineering, Procurement and Construction”). Na prática, isso significa que a empresa vencedora ficará responsável por praticamente toda a cadeia do projeto, incluindo engenharia, projeto executivo, fornecimento de equipamentos, obras, instalação, integração dos sistemas, testes e entrega da operação funcionando.

O detalhe mais importante da licitação aparece na descrição técnica do projeto. O Serpro determinou que as usinas operem no modelo “Grid-Zero”, acompanhado de sistemas de armazenamento em baterias, conhecidos como BESS, sigla para “Battery Energy Storage System”. Traduzindo para termos mais simples, Grid-Zero significa que a energia produzida não será enviada para a rede elétrica pública. Diferentemente dos sistemas solares tradicionais usados por empresas e residências, nos quais a energia excedente vira crédito junto à concessionária, o Serpro quer que toda a eletricidade gerada seja consumida localmente dentro das próprias unidades.

Isso ajuda a explicar uma das principais dúvidas levantadas após a publicação do edital. Nenhuma das quatro regionais contempladas abriga os grandes data centers nacionais da estatal, que estão concentrados principalmente em Brasília e São Paulo. Assim, a energia produzida em Fortaleza, Recife, Salvador e Belo Horizonte não deverá alimentar fisicamente os grandes centros de processamento de dados do governo federal.

A lógica parece ser outra. Ao reduzir o consumo de energia comprada das distribuidoras nessas regionais, o Serpro diminui despesas operacionais e ganha maior previsibilidade de custos. Na prática, sobra mais orçamento corporativo para sustentar a expansão das áreas mais intensivas em computação, como inteligência artificial, nuvem governamental, processamento massivo de dados e infraestrutura crítica.

Mas o projeto vai além da simples economia financeira. O edital exige também sistemas de armazenamento em baterias. E isso muda completamente o perfil da iniciativa.

Se o objetivo fosse apenas reduzir conta de luz, bastaria instalar painéis solares convencionais. As baterias permitem algo mais sofisticado. Elas funcionam como uma reserva estratégica de energia, capaz de manter operações funcionando durante oscilações da rede elétrica, quedas de energia ou picos de consumo. Esse tipo de arquitetura normalmente é utilizado em ambientes considerados críticos, como data centers, telecomunicações, hospitais, operações militares e infraestrutura digital de alta disponibilidade.

Embora as regionais escolhidas não sejam os grandes centros nacionais de processamento de dados do Serpro, elas continuam sendo estruturas importantes para a operação da estatal. Essas unidades podem concentrar infraestrutura de conectividade, telecomunicações, redes corporativas, serviços regionais e sistemas de suporte à operação digital do governo federal. Na prática, o edital sugere que o Serpro começa a estruturar uma rede de infraestrutura energética distribuída, mais resiliente e menos dependente exclusivamente das concessionárias tradicionais de energia.

O projeto também se conecta diretamente ao crescimento do consumo computacional da estatal. O Serpro hoje opera sistemas ligados à Reforma Tributária, biometria do gov.br, plataformas digitais federais, inteligência artificial e serviços de governo eletrônico utilizados diariamente por milhões de brasileiros.

Toda essa expansão exige cada vez mais energia elétrica. Nos últimos anos, gigantes globais de tecnologia passaram a tratar energia como tema estratégico para crescimento da computação em nuvem e da inteligência artificial. Empresas do setor passaram a investir diretamente em geração própria, armazenamento energético e contratos dedicados de fornecimento elétrico para sustentar a expansão dos data centers.

O movimento do Serpro indica que essa preocupação começa agora a ganhar força também dentro da infraestrutura digital do governo brasileiro. Outro aspecto importante do edital é a escolha das cidades. Fortaleza, Recife e Salvador possuem alguns dos melhores índices de incidência solar do país, o que melhora significativamente a eficiência da geração fotovoltaica. Belo Horizonte também apresenta bom potencial energético e importante presença operacional da estatal. Além disso, todas as capitais escolhidas possuem custos relevantes de energia elétrica, o que aumenta o potencial de retorno econômico do projeto.

O edital também reforça um movimento mais amplo de associação entre soberania digital, infraestrutura computacional e autonomia operacional. A lógica que começa a surgir dentro do setor público é que, à medida que o governo concentra serviços estratégicos em plataformas digitais, aumenta também a preocupação com a segurança física e energética necessária para manter esses sistemas funcionando de forma contínua. Na prática, energia deixa de ser apenas despesa administrativa e passa a ser tratada como parte da própria infraestrutura estratégica do Estado brasileiro.