Brasil investe R$ 2,6 bilhões em IA e busca soberania ainda dependente de tecnologia estrangeira

O governo federal abre uma nova etapa de sua estratégia de inteligência artificial com investimentos bilionários em supercomputação, uma nova tentativa de desenvolver tecnologia brasileira de nuvem e um projeto de longo prazo para reduzir a dependência externa de chips. O pacote tem como objetivo declarado fazer o país deixar de ser predominantemente consumidor para também desenvolver inteligência artificial em território nacional, mas os próprios documentos do anúncio revelam o tamanho do desafio: uma das duas grandes infraestruturas de processamento será construída em parceria com as chinesas Huawei e iFlytek, a tecnologia que equipará o outro supercomputador ainda será escolhida. Já a capacidade brasileira para desenvolver chips de arquitetura aberta é projetada para um horizonte de 10 a 15 anos.

“Esse país quer deixar de ser um país subdesenvolvido ou quer deixar de ser um país em via de desenvolvimento, para ser um país desenvolvido em todas as áreas. Em todas as áreas. A gente tem condições para isso. Basta querer. E quando a gente quer, a gente faz. Eu sou daqueles que não aceitam a palavra impossível. A palavra não posso”, disse o presidente Lula durante o lançamento dos investimentos em supercomputação no Rio Grande do Norte.

As iniciativas integram o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), que prevê R$ 23 bilhões entre 2024 e 2028. Esse número, porém, não significa R$ 23 bilhões já contratados para infraestrutura computacional. Os documentos aos quais a reportagem teve acesso identificam R$ 2,276 bilhões associados às duas novas rotas de supercomputação: cerca de R$ 1 bilhão para uma máquina a ser instalada no Rio Grande do Norte e R$ 1,276 bilhão, ao longo de cinco anos, para uma infraestrutura no Rio de Janeiro em parceria com Huawei e iFlytek.

O desenho é mais complexo que uma simples escolha entre tecnologia americana ou chinesa. O governo afirma que pretende diversificar fornecedores justamente para não trocar uma dependência por outra. No curto prazo, entretanto, a infraestrutura continuará dependendo de tecnologias desenvolvidas no exterior. Paralelamente, o país tenta construir uma camada própria de software de nuvem e, no longo prazo, adquirir maior domínio sobre chips.

Duas rotas

Foto: Sandro Menezes

A primeira grande máquina será adquirida por edital competitivo e instalada no Parque Tecnológico Augusto Severo, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. A execução ficará a cargo do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), com recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT).

A infraestrutura deverá alcançar aproximadamente 7.200 petaflops em FP16, o equivalente a cerca de 7,2 quintilhões de operações matemáticas por segundo, uma escala de processamento voltada principalmente ao treinamento de grandes modelos de inteligência artificial. Capacidade que, segundo o governo, poderá colocá-la entre as dez maiores máquinas do mundo para processamento de IA. A entrada em operação está prevista para o final de 2027.

O Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo – PAX | RN ocupa 50,36 hectares, possui aproximadamente 15 mil m² construídos, 76 lotes e 69 salas, além de auditórios, incubadora e áreas destinadas a empresas. Fica a cerca de 24 km de Natal, 22 km do aeroporto e 7,5 km da BR-304. Na mesma região estão o Instituto Santos Dumont, o Instituto Internacional de Neurociências Edmond e Lily Safra e o Centro de Educação e Pesquisa em Saúde Anita Garibaldi. Portanto, existe ali um núcleo científico anterior ao projeto do supercomputador, que deverá ganhar mais escala com a nova infraestrutura voltada para a supercomputação e IA.

O edital deverá incluir contrapartidas de transferência de tecnologia, pesquisa e desenvolvimento, conteúdo local, participação de fornecedores brasileiros e capacitação de 5 mil pessoas em cinco anos. Os documentos, entretanto, ainda não identificam quem fornecerá os aceleradores que constituirão o coração da máquina.

Também não se trata de um supercomputador destinado exclusivamente à administração pública. O FAQ preparado pelo governo e distribuído para a imprensa afirma expressamente que a máquina será uma “infraestrutura nacional de inteligência artificial”, disponível para empresas, universidades, instituições científicas e diferentes níveis de governo. O modelo de governança ainda deverá definir os critérios de seleção e priorização dos projetos que utilizarão sua capacidade.

Ficam, portanto, questões ainda sem resposta sobre quanto da capacidade será destinada a empresas privadas, se haverá cobrança pelo processamento e quais critérios serão usados para dividir uma infraestrutura bilionária financiada com recursos públicos.

