Brasil produz ciência e patentes, mas ainda falha em transformar conhecimento em indústria

O Brasil voltou a ampliar sua produção científica, aumentou a participação de brasileiros nos pedidos de patentes e mobilizou dezenas de bilhões de reais em programas de pesquisa, desenvolvimento tecnológico e reindustrialização. Ainda assim, permanece sem uma resposta consolidada para uma pergunta decisiva: quanto do conhecimento produzido com recursos públicos se transforma em produtos, empresas, empregos qualificados, exportações e autonomia tecnológica?

Essa lacuna aproxima o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante visita à Avibras, na sexta-feira (24), as diretrizes do documento “Brasil Moderno”, preparado como contribuição ao programa de governo de 2027 a 2030, e o alerta feito pela engenheira Juliana Benício, pré-candidata a deputada federal pelo Republicanos do Rio de Janeiro, sobre as dificuldades enfrentadas por pequenas empresas de tecnologia.

As três manifestações relacionam ciência, indústria e atuação do Estado, mas não possuem o mesmo grau de comprovação. O discurso presidencial e o documento programático podem ser examinados diretamente. Já o episódio relatado por Juliana sobre uma empresa brasileira supostamente atraída pela Argentina, depois de não obter financiamento no Brasil, permanece sem confirmação independente. Ela não revelou o nome da companhia nem apresentou documentos sobre a proposta.

Ciência

O Brasil mantém uma base científica relevante. Em 2024, pesquisadores vinculados ao país publicaram 73.220 artigos, segundo levantamento da Elsevier em parceria com a Agência Bori. O resultado representou crescimento de 4,5% sobre 2023 e manteve o Brasil na 14ª posição mundial em volume de produção científica.

A recuperação, entretanto, ocorreu depois de dois anos de retração. O total de 2024 ainda ficou 11,2% abaixo do recorde de 82.440 artigos alcançado em 2021. Em uma comparação mais longa, a produção brasileira cresceu, em média, 3,4% ao ano entre 2014 e 2024, ritmo que colocou o país apenas na 39ª posição entre as 54 nações com mais de 10 mil artigos anuais.

Esses números mostram a capacidade brasileira de produzir conhecimento, mas não revelam quanto desse conhecimento se transforma em tecnologia aplicada. Um artigo científico não necessariamente resulta em patente, assim como uma patente não garante licenciamento, fabricação ou chegada ao mercado. O problema central está justamente na ausência de indicadores capazes de acompanhar essa trajetória.

Os dados estão no relatório “2024: retomada do crescimento da produção científica”, produzido pela Agência Bori e pela Elsevier. A página também oferece acesso ao estudo completo em PDF.

Patentes

Os dados do Instituto Nacional da Propriedade Industrial ajudam a dimensionar a etapa de proteção das invenções, mas precisam ser interpretados separadamente das estatísticas de publicações científicas.

Em 2024, o INPI recebeu 27.701 pedidos de patentes, considerando patentes de invenção, modelos de utilidade e certificados de adição. O total ficou praticamente estável em relação aos 27.918 pedidos de 2023. A mudança mais relevante ocorreu na origem dos depositantes: os pedidos apresentados por residentes brasileiros cresceram 11,6%, enquanto os de não residentes recuaram 5,3%.

Com isso, a participação dos residentes chegou a 30% do total, ante 27% em 2023 e 22% em 2015. Apesar do avanço, sete em cada dez pedidos continuaram sendo apresentados por estrangeiros.

Quando consideradas apenas as patentes de invenção, categoria mais diretamente associada à criação de soluções tecnológicas, a presença nacional foi menor. Dos 25.062 pedidos apresentados em 2024, 5.734 partiram de residentes e 19.328 de não residentes. Isso significa que somente 23% dos pedidos de patentes de invenção tiveram origem brasileira.

A evolução da última década mostra melhora relativa da participação nacional. Entre 2015 e 2024, os pedidos brasileiros de patentes de invenção cresceram 24,3%, apesar da retração do total de depósitos. A parcela dos residentes, por isso, passou de 15% para 23%. O movimento indica maior atividade inventiva de empresas, universidades e pesquisadores brasileiros, mas o sistema ainda permanece amplamente dominado por tecnologias de origem estrangeira.

Essa dependência aparece de maneira ainda mais clara no estoque de direitos válidos. Ao final de 2024, existiam 106.827 patentes de invenção vigentes no Brasil, mas apenas 10,6% tinham origem brasileira. Os Estados Unidos respondiam por 30,3%; a Alemanha, por 9,3%; o Japão, por 8,5%; e a França, por 6,6%.

