
A desfaçatez do Governo Ratinho Junior não tem limites, quando se trata de difundir a tese liberal do “menos estado” na economia. Em 2025, quando apresentou ao mercado financeiro da Faria Lima, em São Paulo, um documento contendo informações para a venda Companhia de Tecnologia da Informação e Comunicação do Paraná (Celepar), a estatal foi tratada como uma empresa que tinha “todos os atributos para se tornar a primeira big tech do Paraná – e a mais confiável do Brasil”. Já em fevereiro deste ano, ao explicar para os 11.890.517 de paranaenses (IBGE) as razões para a venda da estatal de tecnologia, o governador Ratinho Júnior (PSD-PR) disse na imprensa: “Eu não posso deixar a Celepar virar os novos Correios”.
Um “Memorando Confidencial de Informações” do banco de investimentos Bradesco BBI, em poder do blog, contradiz a versão do governador Ratinho Junior de que a Celepar caminha para se tornar nos Correios, estatal federal que acumula mais de R$ 8,5 bilhões de prejuízos e tem projeção do Ministério da Fazenda de que o rombo poderá chegar a R$ 10 bilhões.
Ao contrário, o documento mostra que, aos olhos do Bradesco BBI, os investidores terão na compra da Celepar uma oportunidade de negócios em solo paranaense através da estratégica captura de valor em inteligência artificial, dados públicos, plataformas digitais e infraestrutura crítica em poder do governo do estado.
Denominado como “Projeto NEX”, o documento mostra uma tentativa clara de reposicionar politicamente a estatal perante investidores da Faria Lima. Em vez de justificar a privatização com base em ineficiência ou prejuízo, como ocorreu em diversos processos históricos no país, o memorando apresenta justamente o oposto da versão “Correios” de Ratinho Júnior: uma empresa lucrativa, escalável, conectada ao mercado de inteligência artificial e inserida em setores estratégicos da economia digital.
O documento sustenta que a Celepar já opera sistemas críticos do Estado em áreas como saúde, segurança pública, educação, arrecadação, mobilidade urbana e gestão pública. Ao mesmo tempo, tenta convencer investidores de que esses ativos podem ser monetizados, expandidos e transformados em produtos escaláveis de GovTech. A estatal e sua linha do tempo desde 1964 (sua fundação), até o ciclo de privatização de 2024/25, é apresentada como empresa pública em “forte crescimento após a onda da Tranformação Digital”.
Dados públicos
O ponto mais sensível do memorando aparece justamente na discussão sobre dados governamentais. O texto admite explicitamente que a Celepar opera infraestrutura crítica ligada à custódia de informações públicas e afirma que “todos os dados pertencentes aos cidadãos do Estado devem permanecer dentro do Paraná, sob supervisão de autoridade local”.
A passagem é relevante porque desmonta parcialmente o discurso de que a privatização envolveria apenas uma empresa de tecnologia convencional. O próprio material utilizado para atrair investidores reconhece o caráter estratégico da operação ao enfatizar soberania de dados, supervisão estatal e segurança da informação. O documento informa ainda que o modelo futuro deverá estabelecer “patamares mínimos de investimento em segurança da informação” e um sistema regulatório potencialmente “mais rigoroso que o nacional”.
Em uma frase politicamente reveladora, o memorando afirma que a privatização evita “a dinâmica do Estado multando a si mesmo”. Na prática, os formuladores do projeto sugerem que o ambiente privado permitiria maior fiscalização e responsabilização do que o modelo estatal atual.
Infraestrutura crítica
O memorando descreve a Celepar como operadora de plataformas estratégicas do Estado do Paraná. Entre os serviços citados aparecem:
- videomonitoramento integrado a bancos de ocorrências policiais;
- prontuário eletrônico do cidadão;
- plataformas educacionais;
- sistemas de arrecadação digital;
- rastreamento em tempo real do transporte público;
- dashboards socioeconômicos;
- integração de bases governamentais;
- inteligência artificial aplicada a dados públicos.
E transforma essa infraestrutura estatal em argumento de valorização financeira. A lógica apresentada aos investidores é a de que a digitalização acelerada dos governos criou um enorme mercado potencial para empresas especializadas em GovTech. O material afirma que governos digitalmente avançados tendem a ser “mais responsivos, resilientes e confiáveis”, ao mesmo tempo em que aponta ganhos trilionários globais ligados à digitalização estatal. Segundo o texto, a pandemia da Covid-19 acelerou esse processo ao transformar plataformas digitais em infraestrutura essencial da administração pública.
IA governamental
Grande parte da argumentação econômica do memorando está baseada na expansão da inteligência artificial. O documento dedica páginas inteiras para mostrar projeções globais do mercado de IA, analytics, cloud e IoT. A Celepar é apresentada como posicionada para capturar esse crescimento por já operar grandes bases públicas de dados e plataformas digitais governamentais.
O material afirma que o mercado global de inteligência artificial poderá saltar de US$ 638 bilhões em 2024 para US$ 2,575 trilhões em 2032. Também sustenta que o Brasil deverá receber cerca de US$ 6,5 bilhões em investimentos ligados a data centers e infraestrutura digital até 2030. O texto associa diretamente o crescimento da Celepar à expansão de:
- IA generativa;
- cloud computing;
- segurança cibernética;
- IoT;
- analytics;
- big data;
- transformação digital governamental.
Paraná digital
Outro eixo estratégico do memorando é a tentativa de vender o Paraná como polo emergente de infraestrutura digital e data centers. O documento destaca que o estado possui:
- 98% da matriz energética baseada em fontes renováveis;
- classificação AAA da Fitch;
- mais de 160 hubs de inovação;
- forte crescimento do PIB;
- posição de destaque em serviços digitais.
A narrativa busca conectar a privatização da Celepar ao movimento global de expansão de data centers e IA intensiva em energia elétrica, como no caso do Brasil onde se estuda a criação do regime especial de incentivos ao setor, denominado “Redata”. Segundo o texto, o Paraná teria condições de se transformar em um “hub de investimentos em energia” e infraestrutura digital. O memorando também conecta a Celepar ao agronegócio digital, cidades inteligentes e plataformas de gestão territorial.
Empresa lucrativa
Os números financeiros apresentados no documento reforçam uma das maiores controvérsias do processo de privatização: a Celepar não aparece como estatal deficitária. Pelo contrário. Segundo o memorando, a companhia registrou em 2024:
- receita bruta de R$ 576 milhões;
- margem EBITDA de 30,6%;
- margem líquida de 26,8%;
- mais de R$ 2,6 bilhões em contratos;
- 134 contratos ativos;
- 121 entidades governamentais atendidas.
O crescimento entre 2021 e 2024 é destacado em diversos gráficos do documento. A receita líquida sobe de R$ 285 milhões para R$ 495 milhões no período. O EBITDA passa de R$ 36 milhões para R$ 151 milhões. O lucro líquido cresce de R$ 19 milhões para R$ 132 milhões.
Mercado GovTech
O memorando apresenta o setor GovTech como um dos grandes vetores globais da economia digital. O documento afirma que a digitalização governamental saiu de iniciativas isoladas nos anos 1990 para um modelo de infraestrutura pública digital integrada, envolvendo:
- identidade digital;
- pagamentos digitais;
- interoperabilidade;
- dados públicos interconectados;
- inteligência artificial aplicada à gestão pública.
Segundo o texto, o mercado global de GovTech deverá praticamente dobrar em dez anos. O memorando também cita ganhos potenciais trilionários em eficiência, transparência e sustentabilidade decorrentes da digitalização dos governos.
Blindagem jurídica
O documento revela preocupação intensa com sigilo, judicialização e proteção dos envolvidos na operação. O aviso legal do memorando praticamente elimina responsabilidades sobre projeções financeiras e informações prestadas aos investidores. Convém lembrar que o governo do estado chegou a buscar consultoria para indicar caminhos mais rápidos de privatização, que pudesse evitar a judicialização. A consultoria apresentou caminhos possíveis que pudessem permitir o governo vender rápido e depois evitar perdas judiciais devido ao “fato consumado”, pois juiz nenhum cancelaria o processo, pois a empresa já estaria vendida.
O texto afirma que:
- o Bradesco BBI não realizou verificação independente dos dados;
- não há garantias sobre as informações apresentadas;
- negociações podem ser interrompidas a qualquer momento;
- investidores não podem alegar dependência das projeções;
- todo o material deve permanecer sob confidencialidade absoluta.
O memorando também proíbe contatos diretos com dirigentes e funcionários da Celepar, centralizando toda a interlocução no Bradesco BBI. O documento mostra, na prática, como a Faria Lima passou a enxergar empresas públicas de tecnologia: não como estruturas administrativas estatais tradicionais, mas como plataformas de dados, inteligência artificial e infraestrutura digital capazes de gerar forte valorização privada em um mercado global dominado por IA, cloud e analytics governamental.
Discursos e comportamentos
Ao longo do processo de privatização, integrantes do alto escalão do governo do Paraná também passaram a construir um discurso político de desqualificação indireta da capacidade estrutural da Celepar enquanto estatal. O problema é a credibilidade desses discursos, diante de fatos estranhos que orbitam a privatização da estatal ou em paralelo à venda da empresa.
Guto Silva (PSD), ex-secretário das Cidades e também da Casa Civil do Governo do Paraná, amplamente favorável á venda de Celepar, defendia que o Estado deveria concentrar recursos apenas em atividades consideradas essenciais, deixando setores altamente intensivos em tecnologia sob responsabilidade do capital privado. Defendia até deixar o governo, no momento em que foi o alvo de uma série de reportagens publicadas pela Gazeta do Paraná que o colocam no centro de uma série de escândalos envolvendo o programa de videomonitoramento “Olho Vivo”, projeto de segurança pública avaliado em cerca de R$ 580 milhões.
Já o deputado estadual Marcelo Rangel (PSD), que ocupou a Secretaria de Inovação, Modernização e Transformação Digital do Paraná, afirmou em entrevistas que a iniciativa privada teria maior velocidade de modernização e capacidade de expansão nacional da Celepar. O conjunto dessas declarações ajudou a consolidar a narrativa usada no memorando do Bradesco BBI, que apresenta a estatal não como patrimônio tecnológico consolidado do Estado, mas como uma empresa supostamente limitada pelo ambiente público e que precisaria ser “destravada” pelo mercado para se transformar em uma plataforma privada de GovTech, inteligência artificial e dados.
Agora já são três as indagações que o blog faz para o governador Ratinho Júnior: 1- Como ele explica a Celepar caminhar para se transformar nos Correios, se o governo dele mostra na Faria Lima uma empresa em condições financeiras de se tornar a “primeira big tech do Paraná?”
2 – Como ele diz que a Celepar tem potencial econômico para ser uma big tech e cobra pela venda dela um valor tão baixo, considerando somente o que ela gera de lucro?
3 – Como explicar para os 11.890.517 paranaenses que eles valem apenas R$ 100 – se dividido com eles o preço estimado para venda da estatal?