Projeto revisto

A comparação entre os documentos anteriores do próprio governo e o anúncio atual revela uma mudança relevante no projeto. O desenho original do PBIA previa a aquisição de um supercomputador especializado em inteligência artificial com a meta de colocar o equipamento entre os cinco maiores do mundo. Para essa frente, o plano estabelecia R$ 1,8 bilhão entre 2024 e 2028, provenientes de FNDCT não reembolsável, Petrobras e Fapesp.

A previsão de R$ 1,8 bilhão permaneceu nos documentos oficiais ao longo de 2026. Em maio, o CTI Renato Archer, vinculado ao MCTI e então candidato a receber a infraestrutura, informava oficialmente que o supercomputador teria capacidade de 1 exaflop e custo avaliado em R$ 1,8 bilhão.

A prestação de contas do MCTI referente a 2025 também manteve esse valor. O documento registra uma dotação prevista de R$ 1,8 bilhão até 2027 para a aquisição da máquina e revela que R$ 28 milhões haviam sido empenhados em 2025. Segundo o ministério, esses primeiros recursos financiaram estudos técnicos, procedimentos de aquisição e a preparação da infraestrutura lógica e física necessária à implantação.

O anúncio atual apresenta outro número e outro desenho. A máquina que ficará no Rio Grande do Norte aparece agora com investimento estimado em cerca de R$ 1 bilhão, R$ 800 milhões abaixo da previsão anteriormente associada ao projeto. A documentação distribuída pelo governo não explica o que aconteceu com essa diferença, equivalente a aproximadamente 44% do valor anterior. Não esclarece se houve redução do escopo, revisão dos preços, separação entre o custo do equipamento e as obras de infraestrutura ou redistribuição de recursos.

Ontem numa coletiva de imprensa, da qual o blog não foi convidado a participar, técnicos do governo tentaram explicar a discrepância dos valores. Mas elas ainda carecem de credibilidade, pois tais informaçõess não constam na informação oficial divulgada agora para a imprensa. Fica então o fato pela versão.

Ao mesmo tempo, surgiu uma segunda rota de supercomputação que não aparecia dessa forma no desenho original: uma infraestrutura de R$ 1,276 bilhão em cinco anos, executada pela RNP em parceria com Huawei e iFlytek. Com isso, o programa deixou de estar concentrado na ideia de uma única grande máquina de R$ 1,8 bilhão e passou a apresentar duas infraestruturas que, juntas, somam R$ 2,276 bilhões nos valores divulgados agora.

A mudança amplia nominalmente o investimento em capacidade computacional, mas também muda sua natureza. Uma máquina será adquirida pelo Estado mediante competição e terá utilização compartilhada. A outra nasce de uma parceria tecnológica específica e terá como prioridade o desenvolvimento de modelos brasileiros de inteligência artificial.

Rota chinesa

A segunda infraestrutura será instalada no Rio de Janeiro. A Rede Nacional de Ensino e Pesquisa será responsável pela implantação em parceria com Huawei e iFlytek. O investimento é estimado pelo governo em R$ 1,276 bilhão ao longo de cinco anos, com início de operação previsto para julho de 2027. O projeto teve um acordo assinado entre o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o Serpro e iFlytek, em uma iniciativa que reposiciona a IA como infraestrutura crítica para o funcionamento do Estado brasileiro.

O projeto prevê transferência de tecnologia, capacitação de 3 mil brasileiros, desenvolvimento de uma “pilha de software soberana” e criação de um modelo de linguagem de grande escala nacional, além de modelos especializados em português.

Diferentemente do supercomputador do Rio Grande do Norte, que terá o fornecedor escolhido por competição, essa rota já identifica as parceiras tecnológicas. O FAQ esclarece ainda que a infraestrutura será utilizada prioritariamente para desenvolver modelos de linguagem gerais e destinados a setores específicos.

É nesse braço do programa que a aproximação tecnológica com a China se torna concreta. A Huawei possui uma estratégia própria de aceleradores para inteligência artificial, baseada na família Ascend, enquanto a iFlytek é uma das grandes empresas chinesas de inteligência artificial e processamento de linguagem.

Mas existe uma lacuna importante nos documentos. O valor de R$ 1,276 bilhão é informado sem detalhamento da engenharia financeira da parceria. Também não está esclarecido no material analisado quanto será recurso público brasileiro, quanto corresponderá a aportes ou contrapartidas da Huawei e da iFlytek, nem como o montante será dividido entre hardware, software, serviços, pesquisa e capacitação.

Da mesma forma não está definido nos documentos divulgados quem ficará proprietário dos equipamentos ao final dos cinco anos ou como será dividida a propriedade intelectual resultante do desenvolvimento da “pilha de software soberana” e do LLM nacional.

