Ana Estela Haddad deixa Saúde e entrega ao país as bases para consolidar o SUS Digital

Ana Estela Haddad deixou o comando da Secretaria de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde, a SEIDIGI, após permanecer por pouco mais de três anos e meio à frente do orgão. Ela foi a primeira titular da área criada no início do terceiro governo Lula. A exoneração, publicada no Diário Oficial da União, ocorreu “a pedido” e abre uma nova etapa na trajetória da professora e pesquisadora: ela deixa a administração federal para integrar a coordenação da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em São Paulo, ao mesmo tempo em que participa da campanha de seu marido, Fernando Haddad, candidato ao governo paulista.

Nesta quarta-feira (19) a ministra da Casa Civil, Miriam Belchior, nomeou Maria Aparecida Cina da Silva para exercer o cargo de secretária de Informação e Saúde Digital. A escolha mantém o comando da SEIDIGI dentro do grupo que participou da construção da política digital do ministério desde seus primeiros passos. Cina era a secretária-adjunta e, portanto, a segunda na hierarquia da estrutura comandada por Ana Estela.

É justamente esse aspecto que dá dimensão à troca. Ana Estela não deixa apenas um cargo administrativo. Ela foi a primeira secretária de uma estrutura criada em 2023 para tentar mudar a posição da tecnologia dentro da política de saúde. A proposta original da SEIDIGI foi retirar o digital da condição predominantemente associada à informática e aos sistemas do Datasus e colocá-lo no centro da formulação de políticas públicas com a transformação digital do setor. Na apresentação da nova secretaria, em janeiro de 2023, Ana Estela já afirmava que o objetivo era construir uma política de saúde digital capaz de dar sustentação às principais áreas estratégicas do ministério.

A materialização mais visível dessa mudança foi o Programa SUS Digital. Instituído pela Portaria GM/MS nº 3.232, de março de 2024, o programa estabeleceu formalmente uma política nacional de transformação digital que não se restringe à informatização dos serviços. Seu alcance inclui atenção à saúde, vigilância, formação de profissionais, gestão, planejamento, monitoramento, avaliação, pesquisa, desenvolvimento e inovação.

O programa também transformou a digitalização em política federativa. Estados e municípios passaram a participar do planejamento da transformação digital do SUS e a receber recursos específicos para isso. No balanço de 2024, o Ministério informou adesão de todos os municípios brasileiros ao SUS Digital e mais de R$ 464 milhões destinados a estados e municípios.

Outra peça central do legado é a consolidação da Rede Nacional de Dados em Saúde, a RNDS. A rede não nasceu na gestão Ana Estela, mas passou a ocupar posição central na arquitetura concebida pela SEIDIGI. Em vez de tentar substituir todos os sistemas existentes por uma única plataforma, a estratégia é fazer com que diferentes sistemas públicos e privados consigam trocar informações por meio de uma infraestrutura nacional de interoperabilidade.

A dimensão alcançada por essa infraestrutura mostra o tamanho do ativo que passa agora às mãos da nova secretária. Em maio deste ano, o Ministério informou que a RNDS já armazenava mais de 5 bilhões de registros, entre informações sobre vacinas, exames e outros dados de saúde. A rede tornou-se a infraestrutura que abastece, entre outras aplicações, o Meu SUS Digital.

Também foi sob Ana Estela que o antigo Conecte SUS foi reformulado e ganhou a identidade de Meu SUS Digital. O aplicativo deixou de funcionar essencialmente como uma carteira digital de vacinação para se transformar gradativamente em uma porta de entrada do cidadão para seus registros e serviços de saúde. O Ministério já informava mais de 50 milhões de downloads no início de 2025 e cerca de 30 funcionalidades.

Hoje, o usuário pode consultar pelo aplicativo histórico e carteira de vacinação, resultados de exames, medicamentos prescritos e dispensados, atendimentos, consultas e procedimentos agendados, informações sobre doação de sangue e posição na fila de transplantes, entre outros serviços. As informações são alimentadas a partir dos sistemas conectados à RNDS.

A expansão da telessaúde completa outro eixo da gestão. O balanço do Ministério mostra que os Núcleos de Telessaúde passaram de dez, em 2022, para 29 em 2024. A telessaúde deixou progressivamente de ser tratada como uma iniciativa paralela e passou a ser integrada à estratégia mais ampla de transformação digital, inclusive como componente do atendimento especializado.

Ana Estela deixa, entretanto, uma obra ainda longe de concluída. O tamanho da RNDS e a concentração crescente de informações clínicas ampliam os desafios de governança, segurança cibernética, privacidade e aplicação da Lei Geral de Proteção de Dados. A interoperabilidade ainda depende da integração de milhares de sistemas mantidos por estados, municípios, hospitais e prestadores privados. A existência de uma infraestrutura nacional de dados também não significa que o prontuário clínico esteja disponível de forma homogênea em todas as unidades de saúde do país.

