
A Telebras quer deixar de ser reconhecida apenas como a empresa responsável por levar conectividade às regiões mais remotas do país para assumir um papel mais amplo na transformação digital do Estado. Essa foi a principal mensagem apresentada pelo presidente da estatal, Hermano Tercius Albuquerque, ao defender que a companhia evolui de uma operadora de infraestrutura de telecomunicações para uma fornecedora de soluções digitais capazes de apoiar a execução de políticas públicas em todo o território nacional.
Ao longo de sua apresentação, Hermano procurou reafirmar a função estratégica da Telebras dentro da estrutura do governo federal. Segundo ele, a empresa atua como braço de execução das políticas públicas definidas pelo Ministério das Comunicações, utilizando sua infraestrutura de satélites e redes terrestres para levar serviços públicos a localidades onde a iniciativa privada, muitas vezes, não possui interesse econômico em investir.
A conectividade, na visão do presidente da estatal, deixou de ser um fim em si mesma. Ela passou a ser apresentada como condição necessária para que escolas, hospitais, postos de saúde, unidades de segurança pública e outros órgãos governamentais consigam oferecer serviços digitais à população. “Não adianta levar conectividade se não conseguimos levar os serviços públicos”, afirmou.
Nesse contexto, Hermano destacou que a Telebras opera o Sistema Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC), descrito como o satélite soberano brasileiro responsável por garantir cobertura em todo o território nacional, especialmente nas regiões mais isoladas. O presidente informou ainda que a empresa já iniciou os procedimentos para aquisição de um segundo satélite geoestacionário, cuja consulta ao mercado (Request for Information – RFI) foi recentemente publicada. A expansão da capacidade satelital, segundo ele, faz parte da estratégia de ampliar as soluções de conectividade oferecidas pelo governo federal.
Além da infraestrutura espacial, o executivo ressaltou a rede de aproximadamente 32 mil quilômetros de fibra óptica operada pela estatal. Embora reconheça que grandes operadoras privadas possuam malhas muito superiores em extensão, Hermano argumentou que o diferencial da Telebras está na distribuição geográfica dessa infraestrutura. Enquanto a maior parte das redes comerciais se concentra nas grandes regiões metropolitanas, a estatal mantém presença em áreas remotas da Amazônia, do Centro-Oeste e do interior do país, permitindo a implantação de serviços públicos digitais em localidades historicamente desassistidas.
A apresentação também foi marcada pela defesa dos programas de inclusão digital executados pela empresa. Entre eles, Hermano citou o atendimento a escolas públicas, hospitais, postos de saúde, órgãos de segurança e unidades de fronteira, além de projetos específicos voltados à expansão da infraestrutura em áreas de baixa densidade populacional.
Um dos exemplos destacados foi a Infovia do Maranhão, iniciativa que está implantando um backbone de fibra óptica para conectar 25 municípios do interior do estado que, segundo o presidente da Telebras, nunca haviam contado com infraestrutura adequada de acesso à internet. Outro programa mencionado foi o Comunidades Conectadas, voltado a pequenas localidades com poucas centenas de habitantes. Nesse modelo, a estatal instala estações de comunicação via satélite associadas a redes LTE e distribui gratuitamente chips de telefonia móvel à população local, ampliando o acesso aos serviços digitais do governo.
Mais do que apresentar esses projetos, Hermano utilizou a oportunidade para defender uma mudança na identidade institucional da empresa. Segundo ele, a Telebras passa por um processo de transformação para deixar de ser exclusivamente uma empresa de conectividade e assumir o papel de provedora de soluções digitais para os órgãos públicos.
Essa mudança amplia significativamente o escopo de atuação da estatal. Na avaliação do presidente, a infraestrutura de telecomunicações continua sendo essencial, mas precisa ser acompanhada de serviços capazes de apoiar a digitalização do Estado e facilitar o acesso da população às políticas públicas. Embora não tenha detalhado quais novas soluções compõem esse portfólio, Hermano afirmou que a empresa trabalha para se tornar mais ágil, eficiente e produtiva na prestação desses serviços.
Para sustentar essa estratégia, o presidente destacou que a Telebras iniciou um processo de aproximação com empresas parceiras capazes de agregar soluções digitais à infraestrutura já operada pela estatal. A intenção, segundo ele, é formar um ecossistema que permita ampliar a oferta de serviços públicos nas regiões mais distantes do país. “A Telebras não completará essa missão sozinha”, afirmou, ao defender um modelo baseado em parcerias tecnológicas.
A apresentação evidencia um reposicionamento estratégico da empresa em um momento em que o governo federal amplia sua agenda de transformação digital. Se tradicionalmente a Telebras era associada à implantação de redes de comunicação e à execução de projetos de inclusão digital, a direção da companhia agora busca ampliar essa percepção, apresentando a estatal como uma plataforma de serviços capaz de integrar conectividade, infraestrutura e soluções digitais para apoiar a prestação de serviços públicos.
Ao lado das recentes discussões sobre soberania digital, expansão da infraestrutura de telecomunicações e universalização do acesso à internet, o discurso de Hermano Albuquerque indica que a Telebras pretende ocupar um espaço mais abrangente dentro da estratégia digital do governo federal. A conectividade permanece como sua principal missão, mas passa a ser apresentada como a base sobre a qual deverão funcionar políticas públicas digitais voltadas à educação, saúde, segurança e inclusão social nas regiões mais remotas do Brasil.
Hermano Albuquerque participou do painel “Infraestrutura suportanto o futuro dos serviços públicos”, no 53º Seminário Nacional de TIC para Gestão Pública (SECOP 2026), realizado dias 5 e 6 de agosto no Centro Internacional de Convenções do Brasil (CICB), em Brasília.