A questão é especialmente sensível porque a iFlytek está na “Entity List” dos Estados Unidos desde 2019, o que impõe controles ao seu acesso a determinadas tecnologias americanas. O projeto brasileiro, portanto, precisará deixar claro não apenas que tecnologia será transferida, mas também qual será a capacidade do país de operar e evoluir a infraestrutura independentemente das empresas parceiras.

Soberania relativa

É nesse ponto que aparece a principal contradição da estratégia. O próprio FAQ reconhece que soberania digital não significa produzir tudo internamente. Para o governo, significa ampliar alternativas, desenvolver capacidades brasileiras e preservar liberdade para substituir tecnologias e fornecedores no futuro.

O problema é que possuir uma máquina em território nacional não significa dominar a tecnologia que está dentro dela. Chips, aceleradores, sistemas de interconexão e parte importante do software de supercomputação continuam concentrados em poucas empresas e países.

A terceira rota do programa tenta enfrentar justamente essa dependência. O Brasil pretende desenvolver tecnologia baseada na arquitetura aberta RISC-V em cooperação com o ecossistema de inovação de Barcelona. A arquitetura permite desenvolver e adaptar processadores sem depender das licenças associadas a arquiteturas proprietárias. Mas o próprio governo estabelece um horizonte de 10 a 15 anos para essa estratégia. Até que ela eventualmente produza resultados industriais, a infraestrutura brasileira de IA continuará necessariamente apoiada em componentes estrangeiros.

Outra nuvem

O pacote revela agora uma mudança conceitual ainda mais importante na política de soberania digital. O governo começará a estruturar uma nova iniciativa denominada Nuvem Brasileira, diferente da Nuvem de Governo ou Nuvem Soberana que Serpro e Dataprev vêm construindo nos últimos anos.

A diferença está no que o Estado pretende controlar.

A Nuvem de Governo foi concebida para garantir que dados sensíveis permaneçam em território brasileiro, dentro de ambientes controlados pelo Estado e submetidos à legislação nacional. O modelo, entretanto, não eliminou a dependência tecnológica das grandes empresas estrangeiras.

O próprio FAQ reconhece isso de forma explícita. Segundo o documento, tecnologias de grandes empresas internacionais são instaladas fisicamente dentro dos ambientes controlados pelo Estado e dos data centers das empresas públicas. A gestão fica com Serpro, Dataprev ou órgãos governamentais. Essa infraestrutura não desaparece com o novo anúncio. Ao contrário, o próprio release estabelece que a “Nuvem Brasileira” – nova designação para a desgastada “Nuvem Soberana” – parte da experiência da nuvem já operada por Serpro e Dataprev.

O que muda é a ambição tecnológica.

Tecnologia própria

O FAQ afirma que não basta que os dados estejam fisicamente no Brasil. O novo objetivo é ampliar também o domínio nacional sobre as tecnologias utilizadas para armazená-los e processá-los.

Mais adiante, o documento explicita a diferença: enquanto a Nuvem de Governo utiliza tecnologias internacionais instaladas em ambientes controlados pelo Estado, a Nuvem Brasileira pretende envolver “o desenvolvimento do software necessário para que uma nuvem funcione”. É uma mudança importante no conceito de soberania adotado pelo próprio governo.

Na primeira etapa, soberania significava principalmente manter os dados no Brasil, controlar os ambientes físicos, a operação e a jurisdição. Na nova etapa, o governo passa a considerar necessário dominar progressivamente também a tecnologia.

MGI, ABDI, Serpro e BNDES participarão da estruturação da iniciativa. O primeiro passo será um acordo de cooperação e uma escuta de mercado destinada a identificar a capacidade da indústria brasileira, avaliar tecnologias e definir o modelo da futura plataforma. O Estado pretende utilizar seu poder de compra para criar escala para fornecedores brasileiros e posteriormente permitir que essas soluções também disputem o mercado privado.

Isso aproxima a Nuvem Brasileira muito mais de uma política industrial para computação em nuvem do que de uma simples contratação de serviços.

Investimento preservado

A criação da Nuvem Brasileira levanta uma questão inevitável: o que acontecerá com todo o investimento realizado pelo Serpro e pela Dataprev na atual Nuvem de Governo? Os documentos não indicam descontinuidade. Ao contrário, estabelecem uma relação de continuidade entre as duas iniciativas.

A infraestrutura física construída, os datacenters, redes, armazenamento, segurança, equipes e capacidade operacional podem continuar sendo utilizados. O que a nova política pretende atacar é uma camada diferente: a dependência do software e de componentes críticos fornecidos por empresas estrangeiras.

Isso significa que o investimento anterior não precisa ser descartado para que a Nuvem Brasileira seja construída. Dependendo da arquitetura que vier a ser escolhida, tecnologias brasileiras poderão progressivamente rodar sobre parte da infraestrutura existente ou coexistir com as plataformas internacionais.