O número de patentes concedidas naquele ano não deve ser usado como medida direta das invenções produzidas em 2024. O INPI concedeu 12.914 patentes, queda de 32,8% em relação a 2023, mas essas decisões se referem, em grande parte, a pedidos apresentados em anos anteriores.

Segundo o instituto, a redução decorreu do esgotamento do programa de combate ao estoque acumulado, da diminuição do quadro de pessoal e do período de treinamento dos novos servidores. Trata-se, portanto, mais de um indicador da capacidade de processamento do INPI do que do desempenho tecnológico do país naquele ano.

Os números podem ser consultados no Anuário Estatístico de Propriedade Industrial, nas tabelas completas dos indicadores de propriedade industrial e no Portal de Estatísticas do INPI. O balanço preliminar de 2024 também está disponível na página do instituto.

Universidades

Os dados mostram também que uma parcela crescente das invenções nacionais nasce no setor público de ciência e tecnologia. Entre 2015 e 2024, os pedidos apresentados por instituições de ensino, pesquisa e governo aumentaram 79%. A participação desse grupo no total depositado por residentes passou de 13% para 21%.

Em 2024, sete instituições de ensino ou pesquisa apareceram entre os dez maiores depositantes brasileiros de patentes de invenção. A Stellantis liderou o ranking, com 185 pedidos, seguida pela Petrobras, com 155. Depois vieram a Universidade Federal de Campina Grande, com 86; a Universidade Federal da Paraíba, com 76; a Universidade Federal de Minas Gerais, com 71; a Universidade Estadual de Campinas, com 68; a Universidade Federal do Rio de Janeiro, com 59; e a Universidade de São Paulo, com 56.

A presença das universidades entre os maiores depositantes confirma que a produção acadêmica brasileira não se restringe à publicação de artigos. As instituições públicas também geram invenções que buscam proteção industrial.

O dado, porém, expõe uma nova lacuna. O país sabe quantas patentes essas instituições depositam, mas não acompanha de maneira integrada quantas são licenciadas, adotadas por empresas, transformadas em produtos ou utilizadas em políticas públicas.

O INPI registra pedidos, concessões e patentes vigentes. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação recebe informações das instituições científicas sobre propriedade intelectual e transferência de tecnologia por meio do Formulário para Informações sobre a Política de Propriedade Intelectual, o FORMICT. O IBGE mede a inovação realizada pelas empresas.

Como essas bases não estão conectadas, não é possível acompanhar regularmente o percurso que começa no financiamento público e passa pela pesquisa, patente, licenciamento, produção, faturamento e geração de empregos.

As estatísticas sobre os maiores depositantes e a natureza das instituições estão disponíveis nas tabelas completas do INPI. As informações sobre propriedade intelectual e transferência de tecnologia das instituições científicas podem ser consultadas na página do FORMICT mantida pelo MCTI.

Indústria

A Pesquisa de Inovação Semestral 2024 do IBGE oferece uma visão sobre outra parte desse processo: a introdução de produtos e processos pelas empresas. O levantamento abrangeu companhias das indústrias extrativas e de transformação com 100 ou mais empregados. Seus resultados, portanto, não alcançam as micro e pequenas empresas, justamente o segmento colocado no centro do relato de Juliana Benício.

Em 2024, 64,4% das empresas pesquisadas introduziram produto ou processo de negócios novo ou substancialmente aprimorado. Foi o menor índice da série iniciada em 2021, quando a taxa alcançava 70,5%.

No detalhamento, 32,7% inovaram simultaneamente em produto e processo; 12,5%, apenas em produto; e 19,2%, somente em processo de negócios. A proporção de empresas com inovação de produto ficou em 45,2%, enquanto 51,9% introduziram mudanças em processos.

O grau de novidade ajuda a compreender o alcance tecnológico dessas inovações. Entre os principais produtos introduzidos pelas empresas, 71,1% eram novos apenas para a própria companhia; 24% eram novos para o mercado brasileiro; e somente 4,9% representavam novidade para o mercado mundial.

Esse último percentual melhorou ligeiramente em relação aos 4,4% registrados em 2023. Ainda assim, a predominância de produtos novos apenas para a própria empresa indica que grande parte do esforço industrial está concentrada na incorporação ou adaptação de tecnologias já existentes, e não necessariamente na criação de soluções de alcance internacional.

