Greve na Caixa transforma vice-presidente de Pessoas em “defunto” de enterro simbólico

A greve nacional dos empregados da Caixa Econômica Federal, iniciada em 10 de setembro, continuará por tempo indeterminado após a rejeição da proposta final apresentada pelo banco para a renovação do Acordo Coletivo de Trabalho. No Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, 68% dos participantes da assembleia encerrada na sexta-feira (11) votaram contra a oferta. A resposta da instituição foi anunciar que deixará de aplicar reajustes, benefícios e outras cláusulas previstas nos acordos encerrados em 31 de agosto. O conflito entre os trabalhadores da Caixa e a direção ocorre a apenas 19 dias do primeiro turno das eleições no país e ameaça prejudicar a entrega de serviços públicos a milhões de brasileiros, sobretudo os que recebem seus benefícios de programas sociais.

O Sindicato dos Bancários de Brasília acusou a direção da instituição de usar direitos construídos ao longo de décadas como instrumento de pressão. Para a entidade, a rejeição de uma proposta faz parte de qualquer negociação coletiva e deveria levar o banco de volta à mesa, não à suspensão de benefícios.

Em Brasília além de paralisar as agências na última quinta-feira, a greve acabou gerando um “abraço na sede do banco oficial” feito de forma simbólica pelos funcionários.

A entidade também questionou o momento da decisão. A própria Caixa vinha mantendo provisoriamente as cláusulas enquanto negociava com os trabalhadores e resolveu suspender seus efeitos imediatamente após a derrota da proposta nas assembleias. Para o sindicato, a medida cria insegurança, eleva o confronto e contradiz o discurso de valorização do diálogo.

Mas o que mais vem chamando a atenção em Brasília é que a greve dos trabalhadores da CEF colocou no centro do conflito o vice-presidente de Pessoas, Alexandre Gonçalves de Amorim, ex-presidente do Serpro. Ele assinou, ao lado da diretora-executiva de Pessoas, Adriane Velloso Ferreira, o comunicado interno com ameaça de retirada dos efeitos econômicos da última negociação trabalhista e a perda de validade de benefícios como auxílio-refeição e auxílio cesta-alimentação. Na ameaça, Amorim e Adriane informaram que o plano Saúde Caixa será mantido por apenas 60 dias.

A reação dos empregados ultrapassou os discursos e ganhou uma representação simbólica. Em uma das manifestações, os bancários organizaram o enterro da área de Pessoas da Caixa. Amorim acabou convertido no “defunto” do protesto, numa alusão direta à responsabilidade da vice-presidência que comanda pela condução da negociação e pelo comunicado sobre a retirada dos benefícios.

A encenação recuperou uma imagem que Amorim deixou entre os trabalhadores do Serpro. Quando presidia a estatal de tecnologia e enfrentava resistência a uma reestruturação interna, ele reagiu às críticas com uma declaração que circulou entre os funcionários e virou meme: “Quem não gostar disso, fique à vontade. Passe no Departamento de Pessoas e vá embora. É simples assim, bem democrático. É simples desse jeito”.

A frase passou a ser usada pelos empregados como síntese de uma gestão considerada pouco aberta à contestação. Agora, ganha novo significado porque Amorim ocupa justamente a Vice-Presidência de Pessoas da Caixa, área responsável pela relação com os trabalhadores, pelas negociações coletivas e por temas sensíveis como salários, saúde suplementar e benefícios.

Pleito

Antes da votação da proposta, uma plenária virtual promovida pelo Sindicato dos Bancários de São Paulo reuniu 1.167 trabalhadores. O Saúde Caixa esteve entre os principais pontos do debate. A representação sindical propôs que o plano fosse negociado separadamente do restante do acordo coletivo, mas a Caixa não aceitou.

A última oferta do banco previa um prêmio de R$ 3 mil por empregado e o pagamento, em 18 de setembro, dos salários reajustados, da Participação nos Lucros e Resultados, do Super Caixa e da premiação. Também aumentava de 6,5% para 8% o limite de participação da empresa no custeio do Saúde Caixa. Apesar das mudanças, os empregados consideraram os termos insuficientes.

A paralisação já havia começado depois da rejeição de uma proposta anterior. Segundo a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro, mais de 90% das bases sindicais recusaram aquele texto. A Caixa retomou as conversas, apresentou uma nova oferta e avisou que seria sua proposta final. Também indicou que poderia retirá-la e levar o conflito a dissídio coletivo na Justiça do Trabalho.

Depois da nova rejeição, a instituição cumpriu a advertência. No comunicado interno, informou que os acordos coletivos celebrados com as entidades sindicais perderam a vigência em 31 de agosto de 2026. As cláusulas haviam sido mantidas provisoriamente enquanto as negociações estavam em curso e havia a expectativa de assinatura de novos instrumentos.

A direção da Caixa invocou a legislação trabalhista que impede a ultratividade dos acordos coletivos, ou seja, a continuidade automática das cláusulas depois do fim de sua vigência. Alegou também que a Convenção Coletiva de Trabalho de 2026 a 2028, firmada entre a Federação Nacional dos Bancos e as entidades sindicais, condicionou sua aplicação aos empregados da Caixa à aprovação de um acordo específico.

Segundo o banco, a convenção nacional e o acordo da Caixa foram negociados como uma solução “única e interdependente”. Sem a formalização dos dois instrumentos, não serão implementados reajustes salariais, reajustes de benefícios, PLR e demais efeitos econômicos negociados. A mesma interpretação foi aplicada ao auxílio-refeição, ao auxílio cesta-alimentação e a outras garantias do acordo encerrado.

A cobertura do Saúde Caixa será preservada por 60 dias, observadas as regras da Agência Nacional de Saúde Suplementar. A instituição afirma que a manutenção temporária pretende evitar a interrupção dos cuidados durante a transição. O prazo, porém, acrescentou um elemento de insegurança para os beneficiários e ampliou a tensão com as entidades sindicais.

A Caixa também anunciou ajustes normativos, operacionais e sistêmicos. Durante a adaptação, os sistemas SISRH e Integramais poderão ficar temporariamente indisponíveis. As solicitações referentes a direitos assegurados diretamente pela legislação deverão ser feitas pelo Portal Manda pra CEPES. Empregados que já estejam usufruindo algum benefício do acordo anterior terão as condições mantidas até o fim do respectivo período.

Trajetória desastrada

Natural de Jacareí, no interior de São Paulo, Alexandre Amorim é graduado em Sociologia e Política pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e fez curso de Gestão Pública Municipal na Fundação do Desenvolvimento Administrativo. Segundo o perfil publicado pela Caixa, possui mais de 24 anos de experiência em gestão governamental, administração de pessoas, planejamento estratégico e transformação digital.

Amorim começou sua trajetória na administração municipal. Trabalhou na área de recursos humanos da Prefeitura de Jacareí e ocupou as secretarias de Administração e de Governo de São José dos Campos. Também atuou em consultorias vinculadas ao Banco Interamericano de Desenvolvimento e a programas das Nações Unidas no Uruguai.

Posteriormente, comandou a Prodam, empresa de tecnologia da Prefeitura de São Paulo. Em fevereiro de 2023, no início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, assumiu a presidência do Serpro, estatal subordinada ao Ministério da Fazenda e responsável por alguns dos sistemas mais sensíveis da administração federal.

Amorim permaneceu no Serpro por dois anos e oito meses. Sua gestão coincidiu com a expansão da infraestrutura de nuvem e com a tentativa de reposicionar a estatal como fornecedora de serviços de inteligência artificial, identidade digital e processamento de dados para diferentes áreas do governo.

Também foi um período de maior tensão com os empregados. Uma das principais disputas envolveu a reestruturação da empresa e os programas destinados a estimular a saída de trabalhadores. O “Novos Horizontes”, apresentado como plano de desligamento voluntário, foi criticado pelas representações sindicais por atingir principalmente funcionários mais antigos e próximos da aposentadoria compulsória.

Foi nesse ambiente que Amorim pronunciou a frase sobre os descontentes poderem procurar o Departamento de Pessoas e ir embora. A declaração provocou revolta e continuou sendo lembrada mesmo depois de sua saída da estatal.

Em novembro de 2025, ele foi destituído da presidência do Serpro e substituído por Wilton Mota, então diretor de Operações. A troca ocorreu em meio a negociações políticas. Mota tem o apoio do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e da senadora Professora Dorinha Seabra. Amorim chegou ao comando da principal estatal de Tecnologia do governo com o respaldo do PT paulista e dos ministros da Fazenda, Fernando Haddad e, na época, o das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, que hoje ocupa o Ministério da Saúde.

A saída do Serpro não encerrou sua passagem pelo primeiro escalão das empresas estatais. Em 25 de maio de 2026, Amorim tomou posse como vice-presidente de Pessoas da Caixa. Quatro meses depois, tornou-se um dos protagonistas da maior crise trabalhista enfrentada pelo banco em sua gestão.

O enterro simbólico organizado pelos empregados conecta os dois momentos. O gestor que, no Serpro, recomendou aos insatisfeitos que procurassem o Departamento de Pessoas para deixar a empresa passou a representar, na Caixa, o suposto desaparecimento da própria política de pessoal. Para os trabalhadores mobilizados, a coincidência transformou Amorim em personagem central da greve e deu ao protesto uma ironia adicional: o responsável pela área de Pessoas tornou-se o “defunto” do funeral encenado pela categoria.

Atendimento

No primeiro dia da greve, 245 das 283 agências e quatro centros administrativos da Caixa em São Paulo, Osasco e Região ficaram fechados, segundo o sindicato. A paralisação é nacional, mas a adesão pode variar entre as regiões.

A Caixa afirma que os clientes continuam tendo acesso aos canais digitais e remotos, incluindo o aplicativo Caixa, Caixa Tem, Internet Banking, WhatsApp Caixa e atendimento telefônico. Caixas eletrônicos, Banco24Horas, lotéricas e correspondentes Caixa Aqui também permanecem em funcionamento. O maior impacto está concentrado no atendimento presencial e nas operações que dependem diretamente dos empregados das agências.

Foto: Sindicato dos Bancários.