Mas isso ainda é uma possibilidade técnica, não uma decisão anunciada. O governo não apresentou arquitetura definitiva nem cronograma de migração.

Transição aberta

É justamente nessa transição que surge uma nova frente de investigação. Porque o governo ainda não explicou se a Nuvem Brasileira será uma infraestrutura física separada, uma nova stack de software instalada nos datacenters de Serpro e Dataprev, uma plataforma federada envolvendo empresas públicas e fornecedores privados nacionais ou uma combinação dessas alternativas.

Também não está claro como serão tratados contratos já celebrados com fornecedores estrangeiros à medida que componentes brasileiros eventualmente se tornarem disponíveis.Essa pergunta ganha relevância porque o próprio governo reconhece agora que manter equipamentos e dados dentro do território nacional não é suficiente para alcançar o nível de soberania tecnológica pretendido.

A Nuvem Brasileira ainda está em estágio inicial. Não há nos documentos divulgados orçamento global, arquitetura definida, catálogo de serviços, cronograma de implantação ou fornecedores selecionados. O acordo entre MGI, ABDI, Serpro e BNDES servirá justamente para iniciar essa definição e consultar o mercado nacional.

Dados públicos

Há ainda uma consequência pouco destacada no anúncio. O governo pretende aproximar a crescente capacidade de armazenamento soberano da nova infraestrutura de inteligência artificial. O FAQ afirma que os dados mantidos pela Nuvem de Governo poderão ter uso estratégico em modelos de IA aproveitando as capacidades de alto desempenho dos supercomputadores.

Isso abre uma discussão que vai além da infraestrutura.

Será necessário definir quais bases governamentais poderão ser utilizadas, sob quais fundamentos legais, como informações pessoais ou sigilosas serão protegidas, onde ocorrerá o processamento e quais barreiras impedirão que fornecedores ou parceiros tecnológicos tenham acesso a dados protegidos.

A soberania futura dependerá, portanto, de pelo menos três camadas: controle sobre os dados, controle sobre a infraestrutura computacional e domínio suficiente da tecnologia para que o Estado possa substituir fornecedores sem perder a capacidade de operar seus próprios sistemas.

Terceira via

O conjunto dos anúncios revela que o Brasil está tentando construir uma terceira via tecnológica, mas ainda distante de possuir autonomia integral. No curto prazo, continuará utilizando tecnologia americana, chinesa e de outros fornecedores. Uma das grandes infraestruturas de IA já terá Huawei e iFlytek como parceiras; outra terá seu fornecedor escolhido por edital competitivo. A Nuvem de Governo continuará utilizando tecnologias estrangeiras enquanto o país tenta desenvolver uma camada nacional de cloud. E o domínio maior sobre chips é projetado para um horizonte de até 15 anos.

Nesse contexto, a expressão “soberania digital” passa a ter significado mais amplo do que aquele utilizado quando a Nuvem de Governo começou a ser construída. Na primeira etapa, soberania significava principalmente manter dados, equipamentos e operação sob controle brasileiro. Agora o próprio governo afirma que isso não basta.

O desafio passa a ser dominar progressivamente as tecnologias que processam esses dados.

É também por isso que os bilhões anunciados não podem ser avaliados apenas pelo número de máquinas instaladas no Brasil. O teste será descobrir quanto conhecimento ficará no país, quem será proprietário dos softwares e modelos desenvolvidos, quais direitos o Brasil terá sobre a propriedade intelectual, se será possível trocar fornecedores sem reconstruir toda a infraestrutura e quanto dos valores anunciados se converterá efetivamente em capacidade tecnológica nacional.

A mudança do projeto original do supercomputador ajuda a dimensionar esse desafio. O PBIA previa R$ 1,8 bilhão para uma grande máquina e o governo chegou a empenhar R$ 28 milhões em 2025 na preparação de sua aquisição. Agora apresenta uma máquina de cerca de R$ 1 bilhão e acrescenta uma segunda infraestrutura de R$ 1,276 bilhão vinculada à cooperação com Huawei e iFlytek.

O Brasil precisa da capacidade computacional estrangeira agora enquanto tenta construir condições para depender menos dela no futuro. A Nuvem Brasileira talvez seja o reconhecimento mais explícito desse paradoxo. Depois de investir para manter sob controle nacional os dados processados por tecnologias das big techs, o governo inicia uma segunda etapa: tentar fazer com que uma parcela crescente da própria tecnologia também seja brasileira.

A soberania anunciada, portanto, não é um ponto de chegada. É uma transição que poderá levar anos e cujo custo, arquitetura e grau efetivo de independência tecnológica ainda não estão completamente definidos.