O porte empresarial interfere diretamente no resultado. A taxa de inovação foi de 59,8% entre as empresas com 100 a 249 empregados, de 65,7% na faixa de 250 a 499 e de 75,4% entre as companhias com 500 ou mais trabalhadores. A diferença entre os extremos chegou a 15,6 pontos percentuais.

Recursos

As empresas industriais inovadoras pesquisadas pelo IBGE investiram R$ 39,9 bilhões em pesquisa e desenvolvimento em 2024, aumento nominal de 4,4% sobre o ano anterior. A indústria de transformação respondeu por R$ 34 bilhões, ou 85,4% do total, enquanto as indústrias extrativas investiram R$ 5,8 bilhões, equivalentes a 14,6%.

A distribuição desses recursos mostra forte concentração. As empresas com 500 ou mais empregados ficaram com 87,4% do investimento. As companhias com 250 a 499 trabalhadores responderam por 7,8%, enquanto aquelas com 100 a 249 empregados receberam apenas 4,8%.

Em 2023, a menor faixa havia respondido por 7,9%. A redução para 4,8% indica que o crescimento nominal dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento não foi distribuído de maneira equilibrada.

A origem do financiamento reforça o problema. Dos R$ 39,9 bilhões investidos, 86% vieram das próprias empresas, 8% do setor público, 5% de instituições privadas e apenas 1% do exterior.

Mesmo entre companhias médias e grandes, portanto, o investimento em pesquisa depende principalmente de recursos próprios. Para uma pequena empresa que ainda precisa concluir um protótipo e não dispõe de receita suficiente ou garantias bancárias, essa estrutura pode inviabilizar o acesso ao crédito.

Em 2024, 38,6% das empresas inovadoras pesquisadas utilizaram algum mecanismo público de apoio, acima dos 36,3% de 2023. O instrumento mais usado foi a Lei do Bem, que alcançou 28,9% das companhias.

Novamente, o porte foi determinante. O incentivo foi utilizado por 46,4% das empresas com 500 ou mais empregados, 35,6% daquelas com 250 a 499 trabalhadores e somente 17,9% das companhias com 100 a 249.

Como beneficia empresas tributadas pelo lucro real e capazes de realizar previamente os investimentos, a Lei do Bem possui alcance menor entre companhias pequenas, iniciantes ou ainda sem lucro tributável.

Cooperação

Outro gargalo aparece na colaboração entre empresas, universidades, centros tecnológicos e fornecedores. Segundo o IBGE, somente 32% das empresas inovadoras estabeleceram alguma relação de cooperação em 2024.

O índice chegou a 50,3% entre as companhias com 500 ou mais empregados, caiu para 30,1% na faixa de 250 a 499 e ficou em 24,5% entre aquelas com 100 a 249 trabalhadores. Uma grande empresa apresentou, portanto, probabilidade aproximadamente duas vezes maior de cooperar com outros agentes do que uma companhia situada na menor faixa da pesquisa.

Quase metade das empresas inovadoras, 47,8%, declarou ter encontrado obstáculos. Os problemas mais citados foram instabilidade econômica, com 44,5%; capacidade limitada de recursos internos, com 43%; aumento da concorrência, com 42,1%; mudança de prioridades estratégicas, com 39,5%; baixa atratividade da demanda, com 37,9%; limitações tecnológicas externas, com 35,9%; e dificuldade para estabelecer parcerias, com 35,7%.

Os dados mostram que o desafio brasileiro não está apenas na produção de conhecimento. Ele se manifesta no financiamento, na cooperação, na demanda e na capacidade de transformar protótipos em produtos industriais.

Todos os indicadores dos blocos “Indústria”, “Recursos” e “Cooperação” estão reunidos na página da Pesquisa de Inovação Semestral 2024, que oferece acesso à publicação, às notas metodológicas e às planilhas com os resultados por atividade econômica e faixa de pessoal ocupado.

Avibras

Foi dentro desse contexto que Lula se pronunciou durante visita à Avibras. O presidente não empregou literalmente a expressão “pesquisa aplicada”, mas afirmou não haver explicação para que uma nação soberana permitisse a destruição de uma empresa que acumulou conhecimento tecnológico e produzia equipamentos importantes para a segurança nacional.

Lula também declarou querer as Forças Armadas preparadas tanto em armamentos quanto em conhecimento científico e tecnológico. Acrescentou que as Forças, em conjunto com o Ministério da Defesa, deveriam preparar as encomendas necessárias.

A fala associa soberania a três elementos: conhecimento tecnológico, capacidade industrial e demanda estatal. É nessa combinação que o discurso se aproxima do conceito de pesquisa aplicada.

Na indústria de defesa, o Estado geralmente é o principal comprador. Sem encomendas regulares, uma empresa pode dominar uma tecnologia e, mesmo assim, perder engenheiros, fornecedores e capacidade de produção. A compra pública funciona como instrumento de validação, ganho de escala e sustentação tecnológica.

A orientação também aparece na Estratégia Nacional de Defesa. O texto oficial prevê encomendas tecnológicas para aumentar o conteúdo nacional dos produtos de defesa e determina a aproximação entre produção científica e desenvolvimento tecnológico da Base Industrial de Defesa. A diretriz consta do Decreto nº 12.725.

A visita foi registrada pelo Palácio do Planalto e pelo Ministério da Defesa. A Política Nacional de Defesa, a Estratégia Nacional de Defesa e o Livro Branco estão reunidos no Decreto nº 12.725, de 18 de novembro de 2025.

Também marcou na agenda de um eventual quarto governo uma discussão ainda pendente, sobre o papel do Estado no financiamento à Inovação: a distância entre o discurso do governo e a capacidade efetiva de BNDES e Finep para transformar pesquisa em produção, contratos e empresas sustentáveis.

A Avibras expõe exatamente essa contradição. A empresa possui conhecimento acumulado, produtos estratégicos e capacidade industrial, mas Lula visitou a fábrica acompanhado de representantes do BNDES e da Finep sem anunciar financiamento, participação pública, encomenda ou contrato. Houve sinalização política, porém não foi apresentado o instrumento que converteria essa manifestação de apoio em escala produtiva.

Para que BNDES e Finep alterem as estatísticas da inovação brasileira, não basta ampliar o dinheiro disponível para pesquisa. É necessário assumir riscos, financiar a passagem do laboratório à fábrica e articular o crédito com encomendas públicas. A visita de Lula à Avibras demonstrou apoio político à indústria nacional de defesa, mas também expôs a lacuna entre o discurso e a execução: mesmo diante de uma empresa com tecnologia desenvolvida, capacidade industrial e importância estratégica reconhecida pelo governo, não houve anúncio de recursos, contrato ou demanda pública capaz de assegurar escala e continuidade à produção.

Em síntese, o problema não é somente a insuficiência de financiamento. Falta uma política que una Finep, BNDES, orçamento ministerial e poder de compra do Estado em torno de resultados industriais mensuráveis. Sem essa coordenação, os bancos podem ampliar desembolsos sem necessariamente reduzir a quantidade de pesquisas que não chegam ao mercado.

Diretrizes

O documento “Brasil Moderno”, preparado como contribuição às diretrizes do programa de governo de 2027 a 2030, segue a mesma orientação. Não se trata ainda de um programa eleitoral definitivo registrado na Justiça Eleitoral, e seu conteúdo poderá sofrer alterações durante a elaboração política. Mesmo assim, o texto apresenta uma posição clara sobre a relação entre ciência e indústria.

A diretriz 60 propõe articular a política de ciência, tecnologia e inovação com a política industrial, “para que a produção de conhecimento e tecnologia cheguem à sociedade e ao setor produtivo”.

A diretriz 44 trata a Base Industrial de Defesa como vetor de inovação civil e militar, autonomia tecnológica e defesa cibernética. A diretriz 46 propõe ampliar a presença brasileira em pesquisa, projeto, desenvolvimento tecnológico e manufatura complexa. A 48 prevê combinar investimento público, inovação e cooperação entre universidades, empresas e centros de pesquisa.

O tratamento das empresas menores aparece na diretriz 52, que propõe identificar micro, pequenas e médias empresas promissoras, ajudá-las a dominar tecnologias estratégicas e apoiar sua internacionalização.

A diretriz 57 prevê o uso de compras públicas, incentivos tributários e creditícios, conteúdo local, margens de preferência e exclusividade para bens e serviços nacionais. A 59 propõe atuação indutora do Estado em áreas como inteligência artificial, processamento de imagens, grandes bases de dados, robótica, computação quântica, medicamentos, novos materiais e tecnologias aeroespaciais e nucleares.

O documento relaciona a essas políticas R$ 30 bilhões destinados ao Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico em três anos; R$ 12,1 bilhões do Novo PAC para projetos como o laboratório Orion NB4, a segunda fase do Sirius, o Reator Multipropósito Brasileiro e um supercomputador para inteligência artificial; e R$ 23 bilhões para o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial em quatro anos.

Também menciona cerca de 1.700 unidades acadêmicas atendidas pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa, reajustes de 40% a 75% nas bolsas de formação científica, R$ 713 bilhões previstos no Plano Mais Produção até o final de 2026 e investimento nacional em pesquisa e desenvolvimento equivalente a aproximadamente 1,2% do Produto Interno Bruto.

O volume é expressivo, mas os dados do IBGE mostram que recursos anunciados e programas existentes não significam acesso uniforme. A maior parte do investimento industrial em pesquisa e desenvolvimento continua concentrada nas grandes empresas, enquanto as companhias menores dependem mais de recursos próprios, recebem menos apoio e cooperam menos.

O documento possui ainda uma falha editorial que reforça seu caráter preliminar. No item 61, a sequência salta da alínea “b” diretamente para a “j”, deixando ausentes as alíneas de “c” a “i”.

O processo de elaboração do plano de governo e seus 13 eixos temáticos está descrito pela Fundação Maurício Grabois e pelo PCdoB. O conteúdo do eixo “Brasil Moderno” foi detalhado anteriormente pelo Capital Digital nas reportagens sobre política industrial e financiamento, ciência e investimentos estratégicos e soberania digital e inteligência artificial.

Campanha política ou realidade?

Juliana da Câmara Torres Benício possui formação e experiência relacionadas ao debate. É engenheira de produção pela Universidade Federal Fluminense, mestre em Economia e doutora em Engenharia de Produção pela mesma instituição. Sua trajetória acadêmica inclui estudos sobre inovação, cooperação tecnológica, arranjos produtivos locais, eficiência e apoio à decisão.

Ela é professora do Instituto Federal do Rio de Janeiro e foi secretária municipal de Inovação, Ciência e Tecnologia de Niterói. Disputou a Prefeitura de Niterói em 2020 pelo Novo e recebeu 15.857 votos, equivalentes a 6,53% dos votos válidos.

Posteriormente, ingressou no Cidadania e ocupou cargo no governo municipal. Em abril de 2026, anunciou sua saída da legenda, afirmando não ter alinhamento com o PSB, partido com o qual o grupo político seguiria no Rio de Janeiro. Atualmente se apresenta como pré-candidata a deputada federal pelo Republicanos. A Tribuna registrou a saída do Cidadania, e conteúdos recentes de sua pré-campanha a identificam como filiada ao Republicanos. Sua apresentação profissional e acadêmica está disponível no perfil mantido por Juliana Benício.

A formação acadêmica e a experiência administrativa lhe conferem conhecimento para questionar a política de inovação. Não comprovam, porém, o episódio relatado em seu vídeo de campanha.

Juliana afirma ter conversado com uma empresa de São José dos Campos formada por aproximadamente 30 engenheiros. Segundo ela, a companhia produz pequenos satélites capazes de registrar imagens, comparar alterações no território, localizar desmatamento e ocupações irregulares e detectar sinais de rádio emitidos por embarcações.

A pré-candidata diz que a empresa conseguiu colocar um satélite em órbita, mas precisou produzi-lo no exterior. Afirma também que a companhia necessitava de cerca de R$ 5 milhões para terminar um protótipo, mas foi encaminhada pelo BNDES aos bancos comerciais e devolvida pelas instituições financeiras ao banco de desenvolvimento por atuar no setor de defesa.

O vídeo cita o BNDES Direto 10, linha anunciada em maio de 2019 para operações diretas entre R$ 1 milhão e R$ 10 milhões e suspensa em novembro daquele ano. Juliana sustenta que a linha atual de inovação começaria em R$ 20 milhões, deixando sem atendimento direto empresas que necessitam de valores menores.

As características originais do programa estão descritas no anúncio feito pelo BNDES em maio de 2019. A página do BNDES Direto 10 informa que a diretoria do banco suspendeu o recebimento de novas operações em 14 de novembro de 2019.

Segundo seu relato, um representante argentino teria visitado a companhia, mostrado um laboratório 30% concluído e oferecido recursos públicos para completar os 70% restantes, caso a operação fosse transferida para a Argentina.

Ela afirma ainda que a empresa ofereceu gratuitamente uma demonstração de bloqueio de drones e monitoramento por radar a uma força de segurança do Rio de Janeiro, mas a proposta teria sido recusada.

Não foi localizada confirmação pública independente desses acontecimentos. O vídeo não identifica a empresa, o representante argentino, o órgão responsável pela proposta, o local do laboratório, a data da negociação nem a força de segurança que teria rejeitado o teste. Também não apresenta contrato, carta de intenção ou outro documento.

Duas empresas de São José dos Campos se aproximam de partes da descrição feita por ela.

A Visiona Tecnologia Espacial, joint venture da Embraer Defesa & Segurança com a Telebras, desenvolveu o VCUB1, nanossatélite de aproximadamente 30 por 20 por 10 centímetros e cerca de 12 quilos, equipado com câmera multiespectral e rádio definido por software. O equipamento produz imagens destinadas, entre outras finalidades, ao monitoramento ambiental e ao planejamento urbano.

A correspondência, contudo, não é integral. A Visiona não é uma pequena empresa independente com cerca de 30 engenheiros. As informações públicas indicam ainda que o VCUB1 foi desenvolvido pela indústria nacional e integrado e testado no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Seu lançamento ocorreu nos Estados Unidos por um foguete da SpaceX, o que não equivale a ter sido fabricado no exterior.

As características e a origem nacional do VCUB1 estão descritas pela Agência Espacial Brasileira, pelo Ministério das Comunicações e no Catálogo da Indústria Espacial Brasileira.

A IACIT Soluções Tecnológicas, também sediada em São José dos Campos, é reconhecida como empresa estratégica de defesa. Produz o DRONEBlocker, sistema de contramedidas eletrônicas contra drones, e o radar OTH 0100 Surface Wave, capaz de detectar embarcações a até 200 milhas náuticas da costa.

Esses produtos coincidem com a parte do relato sobre bloqueio de drones e monitoramento marítimo. A IACIT, porém, não é apresentada publicamente como responsável por um pequeno satélite de observação colocado em órbita.

As informações sobre a empresa e sua condição de Empresa Estratégica de Defesa estão na página do Parque de Inovação Tecnológica de São José dos Campos. As características do radar podem ser consultadas na página do OTH 0100, e as do sistema de bloqueio, na página do DRONEBlocker.

Não há elementos suficientes para atribuir o episódio a nenhuma das duas empresas. A descrição pode reunir capacidades de companhias diferentes ou se referir a uma terceira empresa cuja identidade não foi divulgada. Até que surjam documentos ou informações adicionais, a oferta argentina deve ser tratada como uma alegação de campanha.

Resultado

O Brasil possui uma base científica expressiva e vem aumentando a participação nacional nos pedidos de patentes. Os indicadores, entretanto, descrevem partes isoladas do sistema. Os 73.220 artigos publicados em 2024 medem a produção acadêmica, enquanto os 5.734 pedidos de patentes de invenção apresentados por residentes registram apenas as criações que buscaram proteção no INPI. Não é possível estabelecer uma relação direta entre os dois números.

O dado mais revelador está na origem das tecnologias protegidas e no grau de novidade alcançado pela indústria. Apenas 10,6% das patentes de invenção vigentes no país tinham origem brasileira. Entre as empresas industriais pesquisadas pelo IBGE, somente 4,9% das principais inovações de produto eram novas para o mercado mundial.

Em conjunto, os indicadores sugerem que a capacidade científica brasileira ainda não se traduz, na mesma proporção, em domínio tecnológico e inovação de alcance internacional.

A dificuldade aumenta conforme diminui o porte da empresa. As companhias com pelo menos 500 empregados concentraram 87,4% dos R$ 39,9 bilhões investidos em pesquisa e desenvolvimento pela indústria pesquisada. Também tiveram mais acesso aos mecanismos públicos e maior capacidade de cooperar com universidades, fornecedores e centros tecnológicos.

O problema, portanto, não pode ser resumido à quantidade de artigos ou patentes. Ele está na falta de articulação entre pesquisa, financiamento, proteção intelectual, testes, compras públicas e produção industrial.

Lula e o documento “Brasil Moderno” apresentam a pesquisa aplicada, a política industrial e o poder de compra do Estado como partes de uma mesma estratégia. O desafio está em fazer essa orientação alcançar também as pequenas empresas, os projetos de menor valor e as tecnologias que ainda precisam do primeiro teste, da primeira certificação ou do primeiro contrato.

Sem uma base de dados capaz de acompanhar o caminho entre financiamento, pesquisa, patente, licenciamento, protótipo, compra pública e produção industrial, o governo continuará medindo separadamente cada etapa. E continuará sem saber quanto da ciência financiada pelo país chega efetivamente à sociedade.