A própria evolução do Meu SUS Digital mostra que a integração ainda está sendo construída. Neste ano, por exemplo, a SEIDIGI e a Secretaria de Atenção Primária estabeleceram as regras para integrar o agendamento on-line e o Prontuário Eletrônico do Cidadão do e-SUS APS ao aplicativo.

Porém, mesmo neste caso ela deixa a secretaria já com a implantação da pedra fudamental que garantirá a soberania e a integração dos dados do setor. Há duas semanas, junto com o ministro Alexandre Padilha, Ana esteve no Serpro para assinar o contrato que visa garantir a infraestrutura que sustentará o SUS Digital. O Ministério da Saúde irá levar os sistemas e bases estratégicas da saúde para a Nuvem de Governo operada pela estatal, incluindo ambientes relacionados à Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) e ao CadSUS.

A iniciativa prevê armazenamento, processamento, backup e recuperação de desastres em infraestrutura mantida no país e submetida à governança estatal, numa tentativa de reduzir a exposição de informações sensíveis de saúde a infraestruturas externas. O acordo coloca a soberania dos dados como parte da própria estratégia de transformação digital do SUS e deixa para a nova secretária o desafio de conduzir uma migração que envolve algumas das bases mais críticas e sensíveis administradas pelo governo federal.

É nesse ponto que a escolha da sucessora ganha importância. Em vez de buscar um nome externo, o governo promoveu justamente a segunda pessoa na cadeia de comando da secretaria. Maria Aparecida Cina da Silva integra a SEIDIGI praticamente desde sua criação. Em 2023, foi chefe de gabinete da secretaria. Em junho de 2024, foi formalmente designada secretária-adjunta, função que ocupava até a nomeação desta quarta-feira. O ato de 2024 determinava sua designação para a FCE 1.16 da secretaria, colocando-a imediatamente abaixo de Ana Estela na estrutura administrativa.

A nova secretária também não tem origem profissional na área tradicional de tecnologia da informação. É médica formada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas em 1992, mestre em Psiquiatria pela Universidade de São Paulo, doutora em Odontologia pela USP e concluiu pós-doutorado na Faculdade de Odontologia da mesma universidade em 2024. O currículo oficial registra ainda atuação como médica psiquiatra da Prefeitura de Santana de Parnaíba, desde 2018, e como professora convidada da pós-graduação da Faculdade de Odontologia da USP desde 2020.

Sua trajetória recente, porém, a colocou diretamente dentro da formulação da política de saúde digital. Antes de assumir a função de adjunta, Cina comandou o gabinete da SEIDIGI entre 2023 e 2024. Como número dois da secretaria, passou a representar formalmente a área em discussões internas e externas do Ministério. Documentos oficiais mostram, por exemplo, sua assinatura como secretária-adjunta em manifestações da SEIDIGI e sua participação, nessa condição, em reuniões do Conselho Nacional de Saúde.

Sua nomeação aponta, portanto, para uma opção pela continuidade. Maria Aparecida Cina participou da construção da estrutura que agora terá de comandar e acompanhou de dentro a implantação dos principais projetos deixados pela antecessora. Não recebe uma secretaria embrionária, como aconteceu com Ana Estela em 2023. Recebe uma estrutura responsável pelo DataSUS, pela RNDS, pelo Programa SUS Digital e por parte relevante da estratégia de telessaúde, interoperabilidade e serviços digitais do maior sistema público de saúde do país.

Há ainda uma diferença importante entre as duas fases. Ana Estela teve como desafio inicial institucionalizar a saúde digital e construir uma política nacional. Cina terá de demonstrar que essa arquitetura consegue funcionar em escala.

Isso significa transformar bilhões de registros acumulados na RNDS em informação disponível no momento do atendimento, fazer sistemas federais, estaduais, municipais e privados efetivamente conversarem, ampliar a utilização do Meu SUS Digital e dos serviços de telessaúde e, simultaneamente, proteger um conjunto de informações que inclui alguns dos dados pessoais mais sensíveis dos brasileiros.

A troca ocorre ainda no momento em que a infraestrutura tecnológica que sustentará parte desses serviços ganha dimensão estratégica. O crescimento da RNDS, dos serviços digitais e da integração de prontuários torna cada vez menos possível separar a política de saúde da discussão sobre infraestrutura computacional, nuvem, soberania tecnológica, segurança e controle dos dados.

É nesse estágio que Ana Estela deixa o governo. Sua passagem pela SEIDIGI poderá ser medida menos pela criação de um aplicativo ou de um sistema específico do que pela tentativa de mudar a própria lógica do digital dentro do SUS. Quando assumiu, em 2023, recebeu uma secretaria recém-criada. Ao sair para a campanha eleitoral em São Paulo, deixa para sua antiga número dois uma política nacional estabelecida, uma rede com bilhões de registros e serviços digitais que passaram a fazer parte da relação cotidiana entre o cidadão e o sistema de saúde.

Se Ana Estela teve como missão construir e institucionalizar essa nova camada digital do SUS, a responsabilidade de Maria Aparecida Cina será outra: provar que aquilo que foi construído consegue se transformar em uma infraestrutura nacional integrada, segura e efetivamente presente no atendimento